No dia 9 de junho, uma colaboração entre grandes empresários e membros do Legislativo iniciou uma ofensiva no Senado contra a proposta de eliminação da escala 6 por 1. Através de uma carta aberta, organizações como as Confederações Nacionais do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), da Indústria (CNI), da Agricultura (CNA) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) manifestaram seu apoio à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 12/2026, que introduz o conceito de “trabalho flexível”. Essa estratégia visa contornar o debate sobre a redução da carga horária, promovendo acordos individuais que favorecem os interesses dos grandes negócios em detrimento dos já limitados direitos trabalhistas em um cenário de superexploração.
Esse movimento ocorre logo após a aprovação, pela Câmara dos Deputados, de um texto que prevê a eliminação gradual da escala 6 por 1, estabelecendo uma lenta transição para uma jornada semanal de 40 horas, sempre considerando os interesses do setor empresarial. Sob a justificativa de promover “autonomia” e aproveitando a inércia do movimento sindical atrelado ao governo atual, destacam-se senadores como Rogério Marinho (PL), Damares Alves (Republicanos) e Flávio Bolsonaro (PL) na introdução dessa proposta que praticamente desmantela as já frágeis proteções da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), abrindo espaço para a precarização total das relações laborais em todo o Brasil.
A carta patronal, chamada “Uma Carta para o Brasil que Acorda Cedo”, adota um tom preocupado com o social para justificar o desmonte dos direitos trabalhistas. As entidades argumentam que o modelo atual de jornada diária de oito horas é uma “caixinha fechada”, prejudicando trabalhadores que buscam complementar sua renda. No entanto, essa narrativa esconde a dura realidade enfrentada pela população brasileira, que não busca jornadas irregulares por liberdade, mas sim para suprir salários baixos que não asseguram uma sobrevivência digna em um país onde a inflação dos alimentos diminui constantemente o poder aquisitivo.
A crítica à proposta tem sido intensa, com muitos a rotulando como a “PEC da Escravidão”. O modelo de “trabalho flexível” possibilita jornadas fragmentadas em que os trabalhadores ficam à mercê das demandas dos empregadores, sem garantias de salários fixos ou descanso semanal consolidado. Essa prática reflete as velhas táticas disfarçadas de modernidade associadas às reformas trabalhistas: implementação do banco de horas, compensações excessivas, pejotização e contratos precários são algumas das ferramentas que conduzem à ampliação indireta da jornada e à perda significativa dos direitos trabalhistas.
Rejeição à ficção patronal
Especialistas consultados ressaltam que a flexibilidade imposta pelo capital gera insegurança. O sociólogo Zhuofei Lu, pesquisador na Universidade de Oxford, destaca que modelos menos rígidos sob interesses lucrativos levam à autoexploração. Quando somente o empregador controla os horários, os trabalhadores se veem em uma espiral insustentável de excesso de trabalho na tentativa de se mostrarem como modelos disponíveis permanentemente, prejudicando sua saúde física e mental.
Essa perspectiva é corroborada por especialistas em direito trabalhista e economia. Naércio Menezes, professor do Insper, alerta que a proposta apresenta instabilidade profunda ao impedir um planejamento financeiro adequado nas famílias devido à flutuação das remunerações. Além disso, Antonio Megale, advogado vinculado à Central Única dos Trabalhadores (CUT), argumenta que a redução da base contributiva causada pelos salários instáveis impacta diretamente na arrecadação previdenciária, comprometendo direitos futuros como aposentadoria e auxílio-doença.
A pesquisadora Marilane Oliveira Teixeira do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (Cesit), ligado ao Instituto de Economia da Unicamp, enfatiza que o desinteresse dos jovens pelo trabalho formal não é um desprezo pelos direitos conquistados, mas sim uma resposta às condições laborais degradantes. Quando o trabalho formal implica apenas receber salários mínimos ou ligeiramente superiores por jornadas longas com alta pressão e sem perspectivas positivas futuras, torna-se indistinguível da precariedade. Nesse contexto, a escala 6 por 1 representa a forma mais extrema desse processo extenuante.
<pDurante o programa A Propósito #364, exibido no dia 14 de maio no canal AND no YouTube, o líder sindical Magrão questionou essa situação ao afirmar: “Como pode um jovem trabalhar, estudar e ainda ter tempo para descansar?”. Ele sublinhou que para muitos jovens nas periferias, o dia começa cedo com transporte inadequado e trabalho árduo, deixando apenas um tempo mínimo para garantir sua sobrevivência. Para essa juventude, lutar pelo fim da escala 6 por 1 é crucial; entretanto, as propostas governamentais que mantêm jornadas ainda exaustivas não atendem suas reais necessidades.
O papel do Estado na manutenção do lucro
No mesmo programa A Propósito, o economista Alexandre Ferraz do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) destacou que os argumentos patronais sobre os riscos econômicos decorrentes do fim da escala 6 por 1 são reminiscências da chantagem utilizada durante a Assembleia Constituinte em 1988 quando houve redução da jornada para 44 horas semanais. Historicamente se observa que os ganhos em produtividade foram monopolizados pelos grandes empresários enquanto os salários permaneceram estagnados ou até recuaram. Assim sendo, as atuais reclamações das confederações revelam-se como defesas cínicas sustentadas pela exploração intensificada sobre uma população endividada.
<pEnquanto cerca de 55,7% da população expressa apoio ao fim da escala 6 por 1 conforme dados da AtlasIntel, o governo vigente busca estratégias conciliatórias. A abordagem adotada pela burocracia estatal visa conter descontentamentos populares através de medidas que preservam as lógicas das reformas trabalhista e previdenciária. Ao concordar em discutir expansões do banco de horas e diminuições nos encargos patronais em troca apenas de uma leve redução na jornada laboral, o governo autodenominado progressista legitima ainda mais a precarização estrutural presente no país. A rápida aprovação na Câmara dos Deputados orquestrada pelo presidente dessa casa sob a anuência governamental serviu para desviar as energias das ruas e transferir as discussões para os corredores incertos do Senado.
