Forças armadas peruanas atacam comunidade ticuna, resultando na morte de uma criança e no desaparecimento de três menores após incêndios em residências, relatam habitantes locais.
A comunidade indígena ticuna, localizada em Bellavista Callarú, na província de Mariscal Ramón Castilla, na região amazônica de Loreto, denunciou uma operação violenta realizada pelo Comando Unificado del Putumayo y Mariscal Ramón Castilla (PUMA). O evento ocorreu nos dias 14 e 15 de julho, sob a justificativa de “combater o narcotráfico” na área da tríplice fronteira entre Brasil e Colômbia. A ação resultou na morte de uma criança, ferimentos em moradores, incêndios em residências e o desaparecimento de três menores. As reclamações foram feitas por lideranças comunitárias, incluindo o prefeito Desiderio Flores, que acusaram as forças repressivas de invasão ao território e disparos contra a população local.
Desiderio Flores utilizou as redes sociais para relatar que os militares invadiram a área indígena e atacaram os moradores. Em suas declarações, ele afirmou: “O Exército está matando meu povo; uma criança foi morta. Não somos criminosos; somos indígenas que cuidam da fronteira.” O prefeito também apontou que o incidente reflete o histórico abandono dos serviços essenciais como saúde, educação e segurança na comunidade.
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No boletim emitido pelo Comando Unificado PUMA, foi informado que um laboratório clandestino foi desmantelado e materiais como combustíveis e precursores químicos foram apreendidos, resultando em prejuízos superiores a US$28 mil relacionados ao narcotráfico na região. Os militares afirmaram que as pessoas presentes no local fugiram para a mata e que foram alvejados por disparos oriundos de embarcações, tendo respondido ao fogo.
Os habitantes da comunidade contestam essa narrativa afirmando que as pessoas atingidas eram civis sem qualquer envolvimento com atividades ilegais. Além disso, eles denunciam que as casas foram incendiadas sem que drogas ou substâncias relacionadas fossem encontradas nos locais.
Em seguida, o Comando PUMA declarou que o adolescente supostamente morto estava vivo e recebendo atendimento no Brasil. Contudo, não foram apresentadas evidências documentais ou identificação que confirmassem essa afirmação publicamente. Até a data de 27 de julho, nem o Ministério Público nem a Defensoria do Povo haviam divulgado informações sobre as investigações relativas à operação ou sobre o paradeiro dos três menores desaparecidos após os incidentes.
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O abandono histórico do velho Estado
A comunidade ticuna de Bellavista Callarú é composta majoritariamente por indígenas e está situada em uma das áreas mais remotas do norte de Loreto, enfrentando cronicamente a falta de serviços públicos oferecidos pelo Estado peruano. No início deste ano, os moradores deram um ultimato ao governo para resolver questões relacionadas à segurança e saúde dentro de um prazo de trinta dias antes de considerar alternativas como a integração ao Brasil.
A resposta do governo peruano foi que tal anexação seria juridicamente inviável. Apesar disso, as autoridades locais reiteraram que essa ameaça era um “grito de socorro”, mantendo como principal reivindicação a criação do distrito de Bellavista Callarú para permitir a instalação permanente dos serviços públicos necessários.
A precariedade dos serviços públicos é evidente na saúde local com apenas dois técnicos atuando no posto sanitário — sem médicos ou obstetras — forçando gestantes em situação delicada a se deslocarem até Santa Rosa ou mesmo para hospitais no Brasil quando necessário.
A situação educacional não é diferente e reflete décadas de negligência institucional com escolas superlotadas em instalações inadequadas para atender mais de noventa alunos do ensino médio e cerca de duzentos do fundamental.
Além disso, devido ao isolamento geográfico econômico da área, os moradores utilizam principalmente o real brasileiro e pesos colombianos nas transações diárias.
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Keiko assumirá após promulgação de lei que amplia foro militar-policial
Com a iminente posse de Keiko Fujimori pelo partido Fuerza Popular marcada para o dia 28 de julho, observa-se um aumento na violência reacionária acompanhada pela promessa da nova presidente em implementar políticas repressivas relacionadas à “segurança pública”, além da construção de presídios e militarização das fronteiras.
A presidenta eleita manifestou seu interesse em fortalecer laços com os Estados Unidos desde o primeiro dia após assumir o cargo e já se reuniu com autoridades israelenses para discutir cooperação bilateral na área da segurança.
No dia anterior à sua posse, seu partido obteve também controle do Senado com a eleição de Miguel Torres como presidente da casa legislativa.
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Enquanto isso se prepara uma intensificação das ações estatais repressivas sob sua liderança, foi aprovada no dia 21 de julho a Lei nº32.735 pelo Congresso peruano no dia anterior ao qual amplia as proteções legais para militares e policiais acusados durante suas funções operacionais durante estados de emergência.
Essa norma afetará também processos judiciais ainda pendentes sem sentenças definitivas podendo ser transferidos à jurisdição militar-policial sob coordenação do presidente do Congresso Fernando Rospigliosi.
Familiares das vítimas da repressão estatal organizam vigílias e marchas nos dias próximos à posse presidenciais em Lima denunciando como essa nova legislação pode comprometer investigações sobre violações aos direitos humanos ocorridas no passado recente.
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Cerca de três meses antes dos eventos relatados em Bellavista Callarú ocorreu um tiroteio envolvendo uma patrulha militar que resultou na morte de cinco pessoas em Colcabamba no final abril. O Ministério Público iniciou investigações contra oito militares envolvidos nesse caso por homicídio qualificado baseado nas evidências administrativas encontradas durante os trabalhos investigativos.
Esses episódios ocorrem também num contexto repleto denúncias relacionadas à corrupção nas forças policiais peruanas com números alarmantes sendo reportados sobre condenações judiciais entre membros dessas instituições.
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‘Guerra às drogas’ como cobertura da ofensiva contrarrevolucionária
Em análise recente sobre a situação latino-americana um diretor-geral sublinhou a continuidade da luta revolucionária no Peru destacando sua resistência frente às tentativas reacionárias contra movimentos populares atuantes na região.
A retórica empregada acerca do combate às chamadas “facções” tem sido utilizada como justificativa para ações repressivas contra comunidades camponesas e movimentos sociais visando manter o status quo nas relações sociais existentes dentro dessa área geográfica específica.
Tais medidas têm sido caracterizadas por especialistas como mecanismos legais utilizados sob pretextos variados para justificar intervenções externas com origem nos interesses imperialistas estabelecidos há anos na América Latina.