EUA financia procurador brasileiro para seminário sobre ‘enfrentamento ao Irã e seus aliados nas Américas

O avanço do imperialismo norte-americano se manifesta na integração de representantes do antigo Estado brasileiro ao seu dispositivo continental de “contraterrorismo”. O procurador Lucas de Morais Gualtieri, do Ministério Público Federal (MPF), foi designado para participar do workshop intitulado “Combate ao Irã e seus Representantes nas Américas”, que ocorrerá em Assunção, Paraguai, nos dias 16 e 17 de setembro. Todas as despesas com passagens, transporte, hospedagem e alimentação serão subvencionadas pelo governo dos Estados Unidos (EUA). Gualtieri foi convidado a compartilhar sua polêmica atuação na Operação “Trapiche”, uma investigação que serviu como base para alegar a presença de uma suposta célula da Resistência Libanesa no Brasil, o que se tornou um dos principais argumentos em suas frequentes participações em eventos internacionais de “contraterrorismo” patrocinados por Washington.

No mês de abril, Gualtieri esteve presente em uma audiência convocada pelos generais Pazuello e Girão, onde discutiu temas relacionados ao “narcoterrorismo” e defendeu a ideia de que o Hezbollah opera na Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. Dois meses depois, participou do “15º Treinamento do Grupo de Coordenação EUA-Europol de Aplicação da Lei para o Combate ao Hezbollah”, realizado na sede da Interpol em Lyon, França. Agora, enquanto Washington cobre os custos de sua viagem a Assunção, a Procuradoria-Geral da República (PGR) confirma que membros de Ministérios Públicos e polícias brasileiras, assim como procuradores de outras nações latino-americanas, também foram convidados para o evento.

Dentro da estratégia de “contraterrorismo” promovida pelos EUA, os alvos incluem desde o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (CGRI), especialmente sua Força Quds, até as organizações resistenciais apoiadas por Teerã no Oriente Médio e na diáspora. Essas organizações incluem o Hezbollah no Líbano, o Hamas na Palestina e outras forças populares no Iémen e Iraque. Washington se refere a esses grupos utilizando termos como “proxies iranianos” e “redes proxies”, linguagem que já foi adotada por governos aliados na região. Em 2026, por exemplo, Argentina e Paraguai classificaram formalmente várias dessas entidades como “terroristas”, incluindo a Força Quds e o CGRI na lista argentina.

O workshop que Gualtieri participará em Assunção está vinculado ao programa OPDAT (Escritório de Desenvolvimento, Assistência e Treinamento de Ministérios Públicos no Exterior), mantido pelo Departamento de Justiça dos EUA. Este programa busca recrutar um “Assessor Jurídico Residente” para fortalecer investigações relacionadas a casos de terrorismo e financiamento do terrorismo, especificamente aqueles associados aos chamados “proxies iranianos”. Para essa função é exigida habilitação de segurança “Top Secret” e prevê viagens extensivas pelo Paraguai e América do Sul.

EUA treina aparato de “contraterrorismo” na América do Sul

Entre os dias 2 e 6 de março de 2026, o Programa Internacional de Assistência e Treinamento em Investigação Criminal (ICITAP), associado ao Departamento de Justiça dos EUA, realizou em Lima, Peru, o segundo módulo do programa denominado “Investigações Contraterroristas e Atores Híbridos”. O objetivo declarado dessa iniciativa era aprimorar as capacidades dos países parceiros para identificar, monitorar, prender e processar terroristas proxies e células. O evento reuniu investigadores, analistas jurídicos, promotores e juízes provenientes do Peru, Argentina e Paraguai.

Esse programa teve início em novembro de 2025 no Peru e chegou à Argentina em fevereiro deste ano com sessões focadas em temas como “operações terroristas globais”, “ideologias radicais” além de técnicas investigativas. De 25 a 29 de maio, o ICITAP organizou outro encontro em Lima com 26 participantes das áreas jurídica e policial peruanas para um curso sobre perícia digital voltado à investigação de casos complexos relacionados ao contraterrorismo ligado ao Irã. O treinamento abrangeu tópicos como arquitetura de dispositivos eletrônicos, aquisição de dados, criptografia e forense digital aplicada a dispositivos móveis (Android e iOS).

