O Comitê de Apoio ao AND de Curitiba e Região (PR) entrevistou Basílio Baran, autor do romance “Galinhas e Gorilas”, lançado pela Editora Letramento. O romance, segundo o autor, é uma comédia que explora as verdadeiras forças em jogo no Estado brasileiro, negando a tese eleitoreira da festa da democracia, e trazendo os militares para o centro do palco. Trata-se do segundo romance publicado do autor, que lançou em 2023 “Sob o Céu Vermelho”, pela Editora Naura, que traça um panorama da cisão campo-cidade e da oposição entre pessimismo pequeno-burguês e otimismo revolucionário. A dedicatória de Galinhas e Gorilas é para Nelson Werneck Sodré e para o próprio AND, visto terem sido as principais fontes bibliográficas.

AND: Sobre o que é o livro, especificamente?
Basílio: São quatro histórias que partem de 1987 até a invasão do 8 de janeiro de 2023. A questão é que o dia que inicia tudo em 1987 já é um dos primeiros momentos em que os militares mostram que são eles quem mandam, não interessa que o presidente seja civil. É durante uma manifestação dos militares, que entre os organizadores estava o Bolsonaro, na época só capitão do exército, reivindicando um aumento abusivo de salário. 200%. E eles conseguem, sob ameaça de golpe. É o primeiro momento significativo nessa chamada redemocratização que fica claro que quem detém o poder está detrás das cortinas. É um estado tutelado. É assim que a história começa, depois vamos pra 2016, depois pra 2022 e 23.
Enfim, o que acontece é que nós seguimos essas quatro histórias, são histórias dos bastidores do Estado brasileiro. Membros de esquadrões da morte, hoje chamados de milicianos, militares de baixa e média patente, latifundiários, políticos ligados ao latifúndio e agentes americanos. São pessoas que organizam essas pequenas redes de poder, que, juntas, são o próprio Estado. A milícia é o melhor exemplo disso, elas são formadas geralmente por militares de baixa patente, vários dos quais têm carreiras políticas. Eles vivem um mundo no Congresso e outro na rua. E acompanhando as transformações que esses grupos, o exército, as milícias, sofreram ao longo das décadas, nós entendemos o percurso do chamado estado democrático brasileiro, é um estado que a todo tempo tutelado para manter os mesmos privilégios e a mesma exploração funcionando.
AND: E por que é uma comédia?
B: Porque quase todos os personagens são ridículos. Eu digo comédia, mas é uma tragicomédia, na verdade, porque decisões que mudam a vida de muita gente são feitas pelas pessoas mais patéticas do mundo. É claro que isso não é acidental, o Bolsonaro por exemplo, é claro que ele se faz de palhaço, é interessante para a classe dominante que ele vire um bode expiatório, que se acredite que tudo que dá errado no Estado é porque ele é incompetente, não porque o Estado é um jogo de cartas marcadas, é uma máquina programada para falhar na sua suposta função de prover os direitos do povo. Mas acontece que o Bolsonaro serve bem a esse papel porque ele é realmente um imbecil, é um cara tosco, limitado, que faz muita besteira e inclusive se prejudica por conta disso. Mas não é bobo. Ele sabe que tem um papel. Enfim, os personagens são, por exemplo, o Abraham Lincoln Oliveira da Silva, ele é um bolsonarista que acredita que as classes dominantes se importam com ele. Ele é uma espécie de herói trágico, ele não sabe que é só um peão no jogo, mas ao mesmo tempo não é um herói porque ele é um fascista. Então a gente dá risada, não chora. Mas tem personagens sérios, são os personagens que justamente entendem algo do que está acontecendo, mas não necessariamente sabem o que fazer. Não sérios porque sejam realistas, afinal o Abraham é ipsis literis baseado em um cara de verdade, mas sérios no sentido de que não estão abaixo do leitor, são tão inteligentes quanto o leitor.
AND: E por que escrever sobre os bolsonaristas? Por que não sobre o campo democrático?
B: Porque uma coisa leva a outra. O grande movimento do livro, eu acredito, é na exposição desses personagens ridículos, mostrar que eles também tem um raciocínio, e assim eles evidenciam como o que é hoje a falsa esquerda também é ridícula. Eles só não acham que são ridículos porque leem um livro ou outro e tem um discurso mais bonito que o do Bolsonaro. A tese do livro é a demonstração de como, independente do presidente, o Estado é essencialmente o mesmo, porque ele independe da sua figura de proa, o verdadeiro Estado está em outro lugar, é isso que o Werneck Sodré fala a toda hora. E toda a comédia, por dizer assim, se dá pelas pessoas lutando ao redor dessas figuras de proa, lutando em torno de fantasmas. Enquanto isso… e aí está, há sim o campo progressista no livro, mas ele aparece de outras formas. Enquanto isso, no meio dessa confusão, vão aparecendo relances do que é realmente importante, dos motivos reais de toda a movimentação golpista, das grandes lutas do Brasil hoje, das possibilidades de transformação e dos impasses que elas têm. Ou seja, o mecanismo do livro é jogar o discurso institucional pra escanteio, colocar em cena esses personagens patéticos, mas que estão no olho do furacão, que estão envolvidos com coisas realmente importantes, e no meio disso fazer aparecer aos poucos os verdadeiros motivos de preocupação do Estado, os verdadeiros motivos que o leitor tem que estar olhando. É uma narrativa não convencional, ela não serve pra dar resolução a uma contradição que está na realidade e, por isso mesmo, não poderia ser resolvida pela literatura. É uma narrativa que serve pra desfazer ilusões, pra desfazer falsas contradições. O objetivo do livro não é ensinar nada, porque quem ensina é, por exemplo, os professores, o jornal, o Werneck Sodré… o livro tem um poder diferente, ele faz uma deseducação, ele liberta de ideias pré-concebidas, ideias que tomam a nossa vida e não sabemos da onde vem. Da ideologia dominante, fundamentalmente.
AND: Quais são os campos progressistas em cena?
B: A luta pela terra, em especial. A luta indígena em particular. Os indígenas aparecem muito. O narrador nunca fala em nome deles, mas eles aparecem o tempo todo como uma dor de cabeça do Estado. Tem um personagem que é um latifundiário, é o Abutre. Ele é um dos personagens que não são patéticos. Ele é um fascista assumido, ele sabe, ele tem uma ideologia que ele acha que legitima ele. O Abutre não é um protagonista, mas ele talvez seja até mais importante, porque, se você presta atenção, e esse é todo o jogo do livro, você vê que ele vai puxando os fios aqui e ali, e o grande problema dele é a resistência camponesa e indígena. E quando eu escrevi esse livro, ele demorou pra sair, ainda não tinha nem a confirmação de que vários latifundiários financiaram as manifestações golpistas. Mas o Abutre faz isso no livro. E ele coloca um grande esforço nisso porque ele quer que o Estado resolva o problema dele, que é a manutenção e expansão do seu latifúndio. Enfim, a luta pela terra é central. Mas também há uma parte bem importante em que predomina o movimento urbano e estudantil, afinal, as primeiras pessoas a serem presas por acusação de atentar contra o Estado suposto democrático não foram os galinhas verdes, foram os manifestantes pelo Passe Livre.
AND: Onde podemos encontrar o livro?
B: No site da Letramento pra todo o Brasil. Pra Curitiba e região metropolitana, quem quiser pode ir no meu instagram e comprar direto comigo.


