Operação de fachada no Paraguai revela ineficácia governamental e repressão ao agrarismo

Uma grande operação chamada “Renascimento” foi iniciada no Departamento de Canindeyú, no Paraguai, envolvendo mais de 300 agentes das forças de segurança e nove promotores. O foco da ação recaiu sobre o assentamento Primero de Marzo, onde a Força Policial de Operações Especiais (FOPE) realizou buscas, alegando a presença de armamentos e plantações de maconha. O comissário Marcelino Espinoza explicou à Telefuturo que a área é “de difícil acesso” e normalmente não seria visitada, justificando assim a mobilização significativa de agentes antinarcóticos para essa operação.

Apesar da grandiosidade da operação e do discurso voltado para o combate ao crime organizado, os resultados obtidos foram bastante limitados. A equipe de repressão conseguiu apreender uma submetralhadora calibre 5,56 com um carregador e 13 munições, além de uma pistola 9mm e equipamentos táticos. O Comissário Mario Vallejos, que lidera a Unidade Antinarcóticos, reconheceu a complexidade do local, mencionando a escassa presença do estado na região ao longo da história. Vallejos não forneceu detalhes sobre o número exato de alvos envolvidos, mas afirmou que a operação objetiva desmantelar grupos vinculados ao tráfico de drogas, independentemente da sua organização ou alcance nacional e internacional.

Vallejos admitiu que, até este momento, não existem evidências concretas que conectem os indivíduos detidos ao grupo criminoso comandado por Felipe Santiago Acosta Riveros, conhecido como “Macho”, ou a qualquer outra organização criminosa transnacional. No entanto, ele ressaltou que não se pode descartar totalmente a possibilidade de vínculos. Investigadores apontaram a descoberta de recipientes de gás butano e outros itens supostamente usados para o processamento de maconha. Essas informações foram utilizadas pelo aparato estatal para sugerir que o assentamento funcionaria como um laboratório para drogas e abrigo para fugitivos.

O assentamento Primero de Marzo, situado na colônia Naranjito no distrito de Ybyrarobaná, é frequentemente alvo da cobiça dos latifundiários na região. Este local abrange cerca de 7 mil hectares e abriga centenas de famílias lutando pela regularização fundiária. O governo tenta associar essa comunidade à presença do Exército do Povo Paraguaio (EPP), embora sem apresentar provas concretas ligando os detidos às atividades criminosas locais. Essa tentativa tem como objetivo deslegitimar a luta pela terra. O comissário Juan Fretes declarou que o velho Estado está se esforçando para estabelecer uma presença firme com o intuito de “desmantelar quaisquer intenções criminosas”, mesmo diante da fragilidade das conexões apresentadas até agora.

A fabricação do inimigo interno

A narrativa do velho Estado paraguaio se alinha com os interesses dos latifundiários locais ao afirmar que o assentamento Primero de Marzo é uma “zona liberada”. A estratégia visa mesclar o movimento camponês com guerrilhas e narcotráfico em um único inimigo. Fontes governamentais alegam que essa área estaria sob controle de traficantes sustentados pelo cultivo em larga escala de maconha e pela exploração dos recursos nativos. Essas acusações publicadas pela mídia reacionária buscam deslegitimar as ocupações camponesas ao vinculá-las à posse irregular de armamentos pesados, como fuzis 7,62 e metralhadoras .50 (que não foram encontradas durante as operações), insinuando que o local serviria como base para o EPP.

No dia 24 de julho, em entrevista à rádio 1.000 AM, o ministro da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), Jalil Rachid, afirmou que há indícios sugerindo uma colaboração entre a guerrilha e narcotraficantes, embora tenha evitado fornecer conclusões definitivas ou provas concretas dessa união. Da mesma forma, o ministro da Defesa Nacional, Óscar González, comentou ao jornal ABC Cardinal que o EPP teria perdido sua “pureza ideológica” em favor do tráfico, baseado em laudos balísticos que apenas indicam a presença variada de armamentos na região sem confirmar uma liderança unificada.

