I
Machado de Assis, em Dom Casmurro, nos lembra que “o diabo não é tão feio como se pinta”. No entanto, é válido acrescentar uma nuance a essa afirmação: em certas circunstâncias, ele realmente é. Além disso, como sugere a sabedoria popular, por vezes é o próprio diabo quem se disfarça para não parecer tão horrendo.
É importante ressaltar que não se deve desconsiderar o contexto desse adágio, especialmente por sua relevância para o personagem que lhe atribui importância a ponto de ganhar um capítulo exclusivo. Manduca, vizinho e momentâneo rival intelectual de Bentinho, estava à beira da morte devido à lepra. A única coisa que “oferecia à podridão de suas carnes um brilho espiritual que confortava” era o debate político, especialmente sobre a Guerra da Crimeia. Ele defendia os aliados e se opunha à Rússia; Bentinho, por outro lado, “um tanto moscovita”, apoiava os russos.
A ideia é interessante e típica do período: mesmo em um corpo severamente afetado pela doença, ainda poderia existir alguma forma de elevação espiritual advinda da razão – talvez uma Razão com letra maiúscula –, como se a inteligência ou a disputa de ideias fossem capazes de suspender temporariamente o processo de decomposição. Contudo, no estilo característico machadiano, a espiritualidade não triunfa completamente sobre a matéria decadente; na verdade, apenas proporciona uma distração. Manduca acaba sucumbindo (apesar da previsão de que os russos não invadiriam Constantinopla).
O Estado brasileiro também enfrenta seu próprio sofrimento. Ele nunca esteve tão debilitado e tem consciência disso. O Estado padeceu “sob a triste, rota e infecta colcha de retalhos”, que insiste em ser chamada de expressão da “democracia” – uma farsa eleitoral. Ao contrário do fervor político que Manduca encontrava como consolo na defesa da Turquia, o velho Estado não consegue manter essa aparência e parece cada vez mais Dorian Gray, tentando preservar na superfície aquilo que já está em decomposição internamente.
A fachada começa a ruir. As fissuras não podem ser ocultadas pela retórica institucional ou pelos rituais eleitorais da liturgia “republicana”. A forma ainda persiste por um triz, mas aquilo que deveria preencher essa forma se desintegra diante dos olhos. O maior sofrimento do Estado reside precisamente aí: não na deterioração interna à qual se acostumou, mas na escassez do que resta para encobri-la.
Em meio à diversidade das siglas do Partido Único no atual cenário eleitoral, começa a surgir um consenso sobre as ações necessárias diante da crise: aumentar o aparato repressivo e preparar-se para uma situação que já parece escapar ao seu controle. Uns falam em segurança; outros mencionam combate ao crime; há quem cite terrorismo e narcotráfico; mudam-se os nomes e as abordagens, mas o remédio é sempre o mesmo. Quando a polícia falha, as Forças Armadas são convocadas; quando as leis parecem insuficientes para garantir a estabilidade do sistema latifundiário-burguês, são ampliadas as exceções. As divergências aparecem apenas nas metodologias e intensidades das ações; quanto aos objetivos finais, há um consenso claro.
Mas qual é esse acordo? Trata-se da reintegração do Alto Comando das Forças Armadas (ACFA) como instância moralizadora e tutelar da ordem política. A tutela silenciosa já não satisfaz mais; eles reivindicam um espaço amplo para intervir sempre que julgarem necessário assumir o comando do país. Simultaneamente, precisam manter uma aparência de “estabilidade”, “legalidade” e “legitimidade” que torne essa tutela aceitável politicamente, especialmente após os eventos do 8 de janeiro de 2023.
Os candidatos, entre promessas vazias e demagogias habituais, inevitavelmente prestarão homenagem à força do monopólio da violência estatal ao qual todos estão subordinados. Essa é a única garantia momentânea contra serem destituídos de suas posições confortáveis e lançados à história pelas forças destrutivas que poderiam fazer até mesmo o Terror francês parecer brando.
O ACFA compreende isso com clareza enquanto os membros do Partido Único estão ocupados com suas apresentações eleitorais e mal conseguem disfarçar sua preocupação. O rosto na cadeira não importa tanto; importa sim que essa cadeira permaneça sob vigilância rigorosa e que quem nela se assenta saiba desde o início a quem deve prestar contas quando a “estabilidade” estiver ameaçada ou quando for necessário descartar a “legalidade”. É uma questão de sobrevivência.
II
No entanto, o espetáculo prossegue com seus marionetes animados. Do ridículo ao grotesco surgem personagens na televisão: Romeu Zema, defensor da escravidão que mal consegue articular uma frase sem tropeçar em sua própria ignorância (ou em sua banana); Augusto Cury, um “intelectual” superficial; Renan Santos sendo chamado pelo The Economist de “Milei brasileiro”, sem saber se isso é elogio; Ronaldo Caiado como um senhor feudal; e Flávio Bolsonaro – “rachadinha” – coroado direto da prisão como Willy Wonka do dinheiro sujo; contraposto ao eterno Luiz Inácio que promete agora realizar tudo aquilo que deixou de fazer nos últimos quatro anos… ou nas duas décadas em que seu partido esteve no poder prometendo erradicar a fome enquanto vendia a pátria repetidamente.
