No dia 20 de outubro, alunos do Colégio Estadual Cívico-Militar Érico Veríssimo, localizado em Cambé (PR), realizaram uma manifestação em protesto contra a presença de câmeras ocultas nos banheiros masculino e feminino da instituição. Os estudantes alegaram que as imagens capturadas eram enviadas para computadores na sala dos monitores militares, que são policiais da reserva responsáveis pela disciplina da escola. Os jovens, que também utilizavam os banheiros para se trocar, pediram explicações à administração da escola.
Como resultado da mobilização, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED-PR) decidiu afastar temporariamente os gestores da escola e iniciou uma investigação no dia 21 de outubro. A 4ª Promotoria de Justiça de Cambé também abriu procedimentos nas esferas civil e criminal, além disso, a Polícia Civil deu início a um inquérito sobre o caso.
A situação veio à luz após um aluno registrar imagens das câmeras nos monitores utilizados pelos militares. Uma aluna do 9º ano retirou um dos dispositivos do banheiro feminino e encontrou uma câmera direcionada para a área comum em frente às pias. Os equipamentos foram apresentados aos estudantes como sensores. De acordo com relatos de uma aluna, as câmeras estavam instaladas desde 2024.
A administração da escola classificou a retirada dos dispositivos como “vandalismo” e informou que também investigaria como o aluno teve acesso à sala dos monitores. A direção argumentou que as câmeras estavam voltadas apenas para as portas e não captavam os locais destinados às necessidades fisiológicas. A SEED-PR declarou que os equipamentos foram removidos e que não havia gravações armazenadas.
No entanto, essa justificativa não responde adequadamente à reclamação dos alunos sobre o uso do espaço para troca de roupas. Em entrevista ao AND, a Executiva Paranaense de Estudantes de Pedagogia (ExPEPe), representação estadual da Executiva Nacional de Estudantes de Pedagogia (ExNEPe), questionou: “Para onde estavam indo as gravações do banheiro e quem mais tinha acesso?”
A ExPEPe apoiou a mobilização estudantil: “As manifestações dos jovens demonstram a legitimidade da rebelião e a resposta da comunidade escolar reforça que esse modelo cívico-militar está distante do que a sociedade realmente deseja ou necessita.”
Crescimento da militarização sob governos conservadores
O incidente em Cambé ocorre no contexto de um aumento na militarização das escolas públicas brasileiras, uma política promovida pelo bolsonarismo e mantida por administrações estaduais mesmo após o fim do Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares em julho de 2023. O número de instituições públicas com gestão militarizada saltou de 46 em 2014 para 1.389 em 2025, conforme dados coletados pelo projeto “Militarização escolar no Brasil: construção de uma base de dados nacional”. Estados e municípios continuam criando programas próprios para delegar parte da gestão escolar aos militares e policiais.
De acordo com informações da SEED-PR, o Paraná possui 345 escolas cívico-militares em 2026. O novo governador Sérgio Moro (PL), eleito em 4 de outubro, prometeu expandir esse modelo, alegando que traz mais disciplina às salas de aula.
A ExPEPe manifestou-se ao AND: “A proposta para aumentar o número de escolas cívico-militares deve ser vista não como uma sugestão, mas como um alerta claro sobre a intenção de entregar ainda mais as escolas às ‘parcerias’.”
“Assim sendo, é necessário responder adequadamente; prometemos que a mobilização contra esses modelos impostos pela Secretaria do Estado da Educação do Paraná (SEED/PR) e seus ‘parceiros’ crescerá consideravelmente”, afirmou a Executiva.
A expansão desse modelo também se estende a São Paulo, onde o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) mantém o programa sob a supervisão do secretário de Educação Renato Feder, ex-titular no Paraná. Em maio de 2024, estudantes protestando contra a aprovação desse modelo na Assembleia Legislativa foram reprimidos com cassetetes, gás lacrimogêneo e prisões; um episódio denunciado por pós-graduandos da Universidade de São Paulo (USP) em uma carta publicada pela ExNEPe.
