Forças do Exército de Libertação Popular Saaraui (ELPS) realizaram ataques a posições fortificadas e bases do exército marroquino no setor de Amgala, localizado entre Tifariti e Smara, em 31 de julho. Os ataques ocorreram fora do muro marroquino e na área sob controle da Frente Popular para a Libertação de Saguia El-Hamra e Rio de Oro (Polisário), resultando em danos significativos às tropas ocupantes. O Ministério da Defesa Nacional informou que os combatentes bombardearam as bases marroquinas nas regiões de Amgli Ghaliya e Amgli Dchera, evidenciando uma capacidade militar robusta e um compromisso contínuo na luta contra a ocupação.
As operações do ELPS em prol da independência da República Árabe Saaraui Democrática (RASD) não se limitam ao setor de Amgala. Em 24 de julho, segundo informações da Sahara Press Service, vinculada à Frente Polisário, o ELPS atacou uma base marroquina no setor de Oum Dreiga, uma comunidade rural na província de Oued Ed-Dahab, na região de Dakhla-Oued Ed-Dahab, causando baixas ao exército ocupante.
Além disso, na mesma região, no dia 21 de julho, como parte de sua estratégia de desgaste contra a ocupação marroquina, o ELPS lançou uma série de bombardeios direcionados a posições e fortificações do exército marroquino nos setores de Auserd e Mahbes, provocando perdas tanto em pessoal como em equipamentos.
A luta pela libertação nacional do Saara Ocidental contra o domínio marroquino já dura aproximadamente 51 anos. Desde o final de 1975, quando o Reino de Marrocos iniciou a ocupação do território após a retirada espanhola, a resistência tem sido liderada pela Frente Polisário. No entanto, novos grupos estrangeiros têm tentado usurpar o lugar do movimento legítimo e promover posturas favoráveis a Marrocos.
Em junho, Mike Waltz, embaixador dos Estados Unidos na ONU, compartilhou uma foto com representantes do Movimento Saharauis pela Paz (MSP), uma organização criada em 2020 por ex-integrantes do Polisário e chefiada por Hach Ahmed Baricalla. Durante o encontro, Waltz expressou que foi “ótimo” conhecer o grupo, descrevendo seus membros como “vozes saarauís que promovem paz, diálogo e soluções duradouras”, enfatizando que “o mundo deve ouvi-los”.
<pEntretanto, conforme relatado pelo portal Resumen Latinoamericano, essa organização não foi formada por refugiados saaraui próximos a Tindouf ou no Saara Ocidental ocupado; sua criação ocorreu por videoconferência a partir de Madrid. O ex-primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero foi convidado especial para o primeiro congresso da MSP realizado na ilha de Las Palmas nas Canárias em 2022.
Brahim Ghali, secretário-geral da Frente Polisário e presidente da RASD, reafirmou que “a Frente Polisário é o único representante legítimo do povo do Saara Ocidental”, destacando que essa posição é reconhecida por diversas organizações internacionais e instâncias judiciais como o Tribunal de Justiça da União Europeia. Ghali sublinhou que é a única entidade responsável pelo processo político em nome do povo saharaui durante esses cinco décadas e não reconhece legitimidade ao grupo alinhado com as posturas marroquinas.
‘Para Marrocos, todos os integrantes da Polisário são alvos permanentes’
Ghali comentou sobre um ataque ocorrido em 7 de junho pelas forças marroquinas que resultou na morte de três membros da Polisário, incluindo Lehbib Mohamed Abdelaziz, filho do falecido presidente da RASD. O comandante tinha um papel central nas estruturas militar e política da Frente Polisário e possuía formação avançada em relações internacionais e treinamento militar adquirido na Argélia.
Questionado sobre os recentes ataques com drones marroquinos, Ghali declarou enfaticamente que esses ataques visam causar o maior dano possível ao povo saharaui. Ele ressaltou que “o Saara Ocidental é uma das regiões mais minadas do planeta”, especialmente nas áreas adjacentes ao muro separador entre as zonas controladas por Marrocos e pela Frente Polisário. Embora essas ações possam parecer isoladas atualmente, ele assegurou que elas impactam tanto as forças militares quanto a população civil saharaui.
“Para Marrocos, todos os membros da Polisário são alvos constantes. Isso se aplica tanto ao âmbito militar quanto diplomático”, concluiu Ghali. Em entrevista exclusiva ao AND, Ahmed Mulay, representante da Frente Polisário e embaixador da RASD, abordou a morte do comandante dentro do contexto da luta pela liberdade nacional. Mulay lembrou que desde 20 de maio de 1973 – início das atividades armadas contra o colonialismo espanhol – os saharauís sabiam que alcançar a independência exigiria sacrifícios significativos. Ele enfatizou duas frases essenciais: “com o fuzil conquistaremos a liberdade” e “toda a pátria ou o martírio”.
Imperialismo americano se expande no Norte da África
No início deste mês de agosto, Donald Trump anunciou seu apoio à soberania marroquina sobre o Saara Ocidental. Em uma declaração publicada no dia 1° pelo perfil oficial da embaixada marroquina no EUA na plataforma X, ele defendeu que essa autonomia seria “a única maneira” para se alcançar uma solução justa para a região. Trump afirmou ainda que tal solução traria paz à área e ampliaria oportunidades econômicas em todo o continente africano.
A mensagem foi enviada ao rei Mohammed VI durante as comemorações dos 27 anos do Dia do Trono no dia 30 de julho. Trump também ressaltou os laços históricos entre os Estados Unidos e Marrocos afirmando: “celebramos este ano 250 anos de amizade forjada com base na confiança mútua”. Ele elogiou ainda o compromisso contínuo marroquino com a paz e segurança tanto para americanos quanto para marroquinos através dos Acordos de Abraão.
Esse reconhecimento à ocupação não é novidade; Trump já havia oficializado anteriormente esse apoio em 2020 ao justificar sua decisão com base nas relações históricas entre os dois países. Desde outubro daquele ano foram realizadas três rodadas de negociações envolvendo Marrocos, Frente Polisário, Argélia e Mauritânia sob auspícios das Nações Unidas. A França e a Espanha também adotaram posições semelhantes sobre a autonomia marroquina no Saara Ocidental.
Brahim Ghali criticou abertamente essa interferência americana afirmando ser “improvável” que as iniciativas mediadoras durante a administração Trump resultem em sucesso devido ao alinhamento dos EUA com Marrocos em detrimento dos direitos à autodeterminação dos saharauís.
“A questão do Saara Ocidental transcende otimismo; trata-se essencialmente de descolonização conforme estipulado pelo Direito Internacional”, destacou Ghali. Ele enfatizou que qualquer esforço para resolver o conflito deve estar fundamentado na natureza jurídica desta questão específica: um território não autônomo aguardando descolonização.
“O êxito das negociações depende fundamentalmente da proteção dos direitos saharauís”, concluiu Ghali alertando que qualquer tentativa fora desse contexto está fadada ao fracasso porque a Frente Polisário não abrirá mão dos direitos legítimos à autodeterminação e independência. “Não há alternativas realistas além disso”, finalizou reforçando o direito à autodeterminação dos saharauís e a legitimidade das suas organizações.