Não poderia faltar aquele tempero insípido: acusações mútuas sobre corrupção e outras imoralidades diversas – algo simples de fazer dada sua natureza corrupta – como bem dizia Lenin: a “democracia” dos interesses monopolistas gera sempre “um Panamá” onde quer que esteja presente venalidade em larga escala. Quem assistiu aos últimos circos eleitorais recordará facilmente que nada mudou nesse aspecto. Isso porque os diabos conhecem bem sua feiura e sabem como sua maquiagem é frágil; por isso preferem apontar as falhas do próximo diabo na fila.
A luta cada vez menos civilizada entre essas frações das classes dominantes reflete seu desespero: cada grupo financia diferentes siglas políticas na tentativa de evitar ser alvo na próxima reconfiguração interna. Enquanto a identidade comum as une contra o povo brasileiro visivelmente, existe uma segunda determinação implacável: nenhuma identidade pode ser construída sem opositores; esses opositores se reconhecem precisamente pelo conflito entre si — essencialmente pela luta contínua ao invés da estabilidade.
No embate entre essas aves de rapina interessa quem levará maior parte da carne – uma avaliação cuidadosa entre saciar sua fome pessoal enquanto evita tornar-se carniça no futuro próximo. Como lacaio do imperialismo globalizado seguem pela lógica egoísta do “farinha pouca meu pirão primeiro”, disputando os restos permitidos enquanto deixam quase nada para quem vem depois.
Nenhum deles discute sobre a Guerra da Crimeia — falta-lhes até mesmo aquilo que ainda restava para Manduca em seu leito: uma causa pela qual lutar — mesmo sendo esta uma causa alheia como foi no caso da Turquia — um “reflexo espiritual” capaz de oferecer um pouco de dignidade à própria decadência. Aqui só existe uma religião: sobreviver; só há convicção em saber quem sairá ganhando neste banquete onde outros serão devorados.
III
Diante dessa conjuntura emergente aparece um novo escândalo digno de nota: a intensificação da crise no Supremo Tribunal Federal (STF), iniciada logo nos primeiros meses deste ano com denúncias envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro — proprietário do extinto Banco Master atualmente preso.
Em questão de horas, aproveitando-se das brechas deixadas pela imprensa sensacionalista, o Estadão publicou inúmeras matérias relacionadas às novas evidências acerca das ligações entre Moraes e Vorcaro. Imediatamente exigiu-se abertamente — sem qualquer pudor — a saída do líder moralizador post-2023 através de um artigo cujo título dispensava rodeios típicos encontrados nas matérias mais amenas — aquelas defensivas dos direitos dos sionistas — para afirmar diretamente: “Moraes deve deixar o Supremo”.
Aquele mesmo ministro visto por uns como símbolo da “contenção institucional ao golpismo” passou agora a ser apontado como “ditador com toga”, envolvido em mensagens extraídas do celular do banqueiro onde ele era contatado repetidamente para interceder junto às altas esferas da Polícia Federal (PF) e Procuradoria-Geral da República (PGR) por favor ao banco prestes a fechar as portas — pedidos cessados poucas horas antes dele ser detido no aeroporto de Guarulhos com destino anunciado para Dubai — evento aparentemente debatido amigavelmente antes.
Além disso revela-se novamente que o escritório da esposa de Moraes recebeu mais de 80 milhões de reais provenientes do Banco Master nesse mesmo período enquanto tal ministro participou ativamente na redação do contrato estipulando pagamentos totalizando 129 milhões reais. De acordo com análises forenses feitas nos arquivos digitais disponíveis indica-se ainda que alterações feitas minutos antes da entrega final foram vinculadas ao nome associado diretamente ao ministro Alexandre.
Aqueles familiarizados com os últimos circos eleitorais reconhecerão facilmente padrões familiares: um “furo” jornalístico rapidamente transformado em material impresso – agora digital – surge como arma poderosa visando gerar instabilidade onde busca-se desestabilizar situações preexistentes. O uso indiscriminado dessa imprensa sensacionalista explica-se menos pela romântica ideia tradicional sobre liberdade impressa voltada exclusivamente ao debate público; trata-se mais provavelmente de seu papel como ferramenta publicitária em benefício das classes dominantes. Além disso isso também parece integrar esforços mais amplos comuns dentro desse cenário conturbado.
A “contenção institucional ao golpismo” versus “ditadura com toga” são expressões distintas referindo-se basicamente à mesma tentativa desesperada por manter aparências diante das crises militares passadas enquanto constituíam também resultados institucionais pós-8 de janeiro. Entretanto com este novo plano contrarrevolucionário geral em movimento já não faz sentido manter tais medidas anteriores podendo até mesmo entrar em contradição direta com novas diretrizes implementadas daqui pra frente visando recuperar controle total sobre as instituições governamentais.
