Intelectual maoista Ajith critica tendência de rendição na Índia, ressaltando a urgência da luta armada em um contexto semifeudal

No dia 25 de maio, a revista indiana Nazariya trouxe de volta o artigo intitulado “A política da rendição”, elaborado pelo teórico marxista-leninista-maoista K. Murali, conhecido como Ajith. O texto faz uma crítica direta à linha do Oportunismo-Liquidacionismo-Revisionismo (OLR) e enfatiza que, mesmo diante das dificuldades enfrentadas pelo movimento maoista na Índia, “o mais crucial é permanecer firme no caminho revolucionário”. Uma versão não oficial foi disponibilizada em português do Brasil no blog Servir ao Povo.

Ajith argumenta que esse caminho se baseia nos princípios estabelecidos em Naxalbari e na Guerra Popular Prolongada. Ele lembra que a necessidade da luta armada surge da natureza da sociedade indiana, onde a violência é uma constante, especialmente nas zonas rurais. “Essa realidade é uma das manifestações tangíveis do semifeudalismo presente em nosso país”, observa.

Os editores da Nazariya esclarecem que o artigo questiona a política traiçoeira de rendição advogada pelos indivíduos Sonu e Devji, sublinhando a importância do caminho de Naxalbari na luta contra a OLR. Ajith critica a proposta de uma “atuação legal” para o Partido Comunista da Índia (Maoista), bem como a dissolução do Exército Guerrilheiro Popular de Libertação (EGPL) e a transformação do partido em uma entidade legal, afirmando que isso equivale, na prática, a “abandonar a orientação revolucionária do partido e o caminho armado de Naxalbari voltado para conquistar o poder político”.

No Brasil, a versão portuguesa não oficial incluiu uma nota ressaltando que Ajith “desmascara a traição promovida pela camarilha de Sonu/Satish e Devji”, que tenta encobrir sua capitulação ao velho Estado indiano com um suposto desejo de revitalizar o movimento revolucionário.

A redação baseia-se em entrevistas dadas por Devji, ex-integrante do Birô Político do Partido Comunista da Índia (Maoista), após sua prisão ou rendição. Ele afirma ter sido capturado durante sua tentativa de fugir da zona de conflitos, negando ter se rendido. No entanto, Ajith rebate essa justificativa ao mencionar os benefícios financeiros oferecidos pelo governo de Telangana aos que se rendem e o impacto desmobilizador dessa rendição sobre as forças revolucionárias e as massas.

Para Ajith, “recusar-se a se render é primeiramente uma questão fundamental para um revolucionário comunista”. Ele critica Devji por criar uma falsa dicotomia entre os imperativos morais que devem guiar um maoísta sob custódia inimiga e os interesses mais amplos do movimento revolucionário, defendendo que ambos são interdependentes desde que ainda se trate de um contexto revolucionário.

K. Murali conclui que o aspecto crucial não é se Devji e seus aliados continuarão atuando como “ativistas”, mas sim qual política pretendem implementar. O artigo menciona um documento apresentado ao ministro-chefe de Telangana onde Devji e seus companheiros afirmaram que operariam “dentro dos limites legais” caso houvesse suspensão da proibição ao PCI (Maoista), além de declarar que dissolveriam imediatamente o EGPL caso o partido fosse reconhecido como entidade política legal. Nas palavras atribuídas a Devji por Ajith, “a luta armada deixaria de existir”. 

Guerra de Baixa Intensidade e manobra contra o movimento maoista

O texto localiza a política de rendição dentro da ofensiva do antigo Estado indiano contra a Revolução Indiana. K. Murali afirma que o fascismo bramânico-hindutva tem como meta instaurar um Hindu Rashtra, e ressalta que o regime fascista sob Narendra Modi não se contentará com menos do que a total subjugação do movimento revolucionário.

Conforme argumenta Ajith, combater o movimento maoista vai muito além da proteção dos interesses monopolistas de empresas como Adani ou Tata; trata-se essencialmente de uma guerra política contrarrevolucionária sustentada por uma ideologia reacionária. Para ele, o comunismo na forma do Marxismo-Leninismo-Maoísmo é visto como o “nêmesis” dessa política opressiva, motivo pelo qual o regime busca aniquilá-lo completamente.

