Padre Anderson Antonio Pedroso enfatiza a importância do pensamento crítico

A PUC-Rio, desde o ano passado, lançou um curso de graduação em Inteligência Artificial, resultado de uma colaboração com a Fundação Behring, financiada por uma doação significativa de 35 milhões de reais. Além disso, em 2024, a universidade dará início à primeira turma do novo bacharelado em Medicina. Essas são apenas algumas das muitas mudanças que a instituição tem vivenciado sob a liderança do reitor padre Anderson Antonio Pedroso, que assumiu o cargo em 2022 e conseguiu reverter um déficit estrutural anual de 60 milhões de reais, transformando-o em um superávit estimado em quase 81 milhões de reais até 2025.

+ Clique aqui para receber VEJA RIO em sua casa

A pesquisa tem sido um dos principais motores dessa transformação. O reitor destaca: “É fundamental que a universidade utilize seu conhecimento e tecnologias para beneficiar a sociedade”. Ele revela que sua vocação surgiu ainda na infância, aos seis anos. Recentemente retornou de Harvard, onde completou o renomado General Management Program (GMP), um curso executivo destinado a líderes seniores. Com isso, ele voltou cheio de novas ideias, que compartilha na entrevista a seguir.

Quais são os desafios da Inteligência Artificial? Quando a fotografia foi inventada, muitos acreditavam que ela substituiria os pintores; no entanto, com o tempo, as pessoas entenderam melhor essa nova tecnologia. A situação atual com a IA é semelhante. Ignorar essa inovação não é uma opção, mas é essencial ter um olhar crítico sobre ela. Os estudantes precisam compreender tanto o funcionamento do sistema quanto os interesses envolvidos. A inteligência artificial pode tanto potencializar desigualdades quanto contribuir para o bem-estar social — tudo depende dos desenvolvedores e usuários.

Como a universidade pode se posicionar em um mundo tão dinâmico? Atualmente, os alunos chegam às salas de aula já trazendo conhecimentos e experiências prévias; por isso, defendo uma dinâmica colaborativa entre educadores e estudantes, ao invés de uma abordagem vertical. Outro aspecto crucial é estar alinhado com a realidade social. Devemos focar nos problemas concretos enfrentados pela sociedade e trabalhar para solucioná-los. As pesquisas devem se pautar nas questões que afligem tanto o Brasil quanto o mundo.

Continua após a publicidade

A criação do curso de Medicina na PUC-Rio foi motivada por essa perspectiva? A PUC é reconhecida como uma das melhores instituições privadas do país e há apenas 500 metros do nosso campus pessoas enfrentando problemas graves como tuberculose. Portanto, é nossa responsabilidade utilizar conhecimento e tecnologia para ajudar a população; havia uma lacuna nessa área. Contudo, havia receios relacionados à gestão hospitalar devido à fragilidade estrutural encontrada na instituição quando assumi; assim, firmar parcerias com instituições públicas se mostrou ser a solução ideal.

Quais foram as medidas adotadas para equilibrar as finanças da universidade? Costumo comparar a PUC a um navio sólido navegando com água no porão — enfrentávamos um déficit anual de 60 milhões de reais. O primeiro passo foi reorganizar nossa gestão: elaboramos um planejamento estratégico, cortamos desperdícios e revisamos contratos. Além disso, buscamos novas parcerias e intensificamos nossa captação de recursos através de doações feitas por ex-alunos. Embora eu não concorde com práticas capitalistas desenfreadas, é crucial desmistificar a ideia negativa associada ao dinheiro; as finanças são essenciais para viabilizar projetos voltados ao desenvolvimento humano.

Como os alunos e professores reagiram às mudanças implementadas? Nunca me preocupei em agradar todos ao meu redor; essa unanimidade é ilusória. Meu foco era garantir que as pessoas mais vulneráveis não fossem prejudicadas nas discussões sobre questões financeiras. Por isso mantive os salários intactos.

Continua após a publicidade

Qual é o papel da universidade frente à desinformação e aos conflitos contemporâneos? Estamos vivendo tempos difíceis em relação à liderança; frequentemente, figuras absurdas ganham destaque político. A disseminação de fake news tornou a desinformação mais complexa. A tecnologia tem o poder tanto de promover alianças quanto de exacerbar conflitos ou manipular informações para alimentar guerras. Na PUC-Rio, estamos comprometidos em não nos envolver em pesquisas que visem ao desenvolvimento de armamentos.

O que você planeja implementar após sua experiência em Harvard? Retornei ainda mais convencido da excelência da nossa instituição, pois contamos com recursos humanos e intelectuais capazes de enfrentar desafios e encontrar soluções inovadoras. Minha única frustração sobre Harvard diz respeito à conexão com ex-alunos; quero fortalecer ainda mais essa rede extraordinária que pode contribuir não somente financeiramente mas também oferecendo experiências valiosas e oportunidades.

Continua após a publicidade

Como você vê sua relação com o Rio? Convivo diariamente com as desigualdades presentes na cidade. Desejo que toda a beleza do pôr do sol em Ipanema e as vibrantes festividades do Carnaval sejam acessíveis para todos os cidadãos. A criatividade e alegria dos cariocas me fascinam profundamente; guardo com muito orgulho meu título de cidadão carioca.

O que poderia surpreender aqueles que te conhecem apenas como reitor? Morei por sete anos na França e foi lá que descobri minha paixão por navegar. Durante meu doutorado, enquanto os padres estavam fora durante suas férias, eu passava temporadas em paróquias costeiras. Adquiri habilitação para pilotar embarcações; desde então o mar se tornou um espaço sagrado para mim — representa imensidão mas também me ensina sobre finitude e respeito pela natureza. Sempre sonhei em ter um pequeno barco para navegar por aqui, mas infelizmente isso não é viável (risos).

Pensa em algum dia se tornar papa? Definitivamente não! Para mim, o verdadeiro objetivo não está em alcançar posições elevadas, mas sim ser minha melhor versão e estar presente onde Deus me colocou neste momento da vida. Tenho tido a honra de colaborar com o papa atuando como presidente da Organização das Universidades Católicas da América Latina e do Caribe; minha agenda está alinhada à dele e focada na promoção da paz e dignidade humana enquanto cuida dos mais necessitados — isso já representa uma grande responsabilidade e privilégio.

Publicidade

Deixe um comentário