
Atualização 29/04: Ricardo Acuña Quispe, o único sobrevivente que conseguiu escapar, foi ouvido pela Procuradoria Provincial de Crimes Corporativos de Tayacaja. Em seu depoimento inicial, ele relatou que atuava como ‘mochileiro’, transportando treze quilos de drogas a pé durante dois dias em troca de apenas 1.300 soles (equivalente a R$ 1.854,64). No entanto, em um novo relato, o jovem afirma que suas declarações foram obtidas sob pressão.
O jovem alegou ter sido coagido pelos militares, que o ameaçaram com armas. Segundo ele, não havia drogas em seu transporte e os soldados se apresentaram sem identificação, vestidos de forma civil. Essa abordagem gerou pânico entre os ocupantes do veículo, que temeram se tratar de um assalto e não pararam. “Eu teria pensado que eram ladrões”, ressaltou.
No dia 25 de abril, cinco indivíduos foram cruelmente executados por uma patrulha do Exército do Peru na área de Puente Mellizo, no distrito de Colcabamba. Os militares dispararam mais de 60 tiros contra um veículo 4×4, resultando na morte de homens com idades entre 18 e 37 anos. Este trágico episódio não representa um caso isolado, mas sim uma manifestação extrema da política de extermínio que o Estado peruano impõe sobre as populações marginalizadas, especialmente nas áreas do Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro (VRAEM).
A ação violenta ocorreu por volta das 4h30 da manhã quando a caminhonete Toyota dirigida pelo colombiano Nilson Montenegro Valencia cruzou com a patrulha militar. A gravidade do ataque foi confirmada por análises forenses que revelaram marcas de tiros provenientes de diferentes direções, indicando uma emboscada planejada para eliminar qualquer sobrevivente. Entre as vítimas estavam Ever Romero Sivipaucar (37), Jaime Bendezú Paraguai (28), William Nuñez Soto (19) e Christian Vilcatoma Águila (18), além do motorista.
O Comando Conjunto das Forças Armadas (CCFFAA) rapidamente divulgou a versão oficial alegando que os ocupantes do veículo eram “narcotraficantes” que teriam atacado os soldados. Contudo, essa narrativa foi desmantelada com evidências: exames demonstraram que nenhum dos jovens estava armado e no carro não foram encontradas drogas ou armamentos. O advogado das famílias das vítimas, Anthony Crespo, declarou categoricamente que “as justificativas apresentadas pelo Exército são apenas uma tentativa de encobrir esse massacre”.
Ricardo Acuña Quispe também destacou a dura realidade que leva os jovens à criminalidade ao relatar seu envolvimento como “mochileiro”, transportando drogas em condições precárias para conseguir ganhar apenas 1.300 soles (R$ 1.854,64). Ele esclareceu ainda que as substâncias ilícitas estavam em um outro veículo e não naquele atacado pelos militares. Essa prática é uma alternativa desesperadora para muitos jovens da região abandonados pelo Estado, que posteriormente os persegue sob o pretexto da “guerra às drogas”.
A impunidade diante da ofensiva reacionária
A impunidade relacionada ao massacre em Colcabamba é facilitada pela deterioração do sistema judiciário local. Embora a procuradora Zina Romero Chávez tenha iniciado um inquérito preliminar contra oito militares por homicídio qualificado, todos foram soltos na manhã do dia 27 de abril. Entre os libertados estão o capitão Jorge Montenegro Pardo e o tenente Brayan Fernández Dett.
Esse incidente ocorre em meio a um contexto mais amplo de repressão no Peru. Em 2024, sob a liderança da então presidente Dina Boluarte e com apoio do Congresso, foi aprovada a controversa “Lei da Anistia”, que absolveu o ex-presidente Alberto Fujimori e mais 600 militares acusados por crimes contra a humanidade antes de 2002. Fujimori foi um defensor fervoroso dos interesses imperialistas dos EUA e instaurou um regime violento nos anos 90, resultando na morte de milhares de camponeses e na esterilização forçada de aproximadamente 350 mil mulheres na tentativa de sufocar a Revolução Peruana liderada pelo Exército Guerrilheiro Popular (EGP) sob o Partido Comunista do Peru (PCP).
A trajetória das Forças Armadas peruanas está marcada pelo sangue dos camponeses. Durante os anos mais críticos da Guerra Popular iniciada em 1980, o Estado recorreu a esquadrões da morte para eliminar quaisquer focos de resistência. Um caso emblemático foi a condenação recente de um ex-chefe militar por sua participação no desaparecimento e assassinato de 60 civis em 1984, incluindo o jornalista Jaime Ayala Sulca; essa sentença reconheceu o “grave erro” cometido ao considerar injustamente camponeses humildes como elementos terroristas.
Em junho de 1986, sob ordens do presidente Alan García, prisões como Lurigancho, Callao e Frontón foram bombardeadas resultando na morte de cerca de 300 prisioneiros políticos. Nos anos subsequentes, massacres em Accomarca e Cayara – onde dezenas de camponeses foram brutalmente assassinados – foram covardemente atribuídos à guerrilha pela mídia burguesa quando na verdade eram perpetrados pelas forças repressivas.
O movimento revolucionário iniciado em 17 de maio de 1980 pelo PCP – rotulado pelo governo pró-ianque da época como “bando criminoso” destinado à eliminação em sessenta dias – evoluiu para o processo mais profundo da história latino-americana, abrangendo quase todo território nacional e levando adiante milhares de ações armadas enquanto buscava realizar uma revolução democrática no Peru.
