Ativista Rosa Marlene falece em Recife devido a leptospirose após enchentes devastadoras

A ativista Rosa Marlene, conhecida por sua atuação na luta por habitação no Movimento Urbano dos Trabalhadores Sem-Teto (MUST), faleceu no dia 16 de março. Informações de colegas de luta indicam que ela contraiu leptospirose durante as fortes chuvas que provocaram inundações em 1º de maio. A falta de infraestrutura e a ausência de manutenção por parte do Estado resultaram em alagamentos e deslizamentos em áreas vulneráveis. Ao menos 12,4 mil pessoas foram deslocadas de suas casas, e com a morte de Rosa, o total de vítimas fatais em Pernambuco devido à negligência das chamadas “autoridades estatais” chega a sete.  

No mesmo dia das enchentes, um repórter local da AND entrevistou Rosa, que revelou ter passado o dia e a noite se dedicando à cozinha da ocupação para garantir refeições para 30 das 60 famílias que permaneceram no local, apesar das condições adversas. 

A ocupação Márcio Wanderley, situada no bairro Dois Irmãos às margens do rio Camaragibe, foi uma das áreas mais impactadas pelas chuvas. Os alagamentos atingiram alturas entre 1 e 3 metros, submergindo os barracos da região mais densamente habitada da ocupação. Um representante do MUST denunciou ao AND que, passadas duas semanas após os desastres, a Defesa Civil ainda não havia comparecido ao local.

Rosa Marlene é uma figura emblemática na luta por moradia. Ela esteve presente na fundação da ocupação Márcio Wanderley em 24 de agosto de 2024, quando moradores da antiga ocupação Chico Lessa se reuniram às margens da BR-101. A desocupação ocorreu após um acordo firmado entre a população e a Secretaria de Habitação (Sehab), a Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag) e a empresa Florestal, pertencente à família Brennand de Souza Leão. Esse pacto destinou uma área de 7,6 mil m² para os trabalhadores sem-teto do MUST construírem 192 unidades habitacionais para aqueles que viviam na antiga ocupação. Rosa Marlene residiu na Chico Lessa por dois anos antes de se mudar para a Márcio Wanderley. Em entrevista ao jornal Marco Zero Conteúdo em 2024, ela compartilhou: “Antes eu morava lá na comunidade do Detran, mas onde eu morava era muito apertado para mim e para minha família; não havia espaço nem para guardar minhas coisas direito. Aqui me sinto livre como um pássaro.” A antiga ocupação abrigava cerca de 270 famílias. 

Crime disfarçado de ‘desastre’

Pesquisadores e instituições científicas há décadas apontam que Pernambuco enfrenta um período chuvoso regular entre abril e julho, com maio e junho sendo os meses mais críticos em termos de precipitações.

No final de maio de 2022, Pernambuco registrou uma das maiores chuvas já vistas na região, resultando em 133 mortes e afetando cerca de 120 mil pessoas, além de milhares de desalojados. No dia 27 daquele mês, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) já havia emitido avisos sobre as tempestades iminentes. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também revelou que existem mais de 8,2 milhões de residências em condições arriscadas no Brasil. Contudo, as ações tomadas pelo governo federal e estadual na época – sob o comando de Jair Bolsonaro (PL) e Paulo Câmara (PSB) – foram realizadas apenas após a calamidade já ter ocorrido. Nas recentes chuvas em maio de 2026, as medidas foram ainda mais insuficientes: Recife ofereceu apenas 1.400 vagas para acolher as 12,4 mil pessoas desalojadas pela catástrofe.  Além disso, um levantamento do Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil mostrou que o número total de cidades brasileiras com moradores em áreas vulneráveis aumentou para 1.924 em 2024, representando um crescimento alarmante de 136%.

Enquanto isso, a prefeitura do Recife – sob gestão do pré-candidato ao governo estadual João Campos (PSB) – destinou recursos significativamente maiores para publicidade do que para prevenção contra desastres naturais. Dados do Portal da Transparência indicam um investimento modesto de R$ 236 milhões em drenagem urbana e contenção contra alagamentos, enquanto aproximadamente R$ 600 milhões foram gastos em propaganda e eventos festivos; quase três vezes mais que o destinado à proteção das populações vulneráveis.

Diante dos desalojamentos massivos, a população se mobilizou. Em protesto no dia 5 de maio, moradores do bairro Peixinhos fecharam a Avenida Presidente Kennedy queimando pneus e exigindo alimentos da prefeitura para os abrigos onde estavam alojados. Em resposta habitual do Estado à insatisfação popular, a Polícia Militar foi enviada ao local e reagiu com violência contra os manifestantes.

Citando essa realidade devastadora durante um protesto contra a indiferença governamental nas chuvas anteriores a este evento trágico em 2022, o mecânico Edson Souza comentou: “Na verdade isso não é uma tragédia; é uma chacina. Isso acontece todos os anos; embora nunca tenha sido nessa proporção antes. E infelizmente parece distante qualquer mudança nesse cenário.”