Além disso, essa militarização atende aos interesses políticos de setores conservadores que buscam impor uma educação baseada na obediência, hierarquia e repressão ao descontentamento juvenil.
Denúncias relacionadas a assédio e violência nas escolas militarizadas
A ExPEPe afirmou que a expansão desse modelo também favorece financeiramente os militares: “Os casos relacionados às escolas cívico-militares têm aumentado significativamente; além disso, essa ascensão permite que militares – até mesmo os da reserva – garantam uma parte adicional das suas economias. Para além disso, tem servido como pretexto para abusos sob a bandeira do ‘civismo’ ou da manutenção da ‘ordem’.”
A entidade mencionou ainda denúncias similares sobre câmeras nos banheiros no Colégio Estadual Cívico-Militar Professora Etelvina Cordeiro Ribas, em Curitiba. Esse caso está sob investigação e documentos consultados indicam que o Ministério Público solicitou abertura de inquérito policial para investigar as ações dos gestores dessa unidade.
As alegações relacionadas ao Colégio Érico Veríssimo se somam a outros episódios graves ocorridos em instituições cívico-militares no Paraná. Em março de 2026, o AND compilou relatos sobre assédio sexual envolvendo policiais atuando como monitores escolares; entre eles estava um monitor acusado de assediar pelo menos nove alunas entre 11 e 13 anos em Cornélio Procópio durante o ano anterior. De acordo com relatos, o agente se aproximava com desculpas como chamar atenção ou consolar as estudantes, mas acabava tocando-as inadequadamente.
Esse policial foi removido das funções como monitor e transferido para atividades administrativas; seu desligamento completo ocorreu apenas dois anos depois. Em agosto de 2025, outro monitor foi denunciado por estupro vulnerável e ameaças contra adolescentes em Capitão Leônidas Marques. Já em Francisco Beltrão, um policial militar foi detido em 2021 sob suspeita de crimes sexuais.
No final de novembro de 2025, denúncias sobre violência física e psicológica nas escolas militarizadas no Distrito Federal ganharam destaque na ExNEPe. Alunos do Centro Educacional 308 relataram agressões físicas como tapas e humilhações além de castigos físicos severos; professores também denunciaram vigilância excessiva e restrições à liberdade pedagógica.
Estudantes e educadores resistem à militarização
A resistência contra esse modelo tem se manifestado por diversas partes do país. Durante o 26º Fórum Nacional das Entidades Pedagógicas realizado em Belém (PA) em julho de 2025, a ExNEPe denunciou intervenções nas escolhas dos diretores escolares, repressão à organização estudantil e medidas que destituem a comunidade escolar do poder decisório sobre sua instituição.
A entidade defendeu que a gestão escolar deve ser realizada pela comunidade composta por professores, pedagogos, estudantes e pais; mobilizando esforços contra a militarização das escolas públicas. As bandeiras incluem o pleito por uma educação pública gratuita e científica voltada aos interesses populares.
Sobre as mobilizações no Paraná, a ExPEPe destacou ações coletivas envolvendo comunidade escolar juntamente com Executivas Estudantis contra novas adesões ao modelo:
“Desde sua proposição temos visto mobilizações contra as escolas cívico-militares; destacamos especialmente os protestos dentro das próprias instituições no final de 2025 quando houve uma nova tentativa pela SEED para consultar novamente as comunidades escolares sobre esse modelo na cidade Curitiba – proposta barrada pela população através dessa união entre comunidade escolar, Executiva Paranaense de Estudantes de Pedagogia (ExPEPe) e APP-Sindicato”, relatou.
A Executiva também enfatizou o ato realizado em 29 abril juntamente com outros eventos promovidos pela ExNEPe e pela ExPEPe visando denunciar este modelo educacional.
Ao pleitear o fim do programa no estado paranaense, a ExPEPe mencionou Minas Gerais onde o Tribunal de Justiça manteve decisão do Tribunal de Contas determinando o encerramento desse programa nas escolas estaduais em julho de 2026. “Escrevemos desejosos para que um mínimo sentido civilizado prevaleça neste estado assim como aconteceu em Minas Gerais com o término deste protótipo educacional”, concluiu a Executiva.
