No dia 20 de julho, uma grande manifestação composta por dezenas de milhares de estudantes e jovens ocorreu em Nova Déli, com o objetivo de marchar em direção ao Parlamento indiano. A exigência principal era a saída do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan. Durante os protestos, os manifestantes se depararam com um forte cerco policial, que utilizou gás lacrimogêneo, realizou cargas com cassetetes e desmantelou o acampamento estabelecido em Jantar Mantar.
Na mesma data, a Frente Estudantil Revolucionária (RSF) uniu forças com diversas organizações estudantis e populares para organizar uma marcha massiva na área do terminal de ônibus 8B, em Jadavpur, um local tradicionalmente conhecido por ser ponto de encontro para manifestações próximas à Universidade de Jadavpur, localizada em Calcutá, no estado de Bengala Ocidental.
A marcha contou com a participação aproximada de 1.500 pessoas que vieram prestar apoio aos estudantes da capital indiana. Além da solicitação pela renúncia do ministro Pradhan, outros pedidos foram levantados, como a dissolução da Agência Nacional de Testes (NTA) e a revogação da Política Nacional de Educação (NEP 2020).
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Estudantes enfrentam repressão enquanto marcham rumo ao Parlamento
A mobilização foi convocada pelo Partido Popular das Baratas (CJP), um movimento juvenil criado em maio de 2026 após jovens desempregados reverterem uma ofensa feita pelo presidente da Suprema Corte indiana comparando-os a “baratas”. A concentração principal se deu em Jantar Mantar e visava alcançar o Parlamento durante o início da sessão parlamentar das monções. Apesar da proibição imposta pela Polícia de Déli para a marcha e do fechamento de várias vias na região central da cidade, milhares conseguiram romper as barreiras policiais.
Ainda assim, os manifestantes enfrentaram barricadas e foram alvo de gás lacrimogêneo nas proximidades tanto do Clube de Imprensa da Índia quanto do Clube da Constituição da Índia. As forças policiais não hesitaram em utilizar cassetetes contra os estudantes e desmontar barracas e outras estruturas montadas no local do protesto ao longo do dia. O acesso ao Parlamento chegou a ser temporariamente fechado devido ao avanço dos manifestantes.
A revolta entre os estudantes intensificou-se após denúncias sobre vazamentos nas provas nacionais para ingresso nos cursos médicos e outras áreas relacionadas à saúde (NEET-UG). Esse incidente afetou mais de dois milhões de alunos que viram seus resultados anulados e agora precisam enfrentar uma nova prova.
Os manifestantes expressaram que essas constantes fraudes e vazamentos comprometem anos de dedicação e aumentam a insegurança entre jovens provenientes de classes sociais mais baixas que dependem desses exames para entrar nas universidades ou conseguir empregos públicos.
Representantes do CJP apresentaram três demandas diretas ao ministro J.P. Nadda, que é responsável pela Saúde e Bem-Estar Familiar no governo Modi. As solicitações incluíam a saída do ministro Dharmendra Pradhan da Educação, o fim das medidas coercitivas contra o ativista Sonam Wangchuk — retirado à força durante uma greve de fome — além do pagamento compensatório às famílias dos estudantes que cometeram suicídio após o vazamento das provas. O governo ouviu as reivindicações sem garantir qualquer ação concreta para atendê-las.
Solidariedade organizada pela RSF promove mobilização em Bengala Ocidental
A RSF divulgou um comunicado após os eventos afirmando que “ontem, em apoio aos estudantes lutando em Déli, realizamos uma marcha massiva em Jadavpur pelo CJP junto com outras organizações estudantis e populares”. As demandas incluíam não apenas a renúncia do ministro Pradhan mas também o fim da NEP2020 e a dissolução da NTA.
