No dia 26 de maio, aproximadamente 40 familiares de pessoas afetadas pela violência policial, acompanhados por ativistas, realizaram um intenso protesto em frente ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), localizado no centro da capital fluminense. A manifestação coincidiu com o início da audiência dos policiais militares acusados de fraude processual relacionada aos assassinatos de Samuel Vicente, de 17 anos, e seu padrasto, Willian Vasconcellos. Ambos foram mortos pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) em 25 de setembro de 2021, no Complexo do Chapadão.
Na ocasião fatídica, Samuel, Willian e Camily da Silva Apolinário estavam a caminho de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), pois Camily havia passado mal. Durante o trajeto, o veículo em que se encontravam foi atingido por disparos feitos por policiais militares. Enquanto Samuel e Willian perderam a vida, Camily sobreviveu. Os familiares afirmam que após o ocorrido, os agentes tentaram encobrir o crime montando uma versão falsa de confronto armado, plantando armas e drogas na cena e buscando deslegitimar as vítimas para justificar os assassinatos.
Protesto denuncia violência policial e impunidade
Os manifestantes exibiram grandes faixas com fotos e nomes das vítimas da brutalidade estatal e levantaram suas vozes contra a política opressora que afeta as comunidades carentes do Rio de Janeiro. Durante o ato, gritos como “Não tem arrego, se mexer com nossos filhos eu tiro o seu sossego” ressoaram em frente ao tribunal.
Sônia Bonfim, mãe de Samuel e esposa de Willian, compartilhou com os presentes as dificuldades enfrentadas ao longo dos anos para que a Justiça considerasse o caso. “Nos últimos cinco anos, toda vez que ia à delegacia ouvia apenas ‘não’. Fui alvo das calúnias: ‘seu filho é bandido’, ‘ele trocou tiros com a polícia’, ‘veja onde você mora’. Não é porque vivemos na comunidade que somos criminosos. Temos direito à liberdade”, afirmou.
Ela também criticou a constante tentativa de criminalização das vítimas e a cumplicidade das instituições com as ações ilícitas cometidas pelos agentes do Estado. “Infelizmente, para se livrarem das consequências, precisam justificar seus erros. Sempre incriminam nossas crianças. O mais doloroso é quando uma mãe consegue levar o assassino do seu filho ao tribunal e ele é absolvido sob a justificativa de que ‘não houve intenção de matar’. Desde o momento em que pega uma arma para disparar sem direção, já existe intenção”, declarou Sônia.
A mãe recordou também os sonhos de seu filho e como a violência policial afetou sua família. “Samuel sonhava em ser biólogo. Depois quis ser policial após ver sua irmã ser baleada aos cinco anos na porta da escola. Ele estudou para isso, mas teve sua vida interrompida aos 17 anos.”
Sônia relacionou a violência perpetrada pela polícia à estrutura do próprio Estado. “Nós financiamos essa bala que tira a vida dos nossos filhos através dos impostos que pagamos. Contribuímos para uma segurança que deveria nos proteger, mas não temos segurança alguma. Como posso confiar nas instituições se foi o próprio Estado que falhou com meu filho?”, questionou.
Familiares reafirmam luta por justiça
<pDurante uma entrevista ao AND, Ana Vitória, filha de Willian Vasconcellos, enfatizou o caráter trabalhador do pai e relembrou Samuel: “Meu pai não era um criminoso; ele trabalhava arduamente para sustentar nossa família e era bem conhecido na comunidade. Samuel era um excelente irmão e amigo.”
Adrielle Vicente, irmã de Samuel e enteada de Willian, corroborou as declarações: “Meu padrasto trabalhava em uma farmácia e fazia entregas de pizza; meu irmão era conhecido por suas habilidades como dançarino e sonhava em ser policial. Estamos aqui lutando por justiça.”
Fraude processual e tentativa de incriminar as vítimas
Sônia Bonfim explicou que a audiência realizada naquele dia não abordava os assassinatos diretamente, mas sim a fraude processual cometida pelos policiais envolvidos. “Eles plantaram armas e drogas dizendo que pertenciam a Samuel e Willian para tentar escapar da responsabilidade pelo crime. Quero ver esses agentes condenados e seus nomes limpos.”
Segundo Sônia, os policiais também sumiram com documentos e pertences das vítimas: “Desapareceram com carteira e documentos do meu marido além do celular do meu filho. Alegaram até que meu marido havia roubado sua própria moto; consegui provar que era dele.”
A mãe ainda denunciou perseguições ocorridas após os assassinatos e recordou episódios violentos até mesmo durante o velório: “No dia do enterro houve uma operação policial cercando tudo para impedir que as pessoas chegassem ao cemitério. Quando soube que Camily havia recebido alta hospitalar, a polícia invadiu o local — não consegui me despedir do meu filho nem tive direito ao luto.”
Outras mães denunciam a violência do Estado
Mária Rúbia Brito da Silva também participou do protesto e compartilhou sobre o assassinato de seu filho Pablo Henrique da Silva Rangel por policiais do BOPE: “Meu filho voltava do trabalho no dia 8 de novembro de 2019 quando um policial mirou na nuca dele e disparou um único tiro.” Ela ainda comentou sobre uma operação policial realizada na madrugada daquele mesmo dia no Complexo do Chapadão: “Parece que oito jovens foram mortos nesse episódio.” Mária expressou sua intenção de apoiar outras mães afetadas pela violência estatal.
Genocídio contra o povo é política do velho Estado
Os depoimentos colhidos durante o protesto evidenciam que os crimes cometidos contra as populações marginalizadas são parte integrante de uma política sistemática de opressão promovida pelo velho Estado nas favelas e comunidades vulneráveis.
Como enfatizaram os familiares presentes no ato, aqueles no poder são responsáveis pelas operações policiais que resultam nas constantes chacinas. “São eles quem autorizam essas ações desumanas,” afirmaram.
Os crimes contra os filhos dos pobres não estão restritos às grandes cidades; eles também aumentam nas áreas rurais como parte da guerra reacionária travada pelo velho Estado contra as comunidades empobrecidas e lideranças populares. O relatório “Conflitos no Campo Brasil 2025”, elaborado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), revela um aumento significativo nos óbitos durante conflitos pela terra.
Conforme apontado recentemente em editorial anterior: “O chamado ‘crime organizado’ não é algo externo ao velho Estado; está profundamente enraizado nele.” Armas ilegais transitam por fronteiras devido à conivência entre agentes públicos corruptos — desde altos oficiais das forças armadas até políticos diversos — todos participando desse ciclo vicioso.
A análise conclui: “Esse sistema perverso resulta em lucro para os centros políticos enquanto justifica uma guerra suja contra as populações nas favelas e zonas rurais.”