Ajith também reflete sobre as circunstâncias envolvendo a prisão/rendição de Devji à luz da estratégia governamental de Guerra de Baixa Intensidade voltada à contrarrevolução. O autor levanta questões sobre por que o governo Modi permitiu que um ministério sob controle do Congresso conduzisse esse processo, mesmo em relação a figuras notoriamente procuradas como Devji.

K. Murali sugere que essa manobra pode estar relacionada aos resultados mistos da operação Sonu/Satish. Ele observa: “É verdade que esse grupo causou danos significativos ao movimento em Dandakaranya; entretanto, falhou drasticamente em outras partes do país”, resultando numa reenergização das fileiras dos simpatizantes e ativistas que condenaram Sonu/Satish por traição.

O artigo afirma ainda que no lugar da descreditada camarilha Sonu/Satish agora surge um novo grupo dirigente autodenominado “honesto”, alegando não ter se rendido nem entregue suas armas enquanto busca apoio para um projeto legitimador. K. Murali alerta para os possíveis efeitos nocivos da prisão/rendição de Devji e seus aliados podendo ser “muito mais prejudiciais” do que aqueles impostos pela camarilha Sonu/Satish.

O caminho de Naxalbari

No fechamento do artigo, Ajith volta-se aos princípios fundamentais do caminho traçado em Naxalbari. Ele destaca novamente a lógica por trás dessa escolha: a atividade armada é necessária devido à essência da nossa sociedade marcada pela violência coletiva predominante nas áreas rurais—uma clara expressão das relações semifeudais presentes no país.

O autor também aponta que os conceitos associados à democracia burguesa—como Estado democrático, direitos civis e governo responsável—são meras fachadas disfarçando as relações casta-feudais profundamente enraizadas. Segundo Ajith, quando uma luta popular confronta os interesses vitais dos opressores, surgem as forças armadas dos latifundiários locais ou os partidos das classes dominantes junto com “o poder armado do Estado”.

K. Murali recorda que os pioneiros na Revolução iniciada em Naxalbari deliberadamente escolheram seguir com a Guerra Popular Prolongada fundamentados numa análise clara das classes sociais: considerando a Índia como um país semicolonial e semifeudal; definindo a Revolução Nova Democrática como etapa essencial; reconhecendo a classe operária como líder da revolução enquanto vê no campesinato sua força principal. Esses fatores foram cruciais para moldar essa decisão estratégica.

Contra falsos ‘apoiadores’ da Guerra Popular

A tradução publicada pelo Servir ao Povo também faz conexões entre o artigo e as críticas dirigidas aos falsos “apoiadores” da Guerra Popular na Índia. A introdução no blog enfatiza que as demarcações feitas por Ajith são fundamentais para expor aqueles que alegam apoiar essa luta apenas verbalmente enquanto negam seus princípios essenciais—como a Linha Política Geral e o Programa do PCI (Maoista).

A nota menciona um documento emitido pelo P.C.B., afirmando: “Defender a Guerra Popular na Índia implica defender sua Linha Política Geral e combater o revisionismo.” Esse documento denuncia aqueles considerados apoiadores virtuais da Guerra Popular na Índia , afirmando suportá-la apenas nominalmente enquanto adotam posições contrárias aos fundamentos políticos centrais do PCI (Maoista).

A análise converge com outro artigo publicado anteriormente pela Nazariya, intitulado “O Primeiro de Maio e a luta no campo ideológico”, onde também se denunciava a linha OLR e afirmava que o Marxismo-Leninismo-Maoismo persiste na Índia tanto através das palavras quanto através das armas. Essa declaração foi repercutida em matéria publicada no dia 22 de maio associando-a às críticas à camarilha Sonu-Satish bem como às recentes declarações emitidas pelo Movimento Comunista Internacional em defesa da Guerra Popular na Índia.

<pAo finalizar suas considerações, Ajith ressalta que os desafios enfrentados atualmente pelo movimento revolucionário maoista exigem uma análise profunda juntamente com necessárias correções estratégicas; contudo ele reafirma: “o mais importante é manter-se firme no caminho revolucionário”.