O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, revelou a possibilidade de que “operações militares conjuntas sejam realizadas para eliminar terroristas e suas redes”, incluindo o Exército de Libertação Nacional (ELN), um movimento armado que é rotulado como terrorista pelos EUA, e os remanescentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Essa declaração foi feita durante a recepção do novo governo de Abelardo De La Espriella na Coalizão das Américas de Combate aos Cartéis (ACCC), uma iniciativa liderada pelos EUA sob o nome de “Escudo das Américas”. Esse cenário evidencia a subserviência da Colômbia ao imperialismo norte-americano, transformando suas forças de repressão em extensões diretas de Washington.
No mesmo encontro, Jorge Eduardo Mora, o novo Ministro da Defesa colombiano, reafirmou essa posição subordinada ao afirmar que “é tempo de os cartéis narcoterroristas enfrentarem o poder e as capacidades de todo o hemisfério, sob a liderança dos Estados Unidos”. Para demonstrar compromisso com essa agenda, o governo colombiano lançou a Operação “Punho de Ferro” contra o ELN, que incluiu bombardeios entre a noite de 10 e a madrugada de 11 de agosto em uma estrutura guerrilheira na área rural de Tibú, no estado Norte de Santander, resultando na morte de dois guerrilheiros.
Durante a cúpula realizada na Cidade do Panamá, Hegseth também criticou abertamente o Tribunal Penal Internacional (TPI), fazendo acusações que poderiam ser atribuídas aos próprios Estados Unidos. Ele pediu que “cada membro da ACCC se retire do TPI e refute as tentativas deste tribunal de usurpar sua soberania”, considerando essa atuação como uma apropriação indevida do poder. Ele afirmou: “Nossas nações preservam sua soberania e têm capacidade para mobilizar seus combatentes em defesa própria. Somos responsáveis apenas perante nossos cidadãos e nossas constituições, não por burocratas internacionais não eleitos”, em uma declaração irônica.
A retórica sobre a defesa da autonomia nacional oculta interesses imperialistas mais profundos e violentos. Isso ficou evidente quando Donald Trump declarou que os esforços do secretário de Estado Marco Rubio para “reorganizar o Tribunal Penal Internacional” tinham como objetivo proteger líderes como Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense acusado pela corte. No contexto da ofensiva dos EUA na América Latina, essa exigência tem como meta retirar controle jurídico sobre possíveis crimes de guerra.
Além disso, a diminuição da soberania nacional se dá em meio à aprovação por parte do governo Trump de um pacote de assistência à segurança avaliado em um bilhão de dólares para apoiar o regime De La Espriella. Um funcionário anônimo dos EUA informou que essa nova parceria deve ultrapassar os níveis anteriores estabelecidos pelo histórico Plano Colômbia dos anos 2000. A crescente subordinação ao imperialismo gerou preocupações até mesmo entre membros das forças armadas locais; por exemplo, o general aposentado Juan Carlos Buitrago expressou ao jornal El Tiempo que “de forma alguma deve ser considerada a implantação de tropas americanas em solo colombiano”. O ex-ministro da Defesa Gabriel Silva também foi enfático em suas declarações ao afirmar que qualquer tentativa direta dos EUA poderia resultar em um verdadeiro “pequeno Vietnã”.
Eduardo Pizarro Leongómez, especialista em conflitos, alertou sobre os perigos dessa adesão à coalizão ao afirmar em entrevista ao El Tiempo que o governo Trump “equiparou traficantes a terroristas e portanto são considerados alvos militares passíveis de eliminação sem direito a julgamento. Isso está claramente ocorrendo no Caribe.” Ele ainda previu que com o fim do mandato Trump pode ser responsabilizado por crimes de guerra. Para César Niño, professor da Universidade Militar Nueva Granada (UMNG), essa transição para operações coordenadas representa um avanço significativo no alinhamento operacional com os EUA e exige clareza sobre quem autoriza ações militares e quem é responsável pelos danos à população civil.
A “Doutrina Monroe” e a estratégia contrainsurgente
A declaração feita por Hegseth reflete a chamada “Doutrina Monroe”, uma reinterpretação das políticas do século XIX que reafirma a hegemonia americana no chamado “Hemisfério Ocidental”. Ao substituir termos vagos como “crime transnacional”, o Pentágono agora identifica guerrilhas revolucionárias como “alvos legítimos” nas semicolônias subordinadas. Isso resulta na criação de um aparato continental dirigido pelo governo americano que assume poder absoluto para decidir quem pode ser eliminado, estabelecendo assim uma ampla arquitetura contígua às guerras contrainsurgentes com a colaboração ativa da Colômbia reprimindo as lutas populares.
