Movimento de trabalhadores e agricultores forma um ‘labirinto político’ desafiador para conservadores na Bolívia

A capital boliviana, La Paz, se converteu em um verdadeiro campo de combate. Grupos de mineiros, trabalhadores de fábricas, agricultores e estudantes cercaram as entradas do quilômetro zero da cidade, determinados a provocar a queda do governo conservador de Rodrigo Paz Pereira, que está em seu cargo há apenas seis meses. No dia 18 de maio, as massas utilizaram suas táticas históricas de resistência e enfrentaram por mais de duas horas a forte repressão da polícia que tentava acessar a Praça Murillo, onde estão situadas a sede do Executivo e a Assembleia Legislativa.

O cerco ao núcleo da burocracia governamental foi realizado com estratégias bem coordenadas. Um grupo dos Ponchos Vermelhos, uma organização camponesa reconhecida por sua luta histórica, avançou pela avenida Sucre visando romper as barreiras policiais na parte superior da praça. Ao mesmo tempo, representantes da Central Operária Boliviana (COB), junto com operários de diferentes setores e mineiros, pressionavam os acessos inferiores e traseiros da área. A coragem dos manifestantes, que chegaram a atear fogo em um veículo policial, levou o governo a evacuar rapidamente funcionários públicos e comerciantes das imediações, esvaziando a região diante da iminente perda de controle estatal.

As forças policiais reagiram com um ataque incessante utilizando gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes. Em resposta, os protestantes criaram barricadas nas esquinas e ruas adjacentes utilizando portas, janelas de madeira e outros materiais encontrados nas proximidades para neutralizar o efeito dos agentes químicos. Armados com estilingues, pedras e fogos de artifício, os trabalhadores em revolta demonstraram uma resistência firme que impediu o retrocesso das linhas de manifestação, transformando as vias urbanas em trincheiras contra o aparato policial-militar do antigo Estado boliviano.

A ofensiva judicial e a caça aos líderes sindicais

Frente à incapacidade de controlar a insurreição popular, o governo acionou seu aparato jurídico para tentar desmantelar a liderança dos movimentos sociais. O Procurador-Geral do Estado, Roger Mariaca, anunciou diretamente de Sucre que mandados de prisão foram emitidos contra Mario Argollo, secretário-executivo da COB, além de outras 24 lideranças sindicais e agrárias envolvidas na organização dos bloqueios. As ordens foram justificadas com base em processos judiciais alegando crimes supostamente cometidos durante três semanas de conflitos e interrupções nas rodovias que paralisaram o país.

A acusação formal atribuída pelo governo aponta os líderes como responsáveis por ações “terroristas” destinadas à desestabilização do Poder Executivo. Essas alegações incluem o uso generalizado de explosivos durante os protestos. A repressão também se estendeu às cidades vizinhas na região metropolitana, resultando em uma série de invasões e detenções arbitrárias visando desmobilizar o apoio logístico das massas.

O resultado das operações punitivas realizadas pelas forças repressivas na zona sul de La Paz e em El Alto contabilizou 50 ativistas detidos. O coronel Henry Pinto, chefe da Força Especial de Combate ao Crime (Felcc), informou que 15 manifestantes foram liberados enquanto 19 aguardam audiência. “Três indivíduos receberam condenação judicial para cumprir quatro meses em prisão preventiva no Presídio de San Pedro. Outros cinco devem comparecer ao Ministério Público a cada 15 dias e oito estão sob prisão domiciliar sem direito ao trabalho”, explicou.

A justificativa da polícia para essas detenções é que muitas ocorreram devido à suposta posse e manipulação de substâncias explosivas direcionadas contra os agentes do Estado. Além disso, os manifestantes detidos estão sendo investigados pelo Ministério Público sob acusações relacionadas à destruição e deterioração de bens públicos. Essa criminalização judicial avança paralelamente aos ataques nas rodovias onde denúncias indicam que ações violentas resultaram no assassinato de pelo menos dois manifestantes e deixaram dezenas de civis feridos.