A marcha partiu do terminal de ônibus em Jadavpur até Golpark, um movimentado bairro no sul de Calcutá. Organizações estudantis alinhadas à esquerda também participaram sob uma articulação chamada Fraternidade Estudantil-Juvenil. Além disso, ações solidárias foram promovidas por alunos das Universidades Presidency e Jadavpur, bem como do Colégio Médico de Calcutá e do Instituto Indiano de Estatística — incluindo marchas e greves de fome em solidariedade aos colegas mobilizados em Nova Déli.
Imagens registradas mostram estudantes carregando faixas com as frases “Dissolver a NTA” e “Dharmendra Pradhan deve renunciar”. Barnana Mukherjee, militante da Federação dos Estudantes da Índia (SFI), destacou que diferentes grupos se uniram para apoiar os manifestantes sob ataque pelas autoridades na capital indiana. As atividades realizadas em Calcutá fazem parte de um movimento nacional que se estendeu por cidades como Mumbai, Bengaluru, Goa e Guwahati. A repressão policial não isolou a luta na capital indiana mas ajudou a ampliar as críticas ao governo Modi.
Paralelos entre Brasil e Índia evidenciam resistência contra políticas educacionais imperialistas
A ofensiva do governo Modi contra o setor educacional reflete um fenômeno mais amplo que também é observado no Brasil — onde cortes orçamentários estão sendo implementados juntamente com uma centralização das avaliações educacionais enquanto o ensino privado se expande cada vez mais. Essas ações são impulsionadas pelo Banco Mundial e favorecidas pelas políticas fiscais defendidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
No contexto indiano, o Banco Mundial aprovou um empréstimo significativo no valor de US$500 milhões destinado à implementação da NEP2020 em seis estados desde sua aprovação em 2020. Este projeto condiciona o financiamento à adoção de avaliações padronizadas e adequações curriculares voltadas para as exigências do mercado laboral. Desde então já foram alocados mais de US$3 bilhões para educação na Índia pelo banco internacional.
…A NEP2020 integra diretrizes que visam expandir o ensino virtual enquanto promove formação profissionalizante e exames centralizados — permitindo maior autonomia financeira às instituições acadêmicas além da inserção das universidades estrangeiras no país. Paralelamente a isso, o governo Modi tem utilizado essas reformas para implementar ideologias nacionalistas hindus nos currículos escolares.
A RSF critica abertamente a NEP2020 por ser uma medida privatizante que resulta na perseguição política dentro das universidades brasileiras enquanto destrói princípios fundamentais da formação científica acadêmica.
No Brasil também observa-se interferência direta do Banco Mundial nas políticas educativas — como ocorreu quando foi aprovado um montante significativo destinado ao financiamento das reformas no Ensino Médio nos estados brasileiros em valores superiores a US$250 milhões desde sua aprovação em2017.
Essas reformas têm resultado na redução significativa dos conteúdos científicos enquanto ampliam as opções profissionalizantes disponíveis nas escolas públicas — favorecendo fundações empresariais através dessas mudanças estruturais.
Numa perspectiva crítica sobre as medidas propostas pelo Banco Mundial no relatório “Um ajuste justo”, ressalta-se a intenção dessa entidade financeira internacional na redução dos gastos públicos direcionados à saúde pública assim como educação superior acompanhado por um sistema condicional baseado no desempenho acadêmico — incluindo revisões constantes nas vinculações constitucionais existentes hoje.
A Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia (ExNEPe) denuncia essa ingerência direta ao longo dos últimos anos cobrindo gestões passadas desde Fernando Henrique até Bolsonaro apontando práticas semelhantes resultando numa expansão significativa das instituições privadas voltadas ao ensino superior onde cerca de80% estão concentradas nesses estabelecimentos privados comprometendo toda estrutura educacional pública disponível atualmente nas universidades federais.
O orçamento reservado para as universidades federais sofreu cortes significativos estimados acima dos R$500 milhões apenas neste ano afetando diretamente questões fundamentais como manutenção estrutural além das bolsas disponíveis aos alunos — levando sempre a questionamentos sobre até onde vão essas reformas baseadas numa lógica neoliberal promovida principalmente pelos organismos internacionais financeiros.
