Moradores de Samambaia lutam por melhorias em ocupação ameaçada de despejo que abriga mais de 100 famílias

Mais de 100 famílias que habitam uma ocupação em Samambaia, Região Administrativa do Distrito Federal, relatam o descaso do Estado, enfrentando dificuldades diárias devido à falta de infraestrutura, especialmente nas condições das vias de acesso. Em uma entrevista à correspondência local, os residentes compartilharam como se uniram em comunidade para assegurar o mínimo necessário em termos de infraestrutura, incluindo energia elétrica e água, além de melhorias nas ruas que dificultam o deslocamento até a região. Essa realidade é particularmente desafiadora para as famílias com crianças e trabalhadores, pois essas vias precárias são a única opção para chegar às escolas, ao comércio e a paradas de ônibus.

Fundada em 2017 por essas famílias, a comunidade surgiu da necessidade urgente de moradia frente aos altos preços dos aluguéis na capital. Durante esse período inicial, conforme os moradores relataram, foi essencial promover esforços conjuntos para estabelecer uma estrutura básica de sobrevivência. Assim, foram realizados rateios para a aquisição de materiais como concreto e postes de energia, além da mobilização comunitária para realizar esses trabalhos diante da inércia do Governo do Distrito Federal. No entanto, os desafios persistem e se intensificam em dias chuvosos, quando erosões e buracos tornam as passagens ainda mais complicadas.

A situação precária é ainda mais acentuada por promessas não cumpridas feitas por políticos locais durante os anos. Ao longo da resistência da ocupação, muitos deles visitaram a área oferecendo garantias sobre a pavimentação das ruas em troca de votos. Entre os nomes mencionados pelos moradores estão Joaquim Roriz Neto (PL), Fred Linhares (Republicanos) e Agaciel Maia (PL). Entretanto, até o momento, nenhuma dessas promessas foi efetivamente cumprida.

Uma das moradoras que desempenha um papel ativo na organização local expressou sua frustração: “Se você vê o tanto de político que anda atrás de mim. Não quero não. Eu vou sujar meu nome. Sujar seu nome por causa dos outros”. Ela descreveu como políticos passaram pela área realizando apenas melhorias superficiais para conquistar votos e posteriormente a convidaram para um evento político que ela recusou. A promessa feita na ocasião sobre o asfaltamento da rua permanece sem cumprimento.

A precariedade vai além da falta de pavimentação das ruas. A moradora detalhou que “quando passa trator, é complicado porque os canos estão expostos”, tornando-os suscetíveis a danos frequentes. Os reparos são feitos pelos próprios vizinhos, que muitas vezes têm empregos fora e enfrentam interrupções no fornecimento de água. Além disso, o governo não apenas falha em investir na infraestrutura como também impõe barreiras legais: mesmo tendo CEPs, a ausência de regularização fundiária limita o acesso aos serviços básicos como energia e água. Funcionários do governo chegaram a aconselhar os moradores a não interferirem na rede elétrica para evitar complicações.

O Estado aparece, mas os problemas persistem

Contrariando a imagem negativa frequentemente divulgada pela mídia e por setores conservadores, a ocupação é um espaço de organização comunitária ao invés de criminalidade. Quando questionada sobre segurança no local, uma moradora respondeu com firmeza: “Nós não temos esse risco”. Ela lembrou que mesmo sem muro ao redor da casa nunca teve problemas com furtos. Essa realidade contrasta fortemente com outras áreas próximas onde as pessoas se sentem obrigadas a permanecer trancadas em suas casas devido ao medo de assaltos; demonstrando que a união comunitária tem sido crucial para garantir segurança aos habitantes.

A moradora destacou que as questões enfrentadas pela ocupação não devem ser confundidas com problemas criminais observados em outras regiões. Embora exista preocupação com jovens envolvidos no consumo de álcool e drogas – uma questão comum entre diversas comunidades – isso não define o espaço ocupado como pertencente ao crime organizado. Para as famílias residentes ali, a associação entre ocupações populares e criminalidade é uma narrativa distorcida frequentemente propagada pelo discurso oficial.

Por outro lado, as memórias traumáticas da violência policial permanecem vivas na comunidade. Uma moradora recordou um episódio marcante: “Foi quando eles vieram. Foi feio. Porque o batalhão que deveria estar atrás de bandidos estava atrás de pessoas buscando moradia”. Ela salientou que as forças policiais alegavam que ali “só tinha bandido”, quando na verdade eram apenas “famílias buscando um teto”.

Conflitos e tentativas de reintegração contra as famílias

Os moradores enfrentaram diversas ações de despejo nos anos de 2019 e 2020 quando um ex-delegado enviou policiais militares para expulsá-los sob alegação de propriedade da área. Apesar da resistência dos residentes, houve cerca de cinco tentativas forçadas de despejo; em uma delas os policiais dispararam spray de pimenta contra aqueles que questionavam a legalidade da ação já que não apresentaram ordem judicial alguma. Os relatos indicam que os policiais invadiram casas retirando pertences durante as demolições. Desde então, eles conseguiram apoio jurídico para contestar essa ação.

Além desse caso específico, outra parte da ocupação enfrenta uma ação judicial movida por uma mulher que afirma ser proprietária dos lotes onde atualmente há cerca de 50 residências construídas. As famílias denunciam agora um mandado judicial buscando reintegração de posse enquanto continuam mobilizadas para resistir à tentativa já que ocuparam uma área antes vazia e sem função social.

Outro conflito se relaciona com um espaço privado destinado à festas próximo às casas dos moradores; segundo informações obtidas, o aluguel desse espaço chega a R$ 9 mil mensais e conta com infraestrutura muito superior àquela disponível na ocupação precária dos moradores. Eles afirmam ainda que esse salão utiliza eletricidade destinada às residências locais causando sobrecarga na rede elétrica resultando em frequentes quedas e danos aos equipamentos eletrônicos; apesar das reclamações à companhia fornecedora dessa energia elétrica, nada foi feito até agora.

Resistência e construção coletiva

A luta urbana por moradia no Distrito Federal revela profundas contradições sociais presentes na região. Enquanto muitas famílias buscam através das ocupações urbanas um lugar digno onde possam construir suas vidas longe dos aluguéis exorbitantes existentes na capital – considerada a 12ª cidade brasileira com o metro quadrado mais caro do país atingindo R$ 10.085 segundo dados recentes – persistem desafios imensos.

Para enfrentar essa realidade adversa, as famílias têm se organizado coletivamente através da realização de assembleias onde dividem tarefas e custos comuns entre si. Dessa maneira elas têm erguido juntas aquilo que deveria ser oferecido pelo Estado responsável pelo bem-estar social. Atualmente elas vivem sob constante ameaça do processo judicial buscando reintegração; porém continuam firmes em sua resistência organizando-se coletivamente por seus direitos à permanência no território já transformado em lar após anos sem atenção governamental adequada às suas necessidades básicas.

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