As raízes da revolta: fome e latifúndio

A atual revolta popular na Bolívia é consequência direta das políticas antipúblicas implementadas logo após a chegada ao poder de Rodrigo Paz em dezembro de 2025, encerrando quase duas décadas sob uma falsa esquerda. O ponto inicial das mobilizações foi um decreto executivo que eliminou completamente os subsídios aos combustíveis, levando a um aumento imediato nos preços da gasolina e impactando drasticamente o custo de vida das pessoas.

A situação se agravou ainda mais quando o governo tentou aprovar uma nova legislação sobre terras. Comunidades indígenas e organizações camponesas rapidamente denunciaram que essa proposta tinha como objetivo atacar a produção familiar e confiscar terras tradicionais para beneficiar interesses do agronegócio exportador. Com o discurso oficial afirmando que buscava combater a crise econômica e fortalecer a agricultura nacional, essa lei na verdade pretendia legalizar práticas predatórias sobre a terra agrícola. A Confederação Nacional de Mulheres “Bartolina Sisa” convocou suas bases para resistir ativamente nas estradas.

No dia 17 de maio, uma nota oficial divulgada pela direção da Confederação camponesa expressou indignação frente à política governamental: “O governo interveio violentamente na mobilização popular deixando um rastro de mortos, feridos e detidos devido à brutalidade policial”. A organização afirmou categoricamente que o velho Estado visa apenas satisfazer as demandas das classes privilegiadas com medidas constitucionais que buscam retirar nossas terras para entregá-las aos latifundiários.

À medida que as manifestações continuavam sem serem desmobilizadas pela repressão policial falha, as reivindicações dos setores mobilizados se ampliaram. Os mineiros exigem acesso livre a insumos industriais essenciais como combustíveis e explosivos utilizados na extração mineral; além disso pedem urgentemente uma revisão dos contratos existentes no setor minerário. Os professores também se uniram aos protestos clamando por aumentos salariais imediatos e por verbas adequadas para escolas deterioradas. Transportadores afetados pela escassez de óleo diesel e gasolina declararam greve indefinida transformando as manifestações dispersas em uma greve política massiva.

Bloqueios rodoviários paralisam o país

A eficácia das táticas utilizadas pelos trabalhadores rurais evidenciou-se através do bloqueio das principais rotas econômicas da Bolívia. Segundo dados divulgados pela Administradora Boliviana de Estradas (ABC), até 17 de maio haviam sido registrados pelo menos 23 pontos com interrupção total em rodovias federais e estaduais. O cerco logístico concentra-se principalmente ao redor do departamento La Paz onde treze estradas estão completamente obstruídas por troncos, pedras e barricadas humanas impossibilitando o transporte regular tanto de mercadorias quanto combustíveis para áreas urbanas.

Relatórios da Polícia Departamental em Potosí informam sobre duas frentes bloqueadoras nas regiões Potosí e Chuquisaca que isolaram acessos aos distritos Tarija e Oruro. O coronel Pompeyo Sánchez relatou que patrulhas realizam vigilância contínua nessas áreas conflituosas. Na estrada entre Potosí e Oruro os camponeses locais obstruíram totalmente a via usando grandes troncos e rochas impedindo passagem tanto para caminhões quanto ônibus intermunicipais.

Os membros do Sindicato dos Trabalhadores Departamentais em Potosí estabeleceram outro bloqueio próximo à localidade San Antonio definindo um prazo inicial para permanecer nesse isolamento por 24 horas; além disso moradores da área Padcoyo interromperam também o tráfego rumo Tarija. Em Chuquisaca iniciou-se um bloqueio na localidade San Lucas onde aproximadamente cem camponeses ergueram um posto controle interrompendo assim o trajeto entre Sucre ao sul do país conforme informações fornecidas pelo Coronel Roger Costas.