Assim inicia-se novamente todo esse processo farsesco conhecido como “sistema freios e contrapesos” presente nesta república desvinculada totalmente dos verdadeiros princípios republicanos: negociam coercitivamente formas institucionais sob pressão militar crescente.
Moraes torna-se então alvo prioritário deste ataque ainda surgindo denúncias contra André Mendonça tratadas porém pela imprensa monopolista sob ângulos muito mais cautelosos incluindo nuances como “talvez” ou “porém”. Afinal esses atores envolvidos nessa trama são bem cientes sobre limites quando se trata restaurar prevalência militar enquanto preservam respeito institucional mínimo sem abrir mão dessa fachada apresentada falsamente como sendo interesse nacional.
Aqui também vale notar novamente essa tendência universal entre esses indivíduos ávidos por apontar falhas alheias enquanto protegem suas próprias mãos sujas tentando evitar serem descobertos tão contaminados quanto aqueles culpados considerados bodes expiatórios necessários nesse esforço contínuo para restaurar equilíbrio impossível nas instituições envelhecidas deste velho Estado.
Os desdobramentos desse novo escândalo cotidiano talvez não tragam muitas novidades além das informações já conhecidas acerca desse velho Estado mas certamente revelará detalhes significativos sobre estratégia futura implementada pelo ACFA nesta fase ofensiva atual: reabilitar imagem pública reforçando caráter profissional apartidário buscando recuperar legitimidade necessária para exercer sem reservas tutela governamental estabelecida novamente podendo assim sonhar abertamente controlar diretamente poder civil apresentando-o sob legalidade possível desta vez mantendo fachada aceitável aos olhos públicos envolvidos nos processos decisórios fundamentais dessa sociedade brasileira contemporânea;
Todavia expressa também crescente percepção subliminar acompanhando candidaturas Partido Único bem assim movimentos diretos realizados pelo ACFA evidenciando urgência intensificada guerra contrassubversiva promovida internamente visando eliminar obstáculos existentes dentro estruturas institucionais podendo limitar margem intervenção militar assim gerenciando qualquer resistência proveniente dos chamados três poderes independentes existentes hoje reconhecidos formalmente nesta república brasileira moderna atual!
No fundo ataque direcionado especificamente contra Moraes aqui aparece claramente ligado diretamente recomposição condições políticas necessárias garantir intervenção militar aberta futura primeiro desacreditar agente responsável contenção anteriormente autorizada questionar legitimidade tal contenção então apresentar remoção necessária restabelecer normalização funcionamento institucional desejada! Guerra contrassubversiva demanda portanto mais armas porém exige também redução obstáculos existentes bloqueadores potenciais caminho adotado rumo pleno exercício força militar!
IV
A população brasileira fora desse conluio nem tampouco envolvida nessa disputa feroz travada pelas classes dominantes tem sido convocada nas últimas eleições bianuais escolher entre opções apresentadas disputando espólios Estado podre! É levada buscar naquilo restante dentro conceito república alguma indicação presença espírito vivo ideia redentora ainda válida encontrando somente sob aquela coberta velha manchada corrupção política algo justifique participação ativa nesse processo eleitoral! Não há nada justificável nesse sentido! Esse ciclo precisa ser interrompido! Cidadãos brasileiros não devem seguir sendo meras peças encenadoras dentro espetáculo deprimente cujas consequências sanguinolentas afetam toda sociedade subjugada perda direitos básicos!
A chamada “educação patriótica”, nas últimas décadas nos ensinou sobretudo distancia existente entre discurso proferido realidade vivida cotidianamente população local! Onde essa educação tornou-se insuficiente resta apenas policiar reprimir agredir fisicamente aqueles considerados indesejáveis! Última lição proveniente educação cívica mostra claramente esgotamento consenso prévio leva coerção completa tarefa! Assim fica claro portanto esse diabo representado velha política embora inicialmente parecesse exigir revelações sutis agora expõe crueza feiúra indiscutível! E apesar disso nada há temer pois justamente crise instituições impossibilitando controle apenas através violência avanço deterioração visível revela covardia extrema escondida atrás fachada aparente poder!
Caso precisemos adicionar breve observação tese central capítulo XCII Dom Casmurro, conclusão passagem continua pertinente assim afirmando:”as violetas hão mister estrume suíno para exalar fragrância superior”! Velha ordem embora abominável precisa apodrecer servir matéria prima renascimento futuro baseado princípios justiça igualdade liberdade fundamentais! Quanto mais evidente torna-se degradação falsa democracia vigente maiores condições brotam ruínas enfrentadas massas lutadoras! Exatamente aquilo fedendo atualmente dentro corpo podre instituições deterioradas formas violentas sustentadoras regime dominante possibilitará criação nova realidade verdadeira democracia emergente! De queda antiga estrutura resultará florescimento exuberante campo violeta!’
