Na comunidade de Rigores, localizada no Bajo Aguan, no departamento de Colón, norte de Honduras, um grupo paramilitar vinculado ao latifúndio assassinou 20 camponeses em um ataque brutal ocorrido no dia 21 de maio. Os agressores utilizaram fuzis e espingardas para atacar dezessete homens e três mulheres, com o intuito de sufocar a resistência local dos trabalhadores rurais, garantir a exploração monopolista das plantações de palma africana e desalojar as famílias que ocupavam a região. O massacre gerou uma onda de indignação em todo o país, levando a denúncias contundentes de organizações populares e à mobilização imediata de equipes forenses devido à recorrente e violenta crise da política agrária tradicional do Estado.
O ministro da Segurança, Gerzon Velásquez, descreveu o cenário encontrado na propriedade rural como uma cena horrenda, com corpos dispersos pela terra cultivada. Em entrevista à emissora local HCH, o porta-voz do Ministério Público, Yuri Mora, deu detalhes sobre o andamento das identificações das vítimas: “Duas equipes estão atuando em dois locais diferentes. A primeira já reconheceu 13 mortos e a segunda contabilizou mais seis”. Devido à desconfiança histórica em relação aos órgãos judiciais, familiares e membros da comunidade optaram por recolher partes dos corpos antes da chegada total das equipes periciais.
Os funerais coletivos realizados na manhã do dia seguinte revelaram a profunda dor da população. No cemitério de Rigores, os corpos de 17 homens e 3 mulheres foram sepultados sob a angústia dos parentes. Entre os mortos estavam três irmãs enterradas na mesma cova e os irmãos Elmer e Wilmer Suchite, que tinham 25 e 22 anos respectivamente. Testemunhas relataram que o pai e outro irmão das jovens assassinadas conseguiram escapar durante o ataque.
A violência na região do Aguán não é um fenômeno isolado; ela reflete dados alarmantes levantados pelo Ministério da Segurança e analisados pelo jornal El Heraldo Plus. Entre 2014 e abril de 2026, pelo menos 446 pessoas perderam a vida em conflitos fundiários. Esses episódios fatais se espalham por 124 dos 299 municípios do país, fazendo da disputa por terras a nona principal causa de homicídios registrados em Honduras.
Os camponeses da região dedicam suas vidas à colheita manual dos frutos da palma africana e ao cultivo de alimentos básicos como milho, feijão e mandioca. A posse legítima dessas terras férteis se tornou um alvo constante para os latifundiários que cercam suas extensas propriedades com robustos esquemas de segurança privada armada. Os trabalhadores rurais afirmam ter direitos históricos sobre essas áreas, sendo descendentes diretos dos proprietários originais das décadas de 70 e 80, cujas terras foram usurpadas por grileiros.
A organização camponesa La Vía Campesina Honduras manifestou sua posição sobre o caso, denunciando a cumplicidade estrutural do governo na perpetuação da extrema vulnerabilidade enfrentada pelas famílias rurais. Eles ressaltaram que as vidas ceifadas pertenciam a jovens agricultores filhos de integrantes ativos do Movimento Camponês de Rigores. Em nota oficial, a Via Campesina exigiu investigações independentes sobre o massacre, prisão imediata dos mandantes intelectuais ligados ao latifúndio, proteção efetiva para os sobreviventes e suspensão imediata das legislações punitivas contra líderes indígenas e camponeses que lutam pelo direito à terra.
A falência da ‘reforma agrária’ e a conivência do Estado tradicional
A nota emitida expressa a revolta crescente entre as massas ao afirmar que a concentração fundiária promovida pelos latifundiários agroexportadores é uma das principais causas da violência no campo: “A luta pela terra é legítima. Defender a vida não é crime. Enquanto o agronegócio continuar sendo mais valorizado que o campesinato, permaneceremos firmes e organizados. Justiça para as vítimas de Rigores! A terra pertence a quem nela trabalha! A luta camponesa não cessa!”.
A ofensiva contra os trabalhadores rurais foi contextualizada pelas organizações participantes da Aliança Camponesa, Indígena e Popular durante as celebrações do Dia Internacional das Lutas Camponesas em 17 de abril. Em comunicado oficial, traçaram paralelos com movimentos camponeses em outros países semicoloniais, destacando especialmente as lutas por terra no Brasil para enfatizar que as contradições sociais no campo hondurenho se mantêm intensas. Segundo o documento divulgado, Honduras atravessa um processo acelerado de concentração de poder liderado por um bloco reacionário formado pelo Partido Nacional em aliança com o Partido Liberal e frações aliadas menores sob influência direta do governo dos Estados Unidos.
Além disso, os camponeses apontaram que as elites agrárias utilizam parlamentares como instrumentos para perseguir líderes comunitários. A Aliança denunciou veementemente a utilização sistemática de grupos armados criminosos pelos latifundiários para infiltrarem-se nas comunidades rurais com o objetivo de coagir ou atacar fisicamente acampamentos camponeses. Acrescenta-se ainda à situação adversa a imposição da Lei de Reativação e Reabilitação do Setor Agrícola, que visa transformar conflitos agrários em meras questões técnicas-jurídicas ocultando expropriações violentas.
