AND discute com Sindicato Marreta e Alexandre Ferraz, do Dieese, a necessidade de reformular a política econômica além do fim da 6 por 1

No programa A Propósito transmitido em 14 de maio pelo canal de AND no YouTube, o dirigente operário Magrão, o economista Alexandre Sampaio Ferraz e o diretor-geral do jornal, Victor Bellizia, discutiram como o acordo do governo Luiz Inácio (PT) e da Câmara dos Deputados para votar o fim da escala 6 por 1 pode reconhecer formalmente uma exigência do proletariado, mas também esvaziá-la por meio de compensações às empresas, brechas legais, banco de horas e manutenção das “reformas” trabalhista e previdenciária.

Magrão, diretor financeiro do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Belo Horizonte e Região Metropolitana (STIC-BH Marreta) e um dos coordenadores da Liga Operária, defendeu que a luta pelo fim da escala 6 por 1 não pode ser separada da luta pela redução da jornada para 36 horas semanais, sem redução salarial, e pela revogação das “reformas” que retiraram direitos do proletariado. “Não basta mudar o governo, não basta mudar as coisas se a gente não muda a política econômica”, afirmou.

O dirigente operário também apontou que a conquista real não virá de acordos parlamentares conduzidos “por cima”, mas da mobilização independente do proletariado. Para ele, a pauta deve servir para impulsionar a preparação de uma Greve Geral de Resistência Nacional, com comitês de mobilização, unidade entre categorias e luta contra o conjunto dos ataques do velho Estado e dos representantes do grande capital.

Assista ao programa na íntegra: 

Alexandre Sampaio Ferraz, professor da Escola Dieese de Ciências do Trabalho e técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), afirmou que a ameaça patronal de que a redução da jornada quebraria a economia não é nova. Segundo ele, a mesma chantagem foi usada durante a Constituinte de 1988, quando a jornada legal foi reduzida de 48 para 44 horas semanais. “A gritaria foi muita também. Diziam que a economia acabaria, que seria prejudicada. E o que a gente viu foi o oposto”, afirmou. Para o economista, a redução da jornada pode permitir que o proletariado se aproprie de parte dos ganhos de produtividade acumulados nos últimos anos.

O representante de AND, Victor Bellizia, afirmou que o problema central não era apenas a promessa de votar o fim da escala 6 por 1, mas o conteúdo concreto do acordo que será negociado no Congresso. “O que vai ser retirado? O que a classe operária eventualmente terá que ceder?”, questionou o diretor-geral de AND. Bellizia destacou que uma mudança apenas formal pode produzir manchetes dizendo “acabou a escala 6 por 1”, enquanto, na prática, o operário segue submetido a jornadas extenuantes e a outras formas de aumento da exploração da força de trabalho.

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Governo pode transformar reivindicação em acordo rebaixado

O debate partiu do acordo anunciado em 13 de maio pelo governo Luiz Inácio e chefetes da Câmara dos Deputados para encaminhar a votação do fim da escala 6 por 1. A proposta em negociação prevê reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas, adotar a escala 5 por 2, garantir dois dias de descanso remunerado por semana e impedir redução salarial. A Comissão Especial que analisa o tema prevê votar o parecer do relator Leo Prates (Republicanos-BA) em 27 de maio, com envio ao Plenário da Câmara em 28 de maio.

A comissão analisa duas propostas principais: a PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), e a PEC 8/25, da deputada Erika Hilton (PSOL-SP). Ambas tinham como referência a redução da jornada para 36 horas semanais, além do fim da escala 6 por 1. O acordo anunciado pelo governo e pela Câmara, porém, trabalha com o limite de 40 horas semanais.

No debate, Magrão e Victor apontaram que a reivindicação operária pode ser convertida em peça eleitoral e em acordo rebaixado se ficar limitada aos marcos do Congresso, onde pesam os interesses diretos do patronato, tanto mais quando as forças da falsa esquerda não se empenharam em mobilizar a luta classista de massas nas ruas, e sim resfriá-las. Segundo Magrão, o acordo pode ser apenas formal se ocorrerem compensações às empresas, como transição prolongada, brechas por negociação coletiva, banco de horas, intensificação do trabalho ou retirada indireta de direitos.

Magrão afirmou que há diferença entre uma conquista arrancada pela luta e só chancelada pelos de cima e uma medida negociada nos gabinetes para esfriar a luta classista. “Quando a massa começa a tomar a rua, se vai para o parlamento discutir isso de uma forma que parece que é o parlamento que vai resolver as coisas”, afirmou. “Na verdade, nós temos que unificar todas as categorias, todos os trabalhadores e lutar pela redução da jornada.”

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Fim formal da 6 por 1 não basta sem revogar as ‘reformas’

Para Magrão, o fim formal da escala 6 por 1 não resolverá o problema se vier acompanhado da manutenção da “reforma trabalhista”, da “reforma previdenciária” e das formas de precarização que ampliaram a exploração do proletariado.

O dirigente lembrou que Luiz Inácio prometeu, antes de retornar ao governo, revogar medidas aprovadas contra os direitos do povo trabalhador. No entanto, segundo Magrão, o máximo a que o governo chega, dentro da conciliação com o Congresso e com os representantes do grande capital, é administrar uma negociação limitada.

