Recentemente, o site The Intercept Brasil publicou uma série de documentos que incluem planilhas, comprovantes de transferências internacionais e conversas privadas. Esses materiais revelam um investimento significativo do magnata Daniel Vorcaro, do Banco Master, na produção de Dark Horse, uma cinebiografia do capitão do mato Jair Bolsonaro realizada nos Estados Unidos. Segundo as informações divulgadas, o valor total da operação seria próximo a US$ 24 milhões, com pelo menos US$ 10,6 milhões já pagos ao fundo responsável pela produção, evidenciando a ligação entre o capital financeiro e a extrema direita no processo de reabilitação política do ex-presidente.
A série de reportagens intitulada “Vaza Flávio” refutou tentativas de aliados da família Bolsonaro, como o comentarista Paulo Figueiredo, que procuraram desacreditar os documentos ao afirmar que não havia envolvimento financeiro de Vorcaro no filme. A matéria teve acesso a uma planilha chamada “Funding Schedule”, que descreve um cronograma para movimentar quase 24 milhões de dólares, equivalentes a 134 milhões de reais na época. Esse documento evidencia o planejamento financeiro relacionado à operação e o compromisso entre os envolvidos no projeto publicitário do ex-presidente.
Conforme a planilha detalha, estavam previstos 14 desembolsos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. As duas primeiras parcelas de US$ 2 milhões foram pagas em fevereiro e março de 2025. Além disso, outros pagamentos no valor de US$ 1,66 milhão também foram realizados, totalizando US$ 10,6 milhões recebidos até então. Uma mensagem enviada em agosto de 2025 por Thiago Miranda a Daniel Vorcaro menciona parcelas pendentes e outra iminente, sugerindo que o montante pode ter ultrapassado esse total após novas negociações.
A dinâmica das transferências internacionais
A evidência da operação se torna mais clara com um comprovante de transferência gerado pelo sistema SWIFT, datado em 13 de fevereiro de 2025. O documento atesta o envio de US$ 2 milhões da empresa Entre Investimentos e Participações Ltda para o Havengate Development Fund LP, fundo administrado pelo advogado Paulo Calixto, que defende Eduardo “Bananinha” Bolsonaro. Essa transação foi realizada através do Banco BS2 e destinada ao JPMorgan Chase Bank, confirmando a existência da rede financeira que sustentou a produção cinematográfica associada à extrema direita.
As mensagens obtidas indicam que essa não foi uma ação pontual, mas parte de um esforço coordenado para garantir financiamento no exterior. Em comunicações trocadas, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, menciona dificuldades enfrentadas no câmbio do Banco Master, levando à decisão de utilizar a estrutura da Entre Investimentos. O executivo Antônio Carlos Freixo Júnior (conhecido como “Mineiro”) aparece nas conversas como parte desse esquema: após Vorcaro sugerir fazer a transferência “via Entre”, Zettel questionou se poderia “pedir pro Minas”. Menos de dez dias depois dessa conversa inicial, Zettel enviou a Vorcaro o comprovante SWIFT com a simples mensagem “Filme!”, logo após a realização da remessa de US$ 2 milhões.
Prioridades financeiras em tempos difíceis
As mensagens indicam que Vorcaro considerou o financiamento do filme como questão prioritária no início de 2025, quando o Banco Master enfrentava pressões regulatórias por capitalização e liquidez. Durante esse período crítico em janeiro, enquanto Zettel apresentava uma lista com despesas pendentes totalizando R$ 55,5 milhões, Vorcaro questionou sobre a situação do pagamento referente ao filme. A resposta indicando que o projeto não estava contemplado na lista gerou uma reação firme do banqueiro: “Esse é o mais importante disparado”, exigindo que não houvesse mais falhas nesse repasse.
A importância atribuída ao filme enfraquece a ideia de que se tratava apenas de um negócio cinematográfico comum. A mobilização intensa por parte de um banqueiro durante uma crise regulatória grave para assegurar recursos para um filme sobre um ex-presidente sugere um interesse político direto na reabilitação do bolsonarismo e na utilização do capital financeiro para influenciar o cenário político eleitoral.
Desgaste eleitoral e resiliência do clã Bolsonaro
A deterioração da imagem do clã Bolsonaro é refletida na recente pesquisa Genial/Quaest divulgada em 10 de junho. O levantamento realizado entre os dias 5 e 8 desse mês revela que 56% dos entrevistados afirmaram que não votariam no senador Flávio Bolsonaro. Esta pesquisa é notável por ser a primeira realizada após a divulgação das mensagens onde Flávio solicita dinheiro a Daniel Vorcaro.
No cenário hipotético de um segundo turno nas eleições presidenciais, Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 44% das intenções contra 38% para Flávio Bolsonaro. Essa diferença representa uma vantagem consolidada onde anteriormente havia empate técnico. Apesar da rejeição significativa enfrentada por Lula também ser evidente, a queda nas intenções para Flávio indica que as revelações sobre o financiamento milionário impactaram negativamente sua base tradicional entre os eleitores da extrema direita.
No entanto, essa situação ainda não inviabiliza Flávio Bolsonaro politicamente. O fato dele manter 38% das intenções mesmo após as novas revelações acerca do caso Dark Horse demonstra que os setores ligados à extrema direita ainda possuem influência considerável sobre certos segmentos eleitorais. Como observado por AND, Flávio continua apto para concorrer eleitoralmente e pode servir ao clã Bolsonaro como instrumento para manter controle sobre as forças reacionárias durante esse processo eleitoral conturbado.
A intersecção entre capital e política
No programa A Propósito, apresentado em 21 de maio pelo canal AND no YouTube, foram discutidos os desdobramentos envolvendo o caso Banco Master pelos jornalistas Ana Clara Nascimento e Marcelle Araujo Monteiro Rodrigues junto ao diretor-geral Victor Bellizia. Eles destacaram como essa situação expõe uma rede suprapartidária conectada ao capital financeiro dentro das estruturas estatais tradicionais. Segundo Marcelle: “O capital financeiro não está atrelado a um campo político específico; ele financia quem for necessário e exerce influência sobre diversos setores governamentais simultaneamente”.
<p Assim sendo, o financiamento destinado à produção de Dark Horse emerge como parte dessa complexa rede influente. O filme transcende sua natureza comercial; ele atua como mecanismo publicitário visando reabilitar Jair Bolsonaro enquanto prepara terreno para Flávio Bolsonaro na política nacional. Isso também revela a dependência da extrema direita em relação aos grandes investidores financeiros e ao apoio político externo – especialmente dos Estados Unidos. Embora Flávio enfrente desgaste nas pesquisas eleitorais, isso não elimina sua influência; antes expõe como as dinâmicas políticas estão profundamente entrelaçadas com relações monetárias e controle ideológico dentro desse contexto eleitoral.
