Professoras afastadas de escola estadual privatizada falam sobre luta por direitos trabalhistas em entrevista exclusiva da AND

Em Maringá (PR), o AND conduziu uma entrevista com as professoras Mônica Severiano e Isadora, que anteriormente atuavam na Rede Estadual de Educação do Paraná. Ambas eram funcionárias do Colégio Estadual Panorama, localizado em Sarandi, que foi privatizado em 2025 para o Grupo Salta, através do Programa Parceiro da Escola. Essa iniciativa, considerada um ataque à educação pública, foi instaurada pelo governo de Ratinho Jr. (PSD) com a intenção de transferir a gestão das escolas públicas estaduais para instituições privadas. O Grupo Salta venceu a licitação para administrar várias escolas no estado até 2028, com um edital da Seed estipulando um valor total de R$ 434,7 milhões. As professoras foram demitidas após requisitarem o pagamento por horas extras trabalhadas, uma situação que foi reportada em fevereiro pelo AND.

O projeto, apresentado em 2024 e também denunciado pelo AND, envolveu uma consulta pública sobre a proposta “Parceiro da Escola”, implementada através da Lei 22.006/2024, repleta de irregularidades. Dentre as 177 escolas consultadas, apenas 10 expressaram aprovação ao projeto, enquanto 84 se pronunciaram contra. As demais instituições que não atingiram o quórum necessário estariam automaticamente sujeitas à decisão da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed).

No artigo 7º da lei que criou o projeto é afirmado que “o parceiro contratado atuará dentro dos limites estabelecidos pela Seed”. Entretanto, as professoras não conseguiram identificar essa normativa nas experiências vividas por elas.

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Nos depoimentos das professoras é evidenciada a predominância das decisões da empresa gestora sobre a voz do diretor da escola, que era um profissional efetivo nomeado pela Seed. Além disso, ficou claro o descompasso entre as promessas do governo e a realidade enfrentada pela comunidade escolar. Observa-se uma precarização das relações trabalhistas que impacta diretamente no processo pedagógico.

A partir dos relatos trazidos pelas educadoras surgem questionamentos sobre a insegurança no emprego e os abusos psicológicos a que são submetidos os professores sob a administração de empresas privadas no setor educacional, as quais obtêm lucros exorbitantes ao mesmo tempo em que maquiam resultados em rankings educacionais e realizam mínimas reformas estruturais para justificar a privatização das escolas após anos de deterioração promovida pelos governos junto às empresas como o Grupo Salta.

AND: Professoras Isadora e Mônica, antes de entrarmos na questão da demissão, poderiam compartilhar um pouco sobre sua trajetória na escola? Há quanto tempo estavam lá e quais disciplinas lecionavam?

Isadora: Estava no Panorama desde 2021 como pedagoga e no ano passado atuei como professora do PAEE (Plano de Atendimento Educacional Especializado).

Mônica: Ela ficou bastante tempo como PSS.

Isadora: Sim, fui contratada como PSS no ano passado.

Mônica: Eu também atuei como PSS durante um ano anterior à minha contratação.

AND: Como era a relação entre vocês e os alunos antes da privatização? Notaram alguma alteração após essa mudança?

Mônica: Na verdade, não houve votações claras sobre a privatização. Não houve quórum suficiente; isso foi imposto porque os pais não compareceram para votar.

AND: Como vocês foram informadas sobre a transição do governo estadual para uma gestão privada?

Isadora: A nova direção conversou com a gente explicando como seria o processo. Depois disso houve uma greve dos professores, mas não surtiu efeito.

Mônica: Exatamente.

AND: Quais mudanças notaram primeiramente nos contratos de trabalho após essa privatização?

Isadora: Minha situação mudou de PSS para CLT.

AND: Essa mudança foi apresentada como positiva?

Mônica e Isadora: Sim! Com direito ao seguro-desemprego! [Risos]

Isadora: Mas reduziram nossas horas-atividade. Antes tínhamos mais horas-atividade como PSS; agora ficou muito menos.

AND: A nova gestão trouxe alterações na rotina pedagógica ou na avaliação do trabalho? Introduziram metas de desempenho ou penalizações baseadas nos resultados?

Isadora:No entanto, as punições não eram verbalizadas claramente; simplesmente ignoravam quem não alcançava os índices desejados.

AND: Como ficou a autonomia dos professores para planejar aulas e interagir com os alunos após essas mudanças na gestão? Foram obrigados a seguir algum material ou método imposto pela mantenedora?

Isadora: Não seguimos materiais deles.

Mônica: Continuamos trabalhando normalmente como fazíamos antes.

Isadora: Utilizando o RCO do Estado.