Mineradora dos irmãos Batista polui o Pantanal, prejudica a saúde de residentes e os força a deixar suas casas

A comunidade de Porto Esperança quase se viu sem esperança, mas decidiu lutar. Moradores afetados pela poeira da LHG Mining, uma mineradora do polêmico grupo J&F da família Batista, começaram a compartilhar sua difícil realidade, buscando apoio em todo o Brasil e no exterior. Eles contaram com a ajuda de amigos para dar visibilidade a essa luta.

Uma melodia de resistência  

Um dos amigos que se mobilizou foi Moacir Lacerda, cantor e compositor do grupo ACABA, de Mato Grosso do Sul. Ele nos trouxe um relato impactante através da música, revelando a gravidade da situação enfrentada pela comunidade.

A canção intitulada SOS Porto Esperança, enviada por Moacir por mensagem de WhatsApp, traz uma letra poderosa:

O Porto era a esperança lugar de sonho e de labor / até que a estrada chegou trazendo poeira medo e dor / dia e noite o mesmo ruído do minério cortando o ar / os bichos foram morrendo e os peixes deixaram o lugar / a tristeza tomou a margem pela ganância sem coração / homens mulheres e crianças sofrem no abandono da nação / as chatas descem o Paraguai levando riqueza para além / mas derrubam a terra que resta e não deixam futuro a ninguém / vai embora explorador do Pantanal profanador deste santuário ferindo a vida natural / vai embora explorador leva contigo a ambição / deixa viver os ribeirinhos deixa bater este coração / será outra Mariana perdida será mais um lugar a acabar / clamam aos deuses do Pantanal a memória de um tempo melhor quando havia fartura e alegria e a esperança era maior / mas o povo segue cantando como quem não desiste jamais pelo rio pela terra e pela vida pelo Pantanal e seus ancestrais / Porto Esperança um socorro está a esperar / o minério que sai do morro mata velhos e crianças ceifa vidas devagar.

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Um post compartilhado por Moacir Saturnino de Lacerda (@moacir_saturnino_lacerda)

A nuvem marrom da poluição  

Porto Esperança enfrenta uma séria crise ambiental em Corumbá (MS) provocada pelo intenso tráfego de caminhões da mineradora LHG Mining. A situação é alarmante, com poluição sonora constante e uma quantidade imensa de poeira.

Desde o ano passado, nuvens tóxicas de poeira amarronzada têm se formado devido ao polo de mineração na região, mas agora a situação se agravou ainda mais com o aumento das operações da mineradora que investe quase R$2 bilhões em um megaprojeto portuário.

A poeira resultante do transporte em estradas não pavimentadas se acumula sobre casas e ruas, forçando os moradores a utilizarem máscaras diariamente.

Punições injustas  

Frustrados com a situação insustentável provocada pela mineradora, muitos residentes decidiram processar judicialmente a empresa. Contudo, muitos desses processos foram rapidamente arquivados pela Justiça sob alegação de ausência de documentação adequada comprovando residência — uma triste realidade.

Apropriação disfarçada 

Ainda que não tenha havido uma expulsão formal dos habitantes locais por parte da LHG Mining ou seus aliados agronegociais, foi constatada uma drástica redução populacional na comunidade — passando de mais de 600 famílias para apenas cerca de 60 ou até mesmo menos.

Membros da organização ECOA Ecologia e Ação afirmam que existem estratégias “mal disfarçadas” visando à apropriação daquele valioso território mineral.

Preços baixíssimos impostos 

O distrito de Porto Esperança tem visto sua população diminuir drasticamente devido às “pressões difusas” exercidas pelas elites dominantes — influências econômicas que afetam o uso das terras locais — aliadas à grilagem promovida pelos setores agropecuários.

No momento atual, essa diminuição populacional ocorre principalmente por métodos indiretos abusivos. As aproximadamente80 famílias remanescentes enfrentam propostas irregulares abaixo do valor real dos terrenos (ou seja, ofertas ridículas acompanhadas por práticas coercitivas), isolamento crescente e conflitos relacionados à posse da terra.

Rosana Bond é escritora e jornalista com vasta experiência na cobertura de conflitos na América Latina e questões envolvendo povos indígenas. Ela é conselheira editorial da AND e autora de mais de vinte obras reconhecidas sobre esses temas relevantes.

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