‘Quando você para a fábrica, o lucro diminui’: pesquisador analisa luta dos trabalhadores diante da IA

Durante 148 dias, mais de 10 mil roteiristas cruzaram os braços em Hollywood, no país Estados Unidos (EUA), e interromperam parte da produção de grandes estúdios e plataformas. Ao retornar ao trabalho, haviam imposto regras que restringiam o uso da Inteligência Artificial (IA) na elaboração de roteiros. “Quando você para a fábrica, o lucro diminui”, resumiu ao AND o sociólogo André Campos Rocha, que estudou a paralisação.

Para Rocha, o episódio mostra que o emprego da IA não é decidido apenas pelas possibilidades técnicas dos sistemas. Sob o comando das empresas, afirmou, prevalece a tentativa de substituir trabalhadores, cortar custos da força de trabalho e ampliar o controle sobre a produção; quando os trabalhadores dispõem de organização e força para interromper o processo produtivo, podem impor limites concretos. “Isso depende de luta política, como a tecnologia vai sendo orientada”, afirmou.

André Campos Rocha é doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), membro da Labor Tech Research Network (Rede de Pesquisa sobre Trabalho e Tecnologia) e do DigiLabour. Seus estudos concentram-se em Sociologia do Trabalho, trabalho digital e transformações tecnológicas no processo de trabalho.

Assista à íntegra no YouTube:

148 dias de greve e limites concretos à IA

A greve dos roteiristas de Hollywood, em 2023, colocou a IA entre os pontos centrais de uma paralisação que também envolvia salários, estabilidade e pagamentos relacionados à transmissão por plataformas. O acordo conquistado pelos trabalhadores impede os estúdios de obrigá-los a empregar IA, estabelece que material gerado artificialmente não pode ser utilizado para retirar créditos e direitos dos autores e determina que as empresas informem quando entregarem a um roteirista conteúdo produzido por esses sistemas.

Rocha atribui o resultado a dois elementos combinados: a longa tradição de organização sindical em Hollywood e a posição dos roteiristas numa cadeia produtiva que depende do seu trabalho. A greve paralisou produções e provocou perdas bilionárias em setores ligados à indústria cinematográfica. “De certa forma, eles são os luditas do século XXI”, afirmou. “Quando houve a greve, toda a cadeia de produção cinematográfica que passa por Hollywood foi parada.”

A tecnologia permaneceu à disposição dos estúdios; o que mudou foram as condições para empregá-la. “A lição que a gente tira […] é poder do trabalho, contrapoderes do trabalho, que são fundamentais para que os trabalhadores tenham o poder de barganha para delimitar os usos da inteligência artificial no local de trabalho”, afirmou Rocha.

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‘Uma das grandes lutas entre capital e trabalho é justamente pelo tempo’

Rocha remeteu à Revolução Industrial para lembrar que a introdução de máquinas, sob o comando do capital, submeteu grandes contingentes de trabalhadores a jornadas extenuantes, intensificação do trabalho e perda de controle sobre o processo produtivo. Foi a organização operária, observou, que arrancou posteriormente limites à jornada e outras conquistas.

“Uma das grandes lutas entre capital e trabalho é justamente pelo tempo”, afirmou, em referência a Marx. A elevação da produtividade cria condições materiais para produzir mais em menos tempo; sob as relações capitalistas, porém, o tempo economizado pela técnica não retorna automaticamente ao trabalhador como redução da jornada. O capital procura convertê-lo em redução de custos, aumento da intensidade do trabalho e ampliação do lucro.

Por isso, Rocha rejeita a ideia de que a automação determine sozinha o destino dos trabalhadores. “O que a gente vê nos tempos de hoje é uma orientação tecnológica muito favorável ao capital”, disse, marcada pela “substituição do trabalhador e precarização do trabalhador”. Quando os trabalhadores se organizam e mobilizam, podem obrigar o capital a ceder parte dos ganhos de produtividade na forma de menor jornada, salários e garantias; sem alterar a propriedade dos meios de produção, entretanto, essas conquistas permanecem submetidas à correlação de forças de cada momento.

A mesma tecnologia que aumenta a produtividade também amplia a capacidade patronal de vigiar e disciplinar a força de trabalho. Rocha citou os aplicativos de transporte, cujos sistemas acompanham localização, avaliações, tempo de atividade e períodos de inatividade dos motoristas. “Processo de trabalho e vigilância […] estão intimamente associados”, afirmou.

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Código aberto não muda quem possui a máquina

A abertura dos códigos, afirmou Rocha, não altera por si só a propriedade da tecnologia. “O código em si não é a questão de democratização.” Para ele, é preciso perguntar “qual é a infraestrutura, qual o regime de propriedade em que esse sistema está sendo desenvolvido”.

