No dia 3 de junho, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anunciou a distribuição de R$ 4,9 bilhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, popularmente conhecido como “fundão eleitoral”, entre 30 partidos políticos. Essa alocação, regida por normas tradicionais do sistema político, favorece significativamente as legendas que possuem maior presença no Congresso, reforçando as estruturas partidárias que dominam o cenário eleitoral.
A maior parte desse montante foi assegurada pelo Partido Liberal (PL), uma sigla da extrema direita que se autodenomina “antissistema”, com R$ 881,6 milhões. Em seguida, o Partido dos Trabalhadores (PT), que se apresenta como representante da esquerda institucional e atualmente está no governo, garantiu R$ 615,3 milhões. Juntamente com o União Brasil, que receberá R$ 526,2 milhões, esses três partidos acumulam quase 40% dos recursos disponíveis.
A metodologia de divisão do FEFC privilegia claramente os partidos já estabelecidos no Congresso: enquanto uma fração menor dos recursos é repartida igualmente entre as siglas, a maior parte é distribuída com base nos votos obtidos para a Câmara e na quantidade de representantes nas duas casas legislativas.
A situação se torna ainda mais irônica ao observar a encenação pública entre PL e PT. Enquanto as lideranças desses partidos simulam disputas acaloradas em tribunas e redes sociais, promovendo uma falsa polarização eleitoral, ambos estão na vanguarda da divisão bilionária dos recursos públicos destinados às eleições burguesas. Por trás dessa fachada de rivalidade, essas legendas atuam como facções de um mesmo partido dominante – composto por grandes empresários e latifundiários aliados ao imperialismo, especialmente o norte-americano –, unindo-se na defesa das normas que garantem suas máquinas eleitorais e sustentam a antiga democracia.
A introdução do financiamento público em 2017 ocorreu após a proibição das doações diretas por empresas e prometeu acabar com a influência do capital nas campanhas. No entanto, isso resultou no fortalecimento das máquinas partidárias com verbas públicas bilionárias enquanto doações “de pessoas físicas”, redes empresariais e práticas ilícitas continuam a influenciar o processo eleitoral, garantindo que os interesses das classes dominantes prevaleçam.
O abismo entre o Congresso e as massas
A alocação de quase R$ 5 bilhões para o financiamento eleitoral choca quando comparada à realidade das medidas austeras adotadas pelo governo e aprovadas pelo Congresso. Desde a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241 – apelidada de “PEC do fim do mundo” – até o atual “arcabouço fiscal” sob Luiz Inácio Lula da Silva, a lógica permanece: congelamento dos investimentos em áreas essenciais como saúde, educação e saneamento básico. Entre 2016 e 2023, o Brasil registrou cortes significativos de R$ 45 bilhões na saúde e R$ 7,2 bilhões na educação; contudo, para sustentar essa farsa política, os recursos estão sempre assegurados.
Como relatado anteriormente em janeiro por AND, a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) ilustra bem essa escassez de recursos ao sofrer um corte de R$ 12 milhões em seu orçamento para 2026 – valor imprescindível para garantir a permanência estudantil. No cenário nacional, os cortes totalizaram R$ 488 milhões, comprometendo auxílios fundamentais como moradia e alimentação. Enquanto isso, o governo impõe restrições à juventude e aos trabalhadores enquanto aprova sem hesitação R$ 4,9 bilhões para financiar campanhas eleitorais.
A política de austeridade reflete uma escolha consciente do velho Estado que prioriza o pagamento da dívida pública e a manutenção das máquinas partidárias em detrimento das necessidades da população. O suposto “crescimento” econômico anunciado pelo governo – um aumento de apenas 1,1% no Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre de 2026 – disfarça uma realidade precária. Este crescimento depende da exportação primária controlada pelos latifundiários e do consumo familiar sustentado por crédito excessivo ao invés de promover um desenvolvimento industrial soberano ou criar empregos dignos.
Endividamento recorde e crédito como falsa saída
Por trás dos números positivos apresentados nas estatísticas econômicas está uma realidade alarmante para as famílias brasileiras. Com a taxa Selic elevada, os níveis de endividamento atingiram proporções sem precedentes: em abril deste ano, cerca de 80,9% das famílias estavam endividadas; entre aquelas com menor renda, esse percentual superava os 83%. Para tentar reduzir o descontentamento popular, o governo oferece linhas de crédito e programas superficiais como financiamentos direcionados a motoristas de aplicativo; no entanto, tais iniciativas apenas criam novos ciclos de endividamento.
Enquanto bilhões são alocados para campanhas eleitorais, o velho Estado mantém inalteradas suas prioridades econômicas voltadas para os interesses dos latifundiários e da elite empresarial. O Plano Safra 2025/2026 destinou R$ 516 bilhões ao latifúndio enquanto apenas R$ 89 bilhões foram direcionados à chamada “agricultura familiar”. A expansão das fronteiras agrícolas continua sobre biomas sensíveis mantendo relações trabalhistas precárias.
A moralidade aparente da extrema direita também se desfaz diante de escândalos como o envolvimento do deputado Flávio Bolsonaro (PL) com o banqueiro Daniel Vorcaro. Tal episódio evidencia que sob a retórica “antissistema”, os bolsonaristas utilizam mecanismos tradicionais de financiamento político que perpetuam a velha ordem econômica.
Dessa forma, as eleições programadas para 2026 com seu fundo bilionário seguem um padrão já conhecido: viabilizar recursos para os burocratas enquanto garante que os mesmos grupos permaneçam no controle da política nacional.
