Estudantes da Unicamp invadem prédio da reitoria em protesto por permanência acadêmica

Na última segunda-feira, 8 de junho, alunos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) tomaram a sede da Diretoria Geral Administrativa (DGA), responsável pelas finanças da reitoria, após decisão tomada em Assembleia Geral. Esta ação ocorre no contexto de uma greve que começou em 18 de maio e envolve estudantes, servidores técnico-administrativos e professores, simbolizando um novo capítulo na luta por demandas que ainda não foram atendidas pela Reitoria. A ocupação foi precedida por diversas mobilizações estudantis que abordaram questões como financiamento universitário, permanência de alunos, infraestrutura inadequada em alguns cursos e condições dignas para ensino e trabalho na instituição.

No primeiro encontro de negociações com a administração universitária, realizado em 27 de maio, os estudantes enfrentaram a indiferença da reitoria, que utilizou inteligência artificial para resumir as reivindicações apresentadas pelos alunos. Na segunda rodada de negociações, apenas 20% das reivindicações foram consideradas, focando na formação de grupos de trabalho (GTs) com o objetivo aparente de diminuir a mobilização, enquanto assuntos cruciais permanecem esquecidos. Dessa forma, a reitoria tenta encerrar as discussões sem atender às promessas previamente acordadas durante as negociações.

Motivos e demandas

Os funcionários da universidade, organizados pelo Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU), iniciaram a greve em 11 de maio com o objetivo de melhorar as condições laborais e combater o congelamento salarial. Os estudantes e docentes se uniram à causa nas semanas seguintes, promovendo assembleias e paralisações em várias unidades acadêmicas.

Dentre as principais reivindicações formuladas pelos alunos estão: a contratação de novos professores, a alocação de servidores nos campi de Limeira, a conclusão do prédio do Instituto de Artes (IA), que está inacabado há mais de quatro décadas, a resistência à autarquização do complexo da saúde e o aumento das políticas voltadas para a permanência estudantil. Além disso, é evidente a má distribuição orçamentária: os campi de Limeira atendem 20% dos estudantes mas recebem apenas 5% do orçamento total.

A ameaça à autonomia do Hospital de Clínicas pela autarquização

A proposta de autarquização do complexo hospitalar é um dos pontos debatidos na atual mobilização. Esse modelo administrativo compromete a autonomia universitária ao facilitar processos de terceirização e precarização das relações trabalhistas. Organizações sindicais e estudantis alertam que essa separação orçamentária e administrativa pode desintegrar atividades fundamentais como ensino, pesquisa e extensão, além de afastar o atendimento assistencial do contexto acadêmico e prejudicar o caráter público e gratuito do hospital.

A ocupação como estratégia

Para os alunos, ocupar a DGA representa uma nova estratégia para exigir que as negociações sejam retomadas e para assegurar que os compromissos discutidos sejam verdadeiramente cumpridos. Eles destacam que muitas solicitações ainda não obtiveram respostas satisfatórias e que encerrar as negociações neste momento significaria abandonar pautas construídas coletivamente ao longo da greve.

No dia 10 de junho, a Associação dos Pós-Graduandos da Faculdade de Educação da Unicamp (APG) manifestou apoio à ocupação na DGA através de uma moção. A APG afirmou que “a radicalidade é uma ferramenta necessária diante do impasse nas negociações” e denunciou repressão policial às mobilizações: “Isso é uma tentativa de silenciar aqueles que lutam por dignidade e direitos para todos. Portanto, não podemos recuar!”.

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Em conversa com oAND, uma estudante do curso de Letras presente no movimento declarou que “estudantes de diversos departamentos estão aqui reunidos. Além das demandas gerais existem também pedidos específicos a cada instituto que são apoiados coletivamente por todos os grevistas. Por exemplo, o Instituto de Física carece de materiais para suas pesquisas laboratoriais enquanto a Faculdade de Educação Física enfrenta falta desses materiais para aulas práticas.” Ela acrescenta ainda sobre um caso grave ocorrido no ano passado com uma colaboradora do bandejão universitário.”

Através da ocupação do DGA, os estudantes entraram em uma nova fase na mobilização social. Reconhecem que nunca houve espaço real para diálogo com a reitoria e se comprometem a manter-se organizados até obterem avanços concretos nas discussões atuais convocando docentes e demais estudantes para fortalecer o movimento coletivo. Até agora, a greve continua ativa sem previsão para um desfecho nas negociações.

Nesta mesma noite em que ocorreu a ocupação na Unicamp, estudantes da Universidade Estadual Paulista (USP) também tomaram os blocos K e L da Administração Central no Campus Butantã em São Paulo resistindo à repressão tanto da Guarda Universitária quanto da Polícia Militar (PM). Essas lutas estão se intensificando devido à atuação do movimento estudantil independente e combativo contribuindo para um cenário nacional marcado por greves e ocupações semelhantes por todo o Brasil.A repressão já havia sido vista anteriormente em ações policiais contra estudantes durante ocupações na reitoria da USP no dia12de maio.