A utilização simultânea dos rótulos “narcoterrorismo”, “crime transnacional” e “ameaça transnacional” permite ao imperialismo desvirtuar suas reais intenções contra movimentos populares. Em 16 de julho, Marco Rubio reuniu representantes de 66 países para discutir o alegado “ressurgimento do terrorismo político” ligado à “extrema esquerda”. Rubio defendeu abertamente a necessidade de “identificar e mapear” forças anticapitalistas visando recriar uma arquitetura internacional contra-terrorista para persegui-las. Ao incluir organizações revolucionárias nesse grupo amplo, Washington cria bases políticas e jurídicas para intensificar sanções, vigilância financeira e restrições migratórias sob a justificativa do combate ao crime comum.
A pressão imperialista também se reflete na demanda por aumento nos gastos militares. Durante a XVII Conferência dos Ministros da Defesa das Américas realizada em Cusco, Elbridge Colby, subsecretário da Defesa dos EUA para Política, instou países latino-americanos a triplicarem seus orçamentos militares para alcançarem 3,5% do PIB. “Não há justificativa para qualquer país gastar tão pouco com Defesa”, afirmou Colby aos representantes presentes. O Brasil também enfrentou essas pressões sob pretextos oportunistas; seu ministro da Defesa José Múcio participou do evento alinhando ainda mais o país estrategicamente ao imperialismo americano.
Victor Bellizia, diretor-geral do AND, sintetizou essa ofensiva contrarrevolucionária durante o programa A Propósito #369 em 16 de julho: “Os ianques têm necessidade urgente por uma política contraterrorista preventiva”. Segundo Bellizia, isso demonstra os receios americanos diante da instabilidade da antiga ordem no Hemisfério Ocidental e possíveis subversões dentro desse espaço considerado seu quintal. Essa política não deve ser vista apenas como retórica eleitoral; trata-se efetivamente de uma estratégia concreta contra movimentos anti-imperialistas globais. Wender representando a Liga Anti-imperialista Internacional (LAI), corroborou essa análise afirmando que classificar movimentos como “terrorismo da extrema esquerda” serve para criminalizar as justas rebeliões das massas oprimidas.
A resistência armada como obstáculo à dominação imperialista
Em entrevista exclusiva ao portal Colombia Informa, Sneyder, comandante da Frente Manuel Vásquez do ELN refutou veementemente as alegações oficiais sobre vínculos entre sua guerrilha e atividades relacionadas às drogas. Ele declarou: “O único tributo que cobramos é pré-definido. Não temos qualquer envolvimento nas demais etapas desse negócio”. O ELN enfatizou suas normas orientadas à convivência com comunidades locais buscando minimizar impactos negativos decorrentes de ações predatórias enquanto se opõe firmemente à mineração industrial feita com equipamentos pesados devido aos danos ambientais irreversíveis promovidos e benefícios exclusivos aos capitais estrangeiros; defendendo assim regulação voltada à mineração artesanal focada nas comunidades locais.
A estratégia americana ignora intencionalmente as posições do ELN por razões táticas: sua capacidade territorial e atuação como um “governo paralelo” consolidaram-se como um obstáculo significativo aos planos imperialistas na região. O Wall Street Journal, porta-voz financeiro americano reconheceu recentemente que o fortalecimento do ELN na fronteira entre Colômbia e Venezuela é visto como um grande impedimento à dominância dos EUA. A publicação expressa preocupação quanto à fragilidade estatal frente ao controle efetivo exercido pela guerrilha enquanto opera como uma espécie de governança alternativa local. Essa realidade explica porque Washington busca rotular tal organização como “narcoterrorista”; pois além disso ela representa um bloqueio real às intenções predatórias sobre riquezas naturais por parte da burguesia rica apoiada pelas multinacionais sustentadoras desse regime explorador.
O Brasil não está isento dessa ofensiva contrarrevolucionária orquestrada pelo imperialismo. Victor Bellizia observou que no país há sinais claros do crescimento revolucionário manifestados principalmente através da Revolução Agrária persistente. Ele destacou: “No Brasil existe uma verdadeira luta camponesa pela terra que desperta atenção externa”. Wender complementou ressaltando que questões agrárias são centrais dada à concentração fundiária crescente atrelada à submissão ao imperialismo localizando isso numa questão crítica.” A Polícia Militar já rotulou membros da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) utilizando termos comuns às narrativas ianques referindo-se aos camponeses como ‘guerrilheiros’ ou ‘narcoterroristas’, demonstrando concretude nas preocupações externas voltadas ao Brasil.”
João Cláudio Pitillo, doutor em História pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), advertiu sobre a seriedade dessa ofensiva relacionando-a com tentativas recolonizadoras no subcontinente: “O Brasil é visto como peça-chave”, disse ele referindo-se às vastas riquezas naturais sustentadoras das estruturas imperialistas globais. Para Pitillo existe uma tendência coletiva insurreta latente na América Latina; portanto as iniciativas americanas contra esse suposto ressurgimento esquerdista buscam conter esse potencial revolucionário capaz ameaçar tanto domínio americano quanto exploração ligada ao agroexportador.”