Roberto Mancuello, representante do assentamento Primero de Marzo, refutou as alegações feitas contra sua comunidade e convidou todos a conhecerem as iniciativas coletivas realizadas no local. Ele enfatizou que o assentamento resulta do esforço conjunto entre 500 a 600 famílias que construíram escolas, igrejas e infraestrutura básica, reivindicando do governo a regularização das terras ocupadas. Mancuello declarou: “a colônia está aberta; estamos à disposição”, criticando as ações governamentais por ignorarem a realidade dos moradores.

A pressão crescente sobre essas comunidades está diretamente ligada aos interesses da Agroganadera Pindó S.A., que solicita ações governamentais para reprimir as famílias em busca por terra. Em uma declaração pública, a empresa alegou que os responsáveis por um ataque recente a uma delegacia teriam encontrado abrigo no assentamento. Andrés Duré, um latifundiário local, tentou justificar as ações repressivas ao afirmar que suas propriedades estão sob ataque constante por parte dos moradores locais sem apresentar provas concretas para suas alegações sobre um “surtos do EPP” na área. Este discurso contribui para legitimar a presença militar nas áreas ocupadas.

No mês passado, grupos latifundiários em Yasy Cañy pediram publicamente à Força-Tarefa Conjunta (FTC) para realizar operações na região. Ricardo Orué, chefe da polícia local em Canindeyú, chegou até mesmo a declarar que latifundiários estariam sendo ameaçados por “indígenas nas proximidades”, ampliando assim o escopo das perseguições para incluir comunidades indígenas e transformando disputas agrárias em questões consideradas como segurança nacional.

Alinhamento à cartilha de contrainsurgência do imperialismo ianque

A atual escalada repressiva no Paraguai está alinhada com as políticas contrainsurgentes promovidas pelos Estados Unidos na região. A presença militar norte-americana no país é facilitada pelo acordo conhecido como SOFA (Estatuto das Forças), evidenciando a subordinação do governo paraguaio às diretrizes americanas. Victor Bellizia, diretor-geral da AND, analisou essa situação no programa A Propósito #369 destacando que essa política faz parte da chamada “Doutrina Monroe”, uma estratégia contrarrevolucionária projetada para evitar desestabilizações na ordem semicolonial vigente no país. Bellizia enfatizou ainda que a resistência camponesa representa fundamentalmente uma luta anti-imperialista contra os interesses estrangeiros estabelecidos na região.

A administração americana tem promovido um aparato continental voltado à repressão dos movimentos populares em diversos países latino-americanos. O secretário da Defesa dos EUA anunciou potenciais “operações militares conjuntas” para enfrentar terroristas e suas redes associadas; dentre eles estão grupos revolucionários colombianos considerados alvos prioritários. O Ministro da Defesa colombiano corroborou essa posição afirmando: “chegou a hora dos cartéis narcoterroristas enfrentarem todo o poder hemisférico liderado pelos Estados Unidos”.

A mudança na abordagem do Pentágono em relação aos rótulos aplicados aos conflitos internos permitiu identificar guerrilhas revolucionárias como “alvos legítimos” nas semicolônias subordinadas aos interesses americanos. O uso do termo “narcoterrorismo” serve para mascarar as verdadeiras intenções imperialistas sob pretextos humanitários ou legais na luta contra movimentos populares. O secretário de Estado americano defendeu esforços concentrados em “identificar e mapear” forças anti-imperialistas e comunistas visando aumentar sanções financeiras e cooperação policial internacional.

No Brasil também se percebe esse movimento contrarrevolucionário promovido pelo imperialismo globalizado. Bellizia destacou como essa luta revolucionária se manifesta principalmente através da Revolução Agrária em curso no país: “Aqui no Brasil há uma verdadeira guerra camponesa pela terra; eles também estão atentos”, afirmou ele. Além disso, lembrou-se que ações policiais em Rondônia têm utilizado os mesmos termos empregados pelas políticas yankees ao rotular camponeses como “guerrilheiros” ou “narcoterroristas”, evidenciando assim uma preocupação concreta com os desenvolvimentos sociais nesse país vizinho.

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