Regina Casé defende: “Aprender não deve ser sinônimo de sofrimento

Regina Casé, que atuou como apresentadora por duas décadas, sempre se considerou uma atriz em essência. Proveniente do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, ela foi uma das figuras-chave, ao lado de Evandro Mesquita e Luiz Fernando Guimarães, na transformação da comédia brasileira durante os anos 1970. O nome do grupo surgiu de uma brincadeira entre ela e seu pai, Geraldo Casé, um dos pioneiros da televisão no Brasil: era uma espécie de código para escapar de situações incômodas.

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Como uma comunicadora excepcional, Regina deixou sua marca nas novelas da Globo Cambalacho (1986) e Amor de Mãe (2019). Entre 2011 e 2017, ela animou as tardes brasileiras com o programa Esquenta!, que se tornou um verdadeiro fenômeno de audiência. Outro programa notável em sua carreira foi Um Pé de Quê? (2001-2017), cujos episódios estão disponíveis no Globoplay e estão sendo reprisados no Canal Futura. O programa abordava questões ambientais, tema que também é central na peça Viva! Vida!, que vem atraindo grandes públicos no Sesc Ginástico.

A peça, escrita pelo seu marido Estêvão Ciavatta e dirigida por ele em conjunto com Daniela Thomas, marca seu retorno aos palcos. Este espetáculo oferece uma reflexão divertida sobre o nosso planeta. Em entrevista à VEJA RIO, Regina compartilha suas opiniões sobre causas importantes para ela e as lições que aprendeu em momentos difíceis.

O que motivou seu retorno aos palcos com esta temática? Minhas produções geralmente surgem de curiosidades; são temas que desejo explorar mais profundamente. Isso se aplica ao programa Um Pé de Quê, assim como ao espetáculo atual, onde procuro refletir sobre o mundo e as mudanças climáticas que muitos parecem ignorar. No entanto, não se trata de uma abordagem didática. É curioso notar que minha falta de conhecimento gera perguntas inesperadas que a plateia pode muito bem compartilhar.

Quando a questão ambiental começou a ressoar em você? Essa preocupação permeia quase todo o meu trabalho desde os anos 1990. As minhas experiências na Amazônia me mostraram a magnitude da natureza e o perigo da destruição que estamos provocando. Meu marido Estêvão vivencia essa realidade de forma ainda mais intensa, trabalhando diretamente com comunidades indígenas — os verdadeiros guardiões das florestas, por quem deveríamos valorizar imensamente.

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A peça também toca na religiosidade. Como você define sua fé? Embora o sincretismo seja resultado de uma história dolorosa de colonização, ele proporcionou um encontro cultural valioso. Não descarto nada do que aprendi na minha formação católica; quando conheço um pastor cujo foco é fazer o bem e não apenas enriquecer, fico encantada em participar do culto; assim como tenho amigos judeus e visito sinagogas frequentemente. O candomblé entrou na minha vida nos anos 1980, quando recebi um convite para ir a um terreiro. Fiquei apavorada, mas quando cheguei lá, a mãe de santo queria apenas conhecer a Tina Pepper (risos), personagem de Cambalacho. É ali onde me sinto mais próxima do divino.

A narrativa de Viva! Vida! abrange bilhões de anos até chegar ao presente hiperconectado. Você tem uma relação saudável com o digital? Assim como muitas pessoas, sinto-me presa ao celular. Além disso, a comunicação ficou restrita devido às bolhas formadas pelos algoritmos. Tenho facilidade para dialogar com pessoas diferentes entre si; porém, na internet precisamos focar em nichos específicos para aumentar seguidores e visualizações. Quando tento abordar temas menos convencionais, logo sou informada que “meu público” não irá apreciar isso. Essa situação empobrece nossas interações. Contudo, continuo insistindo porque acredito que a verdadeira riqueza está em transitar entre mundos diversos e estabelecer conexões entre eles — esse é o significado da liberdade.

O que mais te emociona nos brasileiros? Sempre me chamou atenção ver pessoas enfrentando condições extremamente adversas e ainda assim conseguindo cantar, dançar ou acolher os outros. Luiz Antonio Simas expressou isso belamente ao afirmar que a festa surge não da alegria pura, mas da necessidade de superar a dor. É como se essas pessoas criassem espaços onde todos podem ser tratados como reis e rainhas — felizes e livres. Isso me toca profundamente porque o sofrimento faz parte da vida e tentar evitá-lo não é viável.

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Como as dificuldades enfrentadas por sua filha e o acidente do seu marido impactaram sua vida? Essas experiências me tornaram mais forte; no entanto, creio que ninguém deveria aprender através do sofrimento. A principal lição é questionar nossa mente pessimista. Muitas vezes pensamos que não há saída após certas circunstâncias; contudo, é possível seguir em frente. Meu marido começou a melhorar quando passou a mudar sua visão: deixando de lado “Por que eu?” para “Por que não eu?”, ao conhecer outras pessoas durante o tratamento que também enfrentavam desafios enormes sem merecer tal destino. Embora isso não elimine a dor, transforma nossa maneira de lidar com ela.

A sua trajetória sempre incluiu discursos sobre diversidade e representatividade. Como você percebe esses avanços atualmente?A maternidade trouxe novos olhos à minha percepção: ter uma filha surda e um filho negro ampliou minha compreensão sobre essas questões sociais. Minha filha Benedita acreditava que nunca poderia ser atriz; eu naturalizava essa limitação sem perceber o capacitismo envolvido nisso. Hoje vê-la brilhar no cinema e no teatro inspira muitas famílias – isso é realmente lindo! Já com meu filho entendi melhor as nuances raciais; percebo diariamente como ele recebe olhares diferentes pela cor da pele dele. Contudo, muitos progressos têm sido feitos: cresci sem ver negros ocupando papéis importantes na sociedade; agora isso mudou nas universidades, na televisão e na publicidade.

Qual é sua abordagem ao educar um menino num contexto tão misógino?No passado havia machismo velado; hoje muitos se orgulham desse comportamento sem pudor devido ao retrocesso conservador atual. Por isso busco conversar com meu filho sobre como nem sempre as grandes violências são os únicos problemas; enfatizo pequenas atitudes cotidianas reproduzidas sem consciência – esclarecendo-o sobre como isso é culturalmente construído e precisa ser desafiado.

No momento em que se sente sobrecarregada, qual é seu refúgio?No caso de precisar desligar-se dessa correria constante repleta de pressão e informações excessivas, busco o mar como refúgio pessoal – lugares tranquilos como Mangaratiba ou Ilha Grande são ideais para mim. A música também desempenha um papel curativo em minha vida; mesmo estando exausta às vezes basta ouvir samba entre amigos para renovar minhas energias completamente – já saí cansada de ensaios apenas para dançar até altas horas!

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