O Departamento de Justiça dos EUA também revelou abertamente as metas do seu programa Countering Proxy Networks, ou “Combate a Redes Proxies”, que é executado em colaboração com a Embaixada dos EUA em Lima. A intenção é fortalecer as capacidades dos países aliados para desmantelar essas redes visando proteger cidadãos americanos no exterior enquanto busca alcançar objetivos mais amplos relacionados à segurança nacional dos EUA. Isso visa garantir uma maior estabilidade regional no Hemisfério Ocidental – uma estratégia voltada para neutralizar forças vistas como ameaças à dominância semicolonial americana sobre as nações latino-americanas.

“Contraterrorismo” mira também comunistas e anti-imperialistas

No dia 16 de julho passado, Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, promoveu uma reunião em Washington com representantes diversos governos juntamente com integrantes do FBI e do Departamento do Tesouro para discutir uma expansão internacional da repressão ao chamado “terrorismo político de extrema esquerda”, subcategoria sob a qual organizações comunistas e anti-imperialistas passaram a ser enquadradas pelo governo Trump.

A intensificação dessa política contrarrevolucionária surge num contexto onde o próprio imperialismo reconhece um aumento significativo da atividade coordenada por parte daqueles que considera seus inimigos em nível global. Desde os eventos conhecidos como Dilúvio de Al-Aqsa ocorridos em 7 de outubro de 2023 até ações mais recentes envolvendo a Resistência Nacional Iraniana contra agressões ianque-sionistas iniciadas em fevereiro deste ano. Essa convergência entre lutas por libertação nacional e movimentos proletários globais tem levado o imperialismo norte-americano a ampliar preventivamente suas ferramentas policiais sob o pretexto do “contraterrorismo”.

Solidariedade à Resistência Iraniana cresce no Brasil

Enquanto membros do antigo Estado brasileiro são incorporados nessa estrutura voltada ao “contraterrorismo”, um aumento significativo da solidariedade à Resistência Nacional Iraniana tem sido observado no Brasil. Esse apoio é semelhante ao robusto movimento solidário à Heroica Resistência Nacional Palestina. Nos últimos meses, diversas organizações – incluindo a Liga Anti-imperialista Internacional (LAI) e a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) – realizaram atos públicos reclamando apoio ao Irã bem como às forças que se opõem ao imperialismo.

Em 9 junho último ocorreu um ato anti-imperialista promovido pela Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia (ExNEPe) em Recife (PE), reunindo cerca de 200 pessoas. O evento contou com a participação do adido cultural da Embaixada iraniana no Brasil Ali Reza Mirjalili assim como membros da LAI e LCP. Sob gritos como “Yankees não são bem-vindos!”, “Sionistas não passarão!” e “Morte ao imperialismo!”, os manifestantes prestaram homenagens aos líderes da Resistência Palestina bem como iraniana.

A solidariedade à causa iraniana também ficou evidente no movimento estudantil independente durante eventos realizados nos dias 13 e 14 deste mês durante o Pré-ENEPe em Brasília (DF), na Universidade Federal local; representantes iranianos estiveram presentes nas atividades junto com integrantes da LAI, Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação (MOCLATE) entre outros grupos. Dias depois ocorreu o 43º Encontro Nacional dos Estudantes de Pedagogia (ENEPe) na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), onde cerca mil participantes se reuniram; sua manifestação principal contou com mais de quinhentas pessoas levantando um estandarte com a imagem do líder iraniano Ali Khamenei enquanto expressavam apoio ao Irã e à Palestina.

A conexão entre essas lutas ficou ainda mais evidente durante um ato realizado em Recife no dia 19 junho passado; uma delegação da LCP uniu-se a um representante iraniano vinculando as lutas contra agressões imperialistas no Oriente Médio à Revolução Agrária brasileira. O representante iraniano ressaltou que “um país que não defende seu campesinato está fadado à perda”. Por sua vez a LCP contextualizou sua luta pela terra mencionando os camponeses pobres caracterizando-os como “os palestinos brasileiros”, enfatizando que o internacionalismo proletário deve se manifestar não apenas através do apoio aos povos lutadores fora das fronteiras nacionais mas também enfrentando diretamente o imperialismo dentro do próprio país através da luta pela terra junto com reivindicações políticas por poder popular numa Nova Democracia.

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