Dentre as principais reivindicações apresentadas pela Aliança Popular estão a suspensão imediata dos despejos forçados, revogação da judicialização envolvendo camponeses e indígenas além do repúdio ao retorno do país ao Centro Internacional para Arbitragem de Disputas sobre Investimentos — uma entidade que protege interesses capitalistas estrangeiros. O campesinato exige também uma distribuição justa das terras acompanhada por assistência técnica adequada; reversão das terras sob gestão do Escritório de Administração de Bens Apreendidos para uso social; além do veto absoluto às Zonas de Emprego e Desenvolvimento Econômico que comprometem a soberania territorial em favor das corporações internacionais.
A reforma agrária iniciada timidamente nos anos 70 sob o regime militar liderado pelo general Osvaldo López Arellano é vista pelas comunidades locais como um fracasso retumbante na história do país. A entrega formal dos títulos foi frustrada tanto pela ditadura militar quanto pelos governos “civis” subsequentes durante a chamada era democrática. Recentemente, sob gestão da ex-presidente Xiomara Castro foi criada uma comissão para tratar ostensivamente do histórico conflito agrário na região do Bajo Aguán, mas seu mandato terminou sem qualquer medida concreta voltada à redistribuição fundiária.
O governo utiliza a mídia burguesa
À luz dos interesses dos latifundiários e da mídia burguesa local, as ações legítimas dos camponeses são rotuladas como “invasões” malignas associadas ao crime organizado. O presidente do Congresso Nacional Tomás Zambrano impulsionou essa narrativa ao anunciar uma intervenção emergencial contra essas ocupações camponesas sob o pretexto de proteger tanto a estabilidade econômica quanto a segurança jurídica dos latifúndios agroexportadores.
O porta-voz dessa burocracia legislativa manifestou abertamente o descontentamento das elites diante da resistência rural ao afirmar nas dependências legislativas que “esse tipo de invasão aumentou nas áreas produtivas em várias partes do país devido à falta de políticas públicas eficazes, especialmente no governo anterior”. Ele também mencionou processos judiciais já movidos junto ao Ministério Público contra certas ocupações sem que houvesse cumprimento efetivo dessas ordens.
Para atender às reivindicações empresariais concentradas no Conselho Hondurenho de Empresas Privadas — que alegam ocupações ilegais em mais de sessenta mil acres cultivados — foi criada uma comissão técnica especial liderada pelo deputado Marcos Paz. Este comitê trabalhará em colaboração com as forças policiais nacionais para acelerar despejos forçados contra camponeses indígenas enquanto promove um projeto legislativo elaborado por Erick Alvarado destinado a endurecer penas criminais expandindo conceitos legais permitindo ação policial sem trâmites legais apropriados.
No Bajo Aguán, o velho Estado implementou uma estratégia repressiva combinando operações militares com um suposto “censo agropecuário”. Juntamente com essa abordagem governamental estão declarações feitas pelo comissário Carlos Rojas afirmando que as terras foram invadidas por atividades criminosas; assim busca-se justificar ideologicamente considerar organizações camponesas como grupos terroristas devido às suas ações pela reocupaçãode terras esquecendo completamente das raízes históricas desses conflitos.
A miséria profunda em Honduras
A violência letal observada em Colón está diretamente ligada à exploração econômica crônica presente em toda Honduras. Embora relatórios oficiais busquem transmitir uma imagem otimista sobre progresso social — alegando redução na taxa nacional de pobreza — dados apresentados pelo próprio Conselho Empresarial revelam que mais da metade (62%) da população ainda vive abaixo da linha da pobreza sem acesso aos serviços básicos necessários.
O advogado trabalhista German Edgardo Leitzelar Hernandez criticou duramente as falhas metodológicas nos relatórios sobre emprego apresentados pelo Instituto Nacional de Estatística afirmando que “não há evidências concretas indicando melhoria real no emprego quando muitos considerados empregados não recebem sequer salário mínimo ou têm direitos trabalhistas garantidos conforme prevê a legislação hondurenha”. Ele destacou ainda o colapso dos sistemas previdenciários devido à retenção ilegal das contribuições pelos empregadores.
José Luis Baquedano das Centrais Sindicais dos Trabalhadores também manifestou sua crítica ao governo afirmando: “Respeito esses dirigentes mas desejo ressaltar que eles podem fazer parecer qualquer coisa boa na teoria; contudo a realidade é bem diferente. Que eles visitem os campos ou comunidades para ver pessoalmente quantas pessoas mendigam nas ruas ou garimpam lixo porque não há oportunidades dignas.”
A deterioração contínua nas condições sociais é acentuada pela inflação incontrolável afetando profundamente os salários dos hondurenhos comuns. Em meados de maio registrou-se novo aumento nos preços combustíveis mantendo-se uma tendência crescente contínua há 17 semanas consecutivas. O diretor do Instituto de Pesquisa Econômica e Social Sergio Zepeda indicou um aumento na inflação passando de 3,94% para 5,56% apenas em abril; ele observou ainda que práticas especulativas contribuem significativamente para esse impacto negativo junto aos desafios impostos pelas tensões internacionais como os conflitos entre EUA e Irã.
