Estratégia da defesa de Bolsonaro, o ‘Fraco’, transfere a responsabilidade da carta para a ‘Rachadinha’ e intensifica a disputa acirrada pelo legado bolsonarista

A defesa de Jair Bolsonaro, conhecido como “O Fraco”, apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a alegação de que o ex-presidente não tinha conhecimento sobre a divulgação da carta eleitoral feita pelo filho Flávio “Rachadinha” Bolsonaro durante uma transmissão ao vivo em 11 de julho. Os advogados afirmam que não houve “qualquer orientação, ajuste ou combinação prévia” sobre o uso das redes sociais, sugerindo que a publicação ocorreu sem a ciência de Jair. Com essa manifestação, a intenção é isentar o ex-presidente de qualquer violação à proibição de utilizar plataformas digitais por meio de terceiros, deixando Flávio responsável pela ação que resultou na suspensão das visitas do senador ao pai por um período de 90 dias.

No documento assinado por Jair Bolsonaro, ele designa seu filho mais velho como “porta-voz” e o posiciona como “a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”. A ex-primeira-dama Michelle “Trinca-clã” Bolsonaro não é mencionada no texto. A defesa não contesta a assinatura ou o conteúdo da carta, mas afirma que o ex-presidente não autorizou nem teve conhecimento prévio da sua utilização como ato público de pré-campanha.

Após a leitura da carta, Flávio descreveu o texto como um “apelo por unidade” e expressou sua gratidão ao pai por ter sido escolhido como “porta-voz”. Ele comentou: “Muitas pessoas parecem estar boicotando até a candidatura, aguardando o momento certo para vestir a camisa do Bolsonaro e ir para as ruas resgatar o Brasil”. O senador ressaltou que essa designação é vital “para evitar falas conflitantes ou direções diferentes que alguém possa seguir”. A mensagem enfatiza que é hora de “arregaçar as mangas” e deixar de lado as diferenças.

A defesa não anula a escolha de Flávio como “porta-voz”, mas minimiza a ideia de que a transmissão foi uma ação planejada junto ao pai. Tentando proteger “O Fraco” de possíveis consequências legais, os advogados atribuíram toda responsabilidade pela divulgação à “Rachadinha”, mesmo sendo essa uma iniciativa apresentada pelo próprio senador como prova da autoridade política conferida pelo patriarca.

Luiz Inácio lidera com vantagem ampliada

Uma pesquisa realizada pela Genial/Quaest e divulgada em 15 de julho revelou que Luiz Inácio (PT) possui 45% das intenções de voto, enquanto Flávio “Rachadinha” Bolsonaro (PL) alcança 37% em um possível segundo turno. Essa diferença aumentou de seis para oito pontos em comparação com junho, quando os números eram 44% para Luiz Inácio e 38% para Flávio. Embora ambos os candidatos tenham registrado oscilações dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, a pesquisa entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 10 e 13 de julho. Nesse cenário, 15% dos participantes optaram por votos brancos ou nulos.

Os dados da Quaest mostram uma mudança desde abril, quando Flávio liderava com 42% contra 40% de Luiz Inácio. Em maio, Luiz atingiu 42%, enquanto Flávio registrou 41%; em junho, houve um aumento para 44%-38%; agora chegou-se aos atuais 45%-37%. Entre essas pesquisas, surgiram áudios onde Flávio pedia R$ 61 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, uma cinebiografia publicitária sobre Jair Bolsonaro. O senador negou qualquer irregularidade e afirmou buscar apenas patrocínio privado sem oferecer contrapartidas políticas; Vorcaro está sob investigação por sua conexão com fraudes no Banco Master, ainda sendo apuradas pela Polícia Federal (PF) e pelo STF.

A rejeição aos principais candidatos continua elevada. Segundo dados da Quaest, 57% dos entrevistados disseram conhecer Flávio e não votariam nele; já 50% afirmaram o mesmo sobre Luiz Inácio. Dentre os nomes avaliados na pesquisa, o índice do senador é o mais alto.