O Coronel Iván Costas detalhou ainda que essa barricada foi montada na comunidade Sivingani Mayo seguindo deliberações feitas durante assembleia popular anterior; ele acrescentou ainda que novos grupos camponeses junto com municípios vizinhos estão formalmente aderindo aos protestos segundo relatórios dos serviços secretos locais. O fechamento logístico da capital aumentou após o fechamento da rota Sucre-Cochabamba devido à instalação recente dessa barricada no cruzamento Vacas no último fim de semana.

A Federação Unificada dos Trabalhadores dos Povos Originários (Futpoch) assumiu liderança política nos bloqueios dentro deste departamento; seu diretor executivo Julián Romero Bejarano justifica essas ações como reações legítimas diante da ausência contínua políticas econômicas efetivas capazes acabar com miséria ou fome nessa região.”O povo cansou desse governo surdo às demandas sociais; esse bloqueio representa apenas um começo prolongado dessa luta”, declarou ele.

‘É necessário agir com força extrema’, clama representante reacionário

A luta combativa das massas causou desespero entre representantes do grande empresariado rural bem como latifundiários; Klaus Frerking presidente Câmara Agrícola Leste (CAO) expressou publicamente sua indignação antes mesmo entrada Assembleia Santa Cruz convocada Comitê Pró-Santa Cruz; porta-voz desses proprietários rurais exigiu aplicação medidas “extremas” contra camponeses ressaltando prejuízos financeiros enfrentados setor agroexportador nos últimos 22 dias devido paralisação exportações mercadorias mercado internacional totalizando perdas superiores US$50 milhões.

Frerking lamentou impacto dessa estratégia sobre arrecadação divisas afirmando: “Há mais 22 dias não conseguimos exportar sequer dólar algum; precisamos moeda estrangeira sair dessa crise podendo ser feito somente reabrindo todas rodovias.” Ele mencionou casos específicos danos econômicos ocorrendo periferia mencionando parada total colheita castanhas departamento Pando já há mais três semanas impossibilitada devido falta escoamento logístico.

Na mesma linha crítica Manuel Saavedra prefeito Santa Cruz la Sierra aproveitou oportunidade questionar legitimidade política dessas mobilizações populares caracterizando-as como complô orquestrado derrubar Executivo “Já vimos esse filme repetir-se; problemas surgem são resolvidos novos problemas inventados até exigirem renúncia governo democraticamente eleito”, argumentou político local defendendo endurecimento medidas punitivas contra grevistas alegando “cada estrada obstruída artéria fechada lentamente matando nosso país”.

Apesar retórica bélica classes dominantes acusações provenientes inteligência estatal tentando deslegitimar revolta popular rotulando-a mera “Marcha Evo” armada avanço contundente manifestações colocou governo numa situação complicada forçando retrocessos visíveis antigo Estado; acuado abrangência descontentamento social bloqueios ameaçavam provocar desabastecimento total centros políticos presidente Rodrigo Paz viu-se obrigado revogar integralmente polêmica lei terras semana passada; essa recuo tático pensado esvaziar protestos revelou-se insuficiente pois operários camponeses mantiveram mobilizações exigindo reformas estruturais destituição gabinete atual.

Nível fragilidade política estrutura estatal ficou evidente pronunciamento ministro Obras Públicas Mauricio Zamora apressado descartar decretação estado exceção emergência território boliviano demonstrando receio governo medida violenta poderia catalisar insurreição maior “Neste momento declaração estado emergência não está discussão não desejamos derramamento sangue”, tentou transmitir imagem moderação enquanto forças policiais atacavam ativistas periferias El Alto sabotavam sistemas transporte público retaliação.

A empresa pública Mi Teleférico suspendeu operações linhas Vermelha Prata Azul Azul Claro temendo tomadas estações pelos comitês populares autodefesa; porta-voz presidencial José Luis Gálvez insistiu acusar movimentos parlamentares oposição incitarem violência armada divulgando vídeos onde camponeses apareciam portando espingardas caça.