
Franz Kafka (1883-1924) deixou um legado literário impactante, e um de seus últimos anseios foi que suas histórias curtas fossem publicadas antes de solicitar que seus manuscritos fossem incinerados após sua morte. Entre esses contos estão Um Artista da Fome, Primeira Dor e Josefina, a Cantora ou O Povo dos Ratos. Agora, essas narrativas estão sendo apresentadas de forma conjunta no espetáculo Subversão Kafka, sob a direção de Caio Blat, que também atua ao lado de Pedro Henrique Müller.
A nova montagem, que conta com uma trilha sonora ao vivo, estreará na próxima sexta-feira (14) no Teatro Prio, no Rio de Janeiro. A peça explora a condição do artista na sociedade contemporânea através das histórias de um faquir, um trapezista e uma cantora desprovida de talento vocal. Em entrevista à VEJA RIO, Caio discute a visão futurista presente nas obras de Kafka e reflete sobre como a internet e as redes sociais influenciam o trabalho artístico.
Com 46 anos e natural de São Paulo, Caio Blat ganhou destaque ao atuar em Éramos Seis, uma novela da SBT. Ele também participou de grandes sucessos da TV Globo como Império e Caminho das Índias, além de ter dirigido a série Beleza Fatal, da HBO. Prestes a interpretar um bispo evangélico no filme Justino, que será lançado na próxima semana durante o Festival de Gramado, ele fala sobre os riscos da intersecção entre religião e política e compartilha detalhes sobre seu relacionamento com a produtora Fabiana Comparato.
Como esses contos se conectam com os dias atuais? Especialistas sugerem que Kafka tinha um olhar premonitório. No conto Um Artista da Fome, o faquir só jejuava por quarenta dias em cada local, pois o interesse das pessoas se esvaía após esse período. Atualmente, captar a atenção do público é uma tarefa desafiadora; o artista deve estar constantemente em evidência para não cair no esquecimento. Já em Primeira Dor, o trapezista busca um ideal inatingível e recusa-se a interromper seu ato para comer ou dormir, semelhante ao estado atual de ansiedade diagnosticada contemporaneamente — uma condição que já existia mesmo sem nomenclatura na época de Kafka.
Qual é o preço emocional para quem escolhe essa carreira?A figura do artista reflete os desafios enfrentados pela sociedade. As três narrativas foram unidas em um circo onde nos tornamos palhaços — personagens que devem provocar risadas mesmo nos dias difíceis. Pessoalmente, já passei por crises de ansiedade durante filmagens intensas, gravando até 12 horas diárias enquanto buscava apoio terapêutico nos intervalos.
A influência das redes sociais nesse contexto?A realidade atual é marcada pela superexposição; todos têm acesso a câmeras e transformam suas vidas em espetáculo. A linguagem utilizada nas novelas parece ter envelhecido rapidamente. Estamos enfrentando novos desafios na comunicação buscando por atenção constante. Quando o jejuador deixa sua jaula, convidamos o público ao palco para compartilhar esse momento vulnerável — é uma representação do horror sendo transformada em espetáculo por muitos em busca de engajamento.
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A personagem Josefina pode ser vista como uma metáfora para influenciadores atuais? O autor argentino César Aira sugere que Kafka antecipou conceitos da arte moderna com sua ratinha que não canta, mas atrai multidões curiosas. Alguém sem habilidade artística consegue reunir milhões de seguidores simplesmente por se declarar um fenômeno — e muitos acreditam nisso. Contudo, evito julgamentos; nas décadas passadas as gravadoras e emissoras controlavam nosso consumo cultural. Hoje qualquer pessoa pode usar seu celular para mostrar sua arte ou criar uma persona virtual. O público busca validação para suas emoções e acaba se isolando em bolhas sociais.
Beleza Fatal incorpora elementos do universo digital. Você acredita que isso pode renovar as novelas?A produção demonstrou que os folhetins podem ter uma narrativa mais dinâmica: foram apenas quarenta episódios repletos de acontecimentos e ousadia ao integrar a linguagem digital à história. A personagem Lola, interpretada por Camila Pitanga, exemplificava isso ao expor sua vida pessoal enquanto se tornava obcecada pela própria imagem.
No contexto da “uberização” da profissão artística, quais medidas seriam necessárias para garantir os direitos dos profissionais?A maneira como consumimos conteúdo audiovisual transformou-se drasticamente; portanto, as compensações financeiras devem evoluir junto com essa tecnologia. A legislação atual foi criada para produções exibidas apenas uma vez; agora elas permanecem acessíveis indefinidamente. Recebo mensagens frequentes sobre como Beleza Fatal voltou à tona durante as férias. É essencial regularizar os direitos autorais para assegurar pagamentos aos atores sempre que suas obras forem exibidas novamente.
No filme Justino, você vive um bispo evangélico. O longa aborda a fé como ferramenta de poder?A obra revela como instituições religiosas que promovem moralidade podem esconder práticas obscuras: desde o destino das doações até questões éticas relacionadas aos líderes religiosos e sua influência sobre fiéis. Também toca em fenômenos contemporâneos como a fusão entre religião, política e mídia.
Acredita que os artistas precisarão se mobilizar neste período eleitoral?Nossa posição está bem definida: muitos defendemos a democracia e buscamos reconhecimento da cultura como um direito fundamental. Em tempos eleitorais, o aumento da polarização prejudica discussões relevantes e abre espaço para desinformação — uma estratégia comum entre grupos extremistas; assim busco compartilhar informações concretas. Produzi um vídeo baseado em pesquisa da FGV mostrando como a Lei Rouanet impulsiona nossa economia; mesmo assim muitos insistem em afirmar que artistas recebem “milhões”.
Criar dois filhos homens hoje envolve enfrentar discursos machistas amplificados na internet? Como você lida com isso?Bento cresceu cercado por discussões sobre machismo, feminismo, assédio e respeito — temas pouco abordados quando eu era criança. Contudo, também observamos reações conservadoras provenientes daqueles que temem perder privilégios estabelecidos. Embora ainda enfrentemos altos índices de violência contra mulheres no Brasil, tenho esperança de estarmos avançando rumo à construção de uma sociedade mais justa.
Sua vida amorosa sempre foi exposta ao público; foi intencional manter seu relacionamento com Fabiana Comparato mais reservado?A Fabiana é produtora e escritora muito discreta; portanto optamos por seguir uma trajetória mais tranquila naturalmente — isso não foi algo planejado previamente. Frequentamos os mesmos lugares mas preferimos teatros e museus à luz dos holofotes (risos).