Suspensão das visitas ao patriarca por três meses

A nova pesquisa foi finalizada no mesmo dia em que Alexandre de Moraes, ministro do STF, decidiu suspender as visitas de Flávio ao pai por um período de 90 dias. Essa medida foi tomada após Flávio divulgar nas redes sociais uma carta eleitoral assinada por Jair Bolsonaro, que está cumprindo prisão domiciliar com restrições ao uso das plataformas digitais. Moraes deu um prazo de 48 horas para que a defesa esclarecesse se Bolsonaro sabia sobre a publicação do documento.

O ministro também encaminhou o caso ao Ministério Público Eleitoral para investigar uma possível propaganda antecipada. Essa proibição se estende durante praticamente toda a campanha e só será revogada após o primeiro turno das eleições marcado para 4 de outubro. Como essa decisão foi publicada no último dia da pesquisa realizada, não pode ser considerada diretamente responsável pelos resultados obtidos; no entanto, altera as condições na disputa pelo apoio do grupo bolsonarista.

Aliados próximos à Michelle responsabilizaram Flávio por expor Jair ao risco de retornar à prisão devido à divulgação da carta. O círculo próximo à ex-primeira-dama acredita que o senador agiu com descuido e estava ciente das possíveis implicações jurídicas decorrentes dessa publicação, especialmente sendo ele advogado. Assim, a luta pelo legado político dos Bolsonaros acontece sem que Flávio possa visitar seu principal apoiador durante os próximos três meses.

Conflitos no clã Bolsonaro

Esta pesquisa da Quaest foi realizada após tornarem-se públicas as tensões entre Flávio e sua madrasta Michelle “Trinca-clã” pela liderança na extrema direita. Em um vídeo recente, a ex-primeira-dama expressou ter se sentido “humilhada” e “apunhalada” pelo enteado durante disputas relacionadas às alianças eleitorais no Ceará. A resposta dada pela defesa do ex-presidente acrescenta uma nova camada ao conflito: enquanto Flávio apresentava seu ato como símbolo de unidade e apoio paterno, juridicamente foi considerado uma iniciativa isolada dele.

A pesquisa também capturou as reações ao vídeo publicado por Michelle. Entre os bolsonaristas entrevistados, 20% apoiaram sua divulgação; entre aqueles identificados apenas como direitistas não bolsonaristas, esse número subiu para 35%. Esses dados indicam que as críticas feitas pela ex-primeira-dama ganharam ressonância dentro do eleitorado direitista; no entanto, não podem ser atribuídas isoladamente à variação nas intenções de voto para Flávio.

Dentre todos os entrevistados na pesquisa, 45% consideraram acertada a decisão de Michelle em publicar o vídeo, enquanto 38% acreditavam ter sido um erro. Ao serem questionados sobre o conflito familiar, 42% mostraram maior concordância com Michelle em comparação aos apenas 18% que apoiaram Flávio.

Caiado busca espaço na disputa pela extrema direita

O latifundiário e pré-candidato Ronaldo Caiado (PSD) aproveitou os números recentes para buscar um lugar na disputa entre os extremos da direita brasileira. Durante um evento voltado para empresários em Curitiba, ele declarou que “eleição não se ganha com rejeitados”. Caiado obteve agora 4% das intenções de voto — um ponto acima em relação à pesquisa anterior — embora essa variação também esteja dentro da margem de erro. De acordo com dados da Quaest, cerca de 49% dos entrevistados afirmaram nunca tê-lo visto ou ouvido falar dele.

Renan Santos do Missão aparece com apenas 3% nas intenções eleitorais; já Romeu Zema (Novo), governador mineiro registra apenas 2%. A pesquisa indica que impressionantes 77% dos respondentes desconhecem Renan Santos — conhecido como o “Peter Pan” da extrema direita.

Apesar dos esforços contra Flávio, Caiado ainda está distante na corrida eleitoral — permanece a uma diferença significativa de 24 pontos atrás do senador neste cenário inicial. As crises internas e o aumento da vantagem do Luiz Inácio ainda mantêm “Rachadinha” na liderança como principal candidato entre os segmentos mais radicais da direita.

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