O pesquisador citou a indústria de jogos: Counter-Strike começou como uma modificação de Half-Life criada por jogadores e depois foi incorporado pela Valve. Permitir que usuários modifiquem um programa, portanto, não impede que o resultado dessa criação seja apropriado e monetizado por uma empresa.

Com a IA, a distância entre produção social e apropriação privada alcança escala muito maior. “Esses algoritmos de IA, na verdade, são resultado do trabalho de todo mundo”, afirmou Rocha. Textos, imagens, códigos, gravações e outras produções acumuladas na internet alimentam modelos vendidos depois como propriedade dos monopólios tecnológicos. “As empresas se apropriam do conhecimento coletivo.”

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A abertura de parte do código tampouco elimina o monopólio da infraestrutura necessária para treinar e operar os modelos mais avançados: processadores, centros de dados, energia, redes e enormes massas de capital. É essa base material que permite a poucos monopólios transformar conhecimento produzido socialmente em propriedade privada e fonte de lucro.

A corrida já mobiliza somas gigantescas mesmo sem o salto de produtividade prometido pelas empresas. Rocha afirmou que os estudos macroeconômicos que acompanha ainda não mostram ganhos compatíveis com a propaganda em torno da IA. “Essas empresas jogam com o imaginário, porque esses imaginários são o que sustentam […] as ações dessas empresas. Elas prometem.” Amazon, Alphabet, Meta e Microsoft projetaram, em conjunto, cerca de 725 bilhões de dólares em investimentos de capital em 2026, grande parte destinada à infraestrutura de IA.

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Pesquisa e recursos brasileiros podem subsidiar monopólios ianques

No Brasil, dados, pesquisa pública, energia e outros recursos necessários à IA podem alimentar uma infraestrutura controlada por monopólios estrangeiros. “Todos os nossos dados, nossas informações, acabam sendo capturados por empresas estrangeiras que têm seus próprios interesses”, afirmou Rocha, ao citar a articulação entre os grandes monopólios tecnológicos e o governo do EUA.

O País dispõe de universidades, institutos de pesquisa, trabalhadores qualificados, energia e recursos materiais cobiçados para a expansão dos centros de dados. Rocha considera importante ampliar a infraestrutura científica nacional, mas advertiu: “A gente tem que assegurar que a coisa não seja capturada”.

Rocha advertiu também que recursos públicos destinados ao desenvolvimento tecnológico podem reforçar justamente os monopólios que controlam a infraestrutura. “As empresas têm muito poder, elas têm muito lobby, elas têm muito dinheiro”, afirmou. É preciso impedir, disse, que “os nossos gastos públicos com o desenvolvimento nacional […] só subsidiem essas big techs norte-americanas: Google, Amazon, Microsoft”.

A atração de centros de dados ou o financiamento estatal, por si sós, não resolvem a questão da soberania. Se processadores, nuvens, modelos, propriedade intelectual e os segmentos mais lucrativos da cadeia continuam sob o controle dos monopólios imperialistas, recursos naturais, energia, pesquisa e trabalho produzidos no Brasil entram numa estrutura cujo comando permanece fora do País. A monopolização da infraestrutura digital converte-se, assim, em mais um instrumento de subordinação das nações oprimidas e de disputa entre as potências imperialistas.

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140 organizações em mais de 30 países enfrentam o uso da IA

A experiência de Hollywood não permaneceu isolada. Depois da greve, Rocha e outros pesquisadores passaram a acompanhar mobilizações de trabalhadores da cultura que procuram limitar a substituição de trabalho humano, a apropriação de obras e a reprodução não autorizada de imagens e vozes. O levantamento citado por ele já identificou mais de 140 sindicatos, associações e movimentos em mais de 30 países envolvidos em alguma forma de luta ou negociação sobre IA.

No Brasil, os dubladores estão entre os que se organizaram diante da possibilidade de suas vozes serem incorporadas a modelos e reutilizadas sem novo trabalho. Como não dispõem da mesma força sindical nem da posição ocupada pelos roteiristas de Hollywood, vêm construindo outras formas de associação, entre elas o movimento Dublagem Viva.

“Os movimentos estão acontecendo, a luta está sendo travada”, afirmou Rocha. Para ele, a organização coletiva é indispensável para que os trabalhadores intervenham no modo como a tecnologia é empregada.

Hollywood mostrou que a greve pode arrancar limites reais aos monopólios; também mostrou o limite dessas conquistas enquanto a infraestrutura, o conhecimento social e os meios de produção permanecem sob propriedade privada. Colocar o desenvolvimento técnico a serviço da redução da jornada, da libertação do trabalho penoso e das necessidades das massas exige ultrapassar a luta por regras de uso e transformar as relações sociais que submetem as forças produtivas ao lucro máximo. A disputa pelo uso da IA integra, nesse sentido, a luta mais ampla do proletariado e dos povos oprimidos para pôr fim ao domínio do capital e do sistema imperialista.

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