“Podem ser chamados de anticapitalistas, anti-imperialistas, marxistas, comunistas ou anarquistas.” Com essa afirmação, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, destacou na quinta-feira, 16 de julho, o foco político da conferência organizada por Washington que contou com a participação de representantes de 66 países para discutir o que ele chamou de “ressurgimento do terrorismo político de extrema esquerda”. Rubio descreveu essas forças como uma “ameaça real e transnacional” que persiste há décadas e agora está ressurgindo. O secretário enfatizou a importância de “identificar e mapear” essa ameaça e propôs uma “reconstrução” da estrutura internacional de contraterrorismo para enfrentá-la.
A conferência, oficialmente denominada “Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político”, contou com a presença de representantes de nações das Américas, Europa e Ásia, além de líderes do FBI, do Departamento do Tesouro e da Casa Branca. Aproximadamente 70 países foram convidados após o Departamento de Estado relatar um “interesse esmagador” na iniciativa.
Rubio também criticou as bandeiras de “igualdade, justiça e libertação” levantadas pelos grupos mencionados por ele e acusou militantes de ultrapassarem fronteiras para disseminar propaganda, trocar informações e participar de ações conjuntas. Essa abordagem do governo americano inclui atividades como propaganda política, solidariedade e coordenação internacional entre os movimentos que pretende submeter a vigilância e repressão.
Demandas por ‘ação coordenada’
Documentos direcionados aos governos participantes indicaram que a reunião visava estabelecer as bases para uma “ação coordenada” contra organizações acusadas de tentar impor uma “visão política extrema” através da intimidação e campanhas globais. Os EUA pretendem mapear militantes, suas atividades e conexões internacionais, interromper fluxos financeiros e expandir os mecanismos repressivos além das fronteiras nacionais. O encontro também abordou o compartilhamento de informações entre agências de inteligência, colaboração policial e a categorização de organizações como “terroristas”.
No discurso proferido por Rubio, ele fez acusações a respeito dos ataques realizados por esses grupos contra oleodutos, ferrovias, redes elétricas e laboratórios — todos considerados símbolos do poder econômico e estatal. O secretário mencionou ainda que ativistas antifascistas estariam se deslocando entre a Europa e as Américas para colaborar em ações conjuntas, circular propaganda e materiais educativos.
“Ou cooperamos através das nossas fronteiras ou os terroristas continuarão a explorar as lacunas existentes entre elas”, afirmou Rubio. Segundo ele, os EUA estão desenvolvendo “a infraestrutura, parcerias e estratégias” necessárias para enfrentar essa nova escalada internacional. O governo Trump anunciou também uma nova oficina internacional entre forças policiais em colaboração com a Alemanha para aprofundar as medidas contra o denominado “terrorismo de extrema esquerda”.
Classificações incentivam vigilância
Os representantes do governo americano discutiram a possibilidade de usar classificações internacionais para perseguir indivíduos ligados ao movimento antifascista dentro dos próprios EUA. O chefe da divisão de contraterrorismo da Casa Branca, Sebastian Gorka, sugeriu associar militantes americanos a organizações estrangeiras rotuladas como “terroristas”.
Conforme um funcionário do setor de contraterrorismo revelou, essa vinculação poderia abrir novos instrumentos investigativos que incluem métodos mais abrangentes de vigilância. Essa designação também possibilita bloquear recursos financeiros, processar indivíduos acusados de fornecer “apoio material” e ampliar o intercâmbio informativo entre diferentes órgãos policiais e serviços secretos.
O governo Trump já designou quatro organizações europeias ligadas à esquerda como “Organizações Terroristas Estrangeiras”. Washington ainda oferece recompensas que podem chegar a 10 milhões de dólares por informações sobre suas fontes financeiras. Essa política resultou em sentenças variando entre 30 a 100 anos para pessoas identificadas pelos promotores como integrantes de uma “célula antifa” após protestos em frente a uma instalação do Serviço de Imigração e Alfândega no Texas. Advogados dos condenados alegaram motivações políticas nos processos.
A convocação enfrentou resistência até mesmo dentro das próprias agências de segurança americanas e entre nações aliadas. Analistas da inteligência se negaram a produzir relatórios sobre o movimento antifascista por não considerá-lo uma prioridade. Diplomatas europeus também questionaram os objetivos da reunião; um deles chegou a afirmar: “Não temos antifa”. Vários países enviaram representantes com cargos inferiores.
Washington concentra esforços em coordenação revolucionária
A indignação expressa por Rubio em relação aos “anti-imperialistas, comunistas ou anarquistas” ilustra o alcance da nova política contrarrevolucionária americana. As alegações sobre viagens internacionais desses grupos para disseminar propaganda ou financiar atividades fornecem justificativas para investigar relações entre organizações revolucionárias e movimentos anti-imperialistas.
No A Propósito #366 transmitido em 28 de maio, Victor Bellizia, diretor-geral da AND, situou essa ofensiva no contexto da crise da hegemonia americana global. Ele afirmou: “O imperialismo estadunidense está atento à crise na sua dominação mundial. A América Latina possui relevância estratégica em sua estratégia hegemônica”, ressaltando que Washington busca desestabilizar Cuba e Venezuela para conter a luta anti-imperialista à medida que intensifica suas intervenções no continente.
Bellizia destacou ainda a continuidade das lutas armadas revolucionárias na região citando grupos que mobilizam as massas populares contra questões como miséria e exploração. Ele mencionou especificamente o Exército Nacional de Libertação (ELN) na Colômbia e os esforços liderados pelo Partido Comunista do Peru (PCP), além dos movimentos armados que resistem às estruturas estatais tradicionais. “Há uma guerra popular no Peru que não foi derrotada”, declarou.
Ele relacionou diretamente as ações americanas ao fortalecimento da luta pela terra: “Esses acontecimentos mostram que o imperialismo estadunidense teme o avanço da luta camponesa radical”. No Brasil, acrescentou Bellizia, tal luta é promovida por movimentos camponeses significativos como a Liga dos Camponeses Pobres (LCP).
Brasil se ausenta mas mantém alinhamento
O chanceler Mauro Vieira não esteve presente na reunião devido a compromissos previamente agendados no Brasil; sua ausência não reflete uma recusa política formal à iniciativa americana. O país havia sido convidado pelo governo dos EUA.
A falta do Brasil nesse encontro não indica um afastamento da política contrarrevolucionária americana. Dias antes do evento em questão, José Múcio, ministro da Defesa do governo Luiz Inácio Lula da Silva participou em Cusco da conferência onde o Pentágono apresentou sua chamada “Doutrina Monroe”. Durante este evento, Washington instou os países latino-americanos a quase triplicar seus gastos militares enquanto defendia operações conjuntas contra organizações rotuladas como “narcoterroristas”.
No A Propósito #366 Bellizia apontou que essa ofensiva tem implicações diretas no país: “Portanto, o Brasil está inserido neste eixo agressivo”. Ele destacou que integrantes da extrema direita têm utilizado o termo “facções” preparando o terreno para justificar intervenções das Forças Armadas contra movimentos camponeses como a LCP.
Ele advertiu ainda sobre um agravamento iminente dessa situação: “Certamente as coisas tendem a piorar; assim sendo será inevitável um crescimento da luta anti-imperialista em nosso país”.
