
A Controladoria Geral do Estado (CGE) iniciou um levantamento no final de março, que revelou indícios da presença de funcionários fantasmas em todos os 77 órgãos da administração pública do estado do Rio de Janeiro. Conforme publicado pelo Jornal O Globo, a auditoria revelou que diversos servidores comissionados não registravam sua presença nos locais de trabalho, não realizavam login em computadores e não acessavam o Sistema Eletrônico de Informações (SEI), a plataforma oficial para a tramitação de documentos governamentais.
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Com base nesses dados, o governo classificou esses casos como “alta criticidade”, um termo usado para identificar servidores que supostamente recebiam salários sem exercer as funções correspondentes aos seus cargos.
Desde 23 de março, mais de 4.283 comissionados foram exonerados pela administração do governador interino Ricardo Couto. Somente entre março e maio, houve 1.767 desligamentos nessa categoria, resultando em uma economia estimada em cerca de R$ 15 milhões mensais. A expectativa é que ao longo de um ano as exonerações proporcionem uma redução total de aproximadamente R$ 355 milhões, levando em conta salários, férias e décimo terceiro.
A pesquisa realizada pela CGE aponta que a maioria dos servidores demitidos possuía vínculos políticos com integrantes da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), membros da gestão anterior ou ex-secretários estaduais.
Dentre os casos mencionados está o de Marcelo Cabral D’Almeida, um dos aproximadamente 200 exonerados da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (Seas). Ele declarou que realizava atividades práticas, incluindo visitas técnicas em praças e áreas verdes na Zona Oeste do Rio, como no Pico da Pedra Branca.
No entanto, ao ser questionado sobre quem supervisionava seu trabalho, ele afirmou não se recordar do nome do responsável.
Marcelo ocupava uma função na Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes Urbanas, recebendo um salário de R$ 10.903,66 e alegando ter sido indicado pelo então secretário Bernardo Rossi. Ele também reconheceu não ter formação na área ambiental.
Em declaração ao jornal, Bernardo Rossi negou a nomeação de funcionários fantasmas e assegurou que parte dos servidores realizava atividades práticas no campo.
Outro exemplo mencionado é o de Allen Carvalho, líder comunitário na Barreira do Vasco, que também reivindicou estar realizando trabalho externo durante seu período como servidor comissionado na mesma subsecretaria.
Duas subsecretarias da Secretaria do Ambiente foram completamente desativadas após as exonerações.
A Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes Urbanas contava com 14 cargos eliminados, enquanto a Subsecretaria de Conscientização Ambiental teve 37 vagas extintas.
A estrutura dessas subsecretarias era chefiada pela vereadora Thamires Rangel (PMB), filha do deputado estadual Thiago Rangel (PMB), que foi preso em maio sob suspeita de fraudes relacionadas à Secretaria Estadual de Educação.
Thamires refutou quaisquer irregularidades e garantiu que sua gestão obteve resultados concretos.
Os dados coletados pela CGE revelam que na Secretaria Estadual do Ambiente e Sustentabilidade havia 128 servidores apenas no gabinete do secretário; destes, 110 nunca acessaram o sistema interno utilizado pelos funcionários.
No âmbito da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, entre os 150 servidores comissionados, apenas 90 possuíam estações de trabalho alocadas.
A Casa Civil lidera o número total de exonerações até agora, contabilizando cerca de 1.200 desligamentos. Além disso, diversas subsecretarias foram extintas completamente, incluindo aquelas dedicadas a Projetos Especiais e Empreendedorismo.
Pai e filho também estão entre os exonerados
Dentre os casos notáveis está o de Marcus Wilson Von Seehausen e seu filho João Antonius Von Seehausen, ambos dispensados após a auditoria ser realizada.
Marcus ocupava um cargo na Secretaria do Ambiente com um salário líquido mensal aproximado de R$ 12.212,72. De acordo com informações obtidas pelo jornal, não existiam registros das suas atividades nem acesso aos computadores da secretaria ou às dependências físicas do órgão.
João competiu por uma vaga na Câmara Municipal de Petrópolis em 2024 pelo MDB e posteriormente ocupou um cargo na Casa Civil com salário líquido próximo a R$ 10.300.
Conforme relatado pelo jornal, João negou ser funcionário fantasma e afirmou realizar atividades externas; no entanto, optou por não autorizar a divulgação das suas declarações.
Influenciadora digital e outras servidoras também foram mencionadas
A reportagem destacou o caso de Bruna Castello Branco Costa Motta, conhecida nas redes sociais como “blogueirinha de São Marcos” e “missionária digital”, que ocupou uma posição comissionada na Secretaria do Ambiente entre janeiro e maio deste ano sendo incluída nas categorias consideradas “alta criticidade”.
Documentos indicam que ela acumulou um total de 41 dias férias durante esse período; entretanto, não há informações detalhadas sobre suas atribuições específicas.
A servidora Sintilaine Alessandra de Souza Silva, que permaneceu por pouco mais de dois meses na Subsecretaria mencionada anteriormente também foi citada. Quando indagada sobre seu cargo atual respondeu apenas que estava afastada por motivos relacionados à saúde.
Cerca de 60 dos 77 órgãos estaduais já foram auditados pela Controladoria Geral do Estado até agora.
Cada secretaria recebeu um relatório detalhado indicando as inconsistências encontradas e terá um prazo para apresentar suas justificativas além da possibilidade para promover novas exonerações quando necessário.
Segundo informações fornecidas pelo governo estadual, os servidores desligados serão incluídos em um cadastro restritivo impedindo seu retorno ao mesmo órgão onde trabalharam anteriormente.
Dentre as secretarias que apresentaram as maiores reduções no número total de cargos comissionados estão Trabalho (78,6%), Esporte e Lazer (75,6%), Turismo (73,3%) e Cultura, Tecnologia e Inovação (65,6%).