A conclusão defendida pelo dirigente foi que a pauta deve ser ampliada: fim real da escala 6 por 1, redução da jornada para 36 horas semanais, revogação das “reformas” trabalhista e previdenciária, defesa dos direitos do povo e luta contra a entrega das riquezas nacionais ao imperialismo.

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Magrão: escala 6 por 1 não garante descanso real

Magrão também denunciou que o suposto dia de descanso na escala 6 por 1 é, na prática, uma formalidade. Segundo ele, depois de seis dias de trabalho, o proletário precisa usar o único dia livre para resolver tarefas domésticas, fazer bicos, complementar renda ou recompor minimamente sua força de trabalho. “Esse dia que ele teria que descansar, ele está fazendo os afazeres domésticos, tentando fazer um ‘puxadinho’, tá trabalhando pra ele”, afirmou.

O dirigente citou o caso da construção civil, em que muitos operários passam a semana nos canteiros de obra e ainda fazem serviços extras nos fins de semana. Para ele, a questão não se resume à escala, mas às condições concretas de vida do proletariado.

Magrão também destacou que a jornada extenuante pesa de forma brutal sobre as mulheres do povo. Ele afirmou que muitas mães pobres trabalham cuidando dos filhos de famílias ricas, mas não têm tempo para acompanhar os próprios filhos. “Ela é uma ótima babá para os grandes, mas o filho dela fica, como diz o ditado popular, ao Deus dará”, afirmou.

Bellizia sintetizou que o chamado descanso, nessas condições, muitas vezes é apenas o tempo mínimo necessário para que o proletário volte a vender sua força de trabalho. O problema, portanto, não é apenas de horas no papel, mas de tempo de vida roubado: convivência familiar, estudo, lazer, participação política e saúde física e mental.

Alexandre Ferraz: chantagem patronal não se sustenta

Alexandre Sampaio Ferraz destacou que a redução da jornada pode permitir que o proletariado se aproprie de parte dos ganhos de produtividade acumulados nos últimos anos. Ele apontou que esses ganhos foram apropriados pelo capital, enquanto os salários perderam participação em relação aos lucros.

Alexandre também afirmou que a luta pela redução da jornada é histórica e não começou agora. Para ele, o debate atual expressa uma demanda acumulada por melhores condições de vida e de trabalho.

Magrão, por sua vez, reforçou que o avanço tecnológico não foi usado para aliviar a carga sobre os operários. Ao contrário, permitiu ao grande capital produzir mais com menos operários, ampliar o ritmo de exploração e aumentar o desgaste físico e mental.

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Pauta tem apoio popular, mas pode ser capturada eleitoralmente

O acordo em discussão ocorre após o fim da escala 6 por 1 aparecer como uma das principais reivindicações dos atos de 1º de Maio. Em Belo Horizonte, AND noticiou que o Sindicato Marreta sediou um ato anti-imperialista que reuniu operários, estudantes e trabalhadores de outras categorias. Após o ato, os participantes marcharam até a Praça 7, onde panfletos sobre redução da jornada foram distribuídos e bem recebidos.

A reivindicação também conta com amplo apoio popular. AND noticiou em março pesquisa Datafolha segundo a qual 71% dos brasileiros apoiavam o fim da escala 6 por 1, e 76% avaliavam que a redução da jornada teria efeito ótimo ou bom na qualidade de vida. Outra pesquisa, da AtlasIntel, apontou em abril que 55,7% defendiam o fim da escala 6 por 1.

Esse apoio tornou a pauta impossível de ser ignorada pelo governo, pelo Congresso e pelos partidos eleitorais. O problema, apontado por AND no programa, é que uma reivindicação surgida da insatisfação real do proletariado pode ser convertida em ativo eleitoral do governo e em negociação rebaixada com os representantes do grande capital.

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Luta deve ir além do acordo do governo

Em nome do AND, Victor Bellizia concluiu que o fim da escala 6 por 1 deve ser apoiado como reivindicação justa e urgente, mas não pode ser separado da luta contra o conjunto das “reformas” que aprofundaram a exploração do proletariado.

A eventual aprovação de um projeto limitado, com 40 horas semanais, não encerra a disputa. O ponto decisivo será saber se o acordo manterá brechas para o grande capital, se permitirá banco de horas e sua extensão mediante “flexibilizações”, se abrirá exceções por setor, se criará transição prolongada, se intensificará o trabalho ou se compensará as empresas às custas dos direitos do povo.

Bellizia apontou que a pauta ganhou força porque houve mobilização, mas destacou que ela não foi acompanhada de um esforço à altura para organizar o conjunto da classe proletária. Segundo o diretor-geral de AND, isso “tem relação também com o enfraquecimento dos sindicatos por conta da reforma trabalhista, mas também por uma espécie de inação, por muito tempo, das lideranças sindicais ligadas a partidos muito afeitos às eleições, que vai aumentando a distância entre a direção sindical e a base proletária”. Para ele, o resultado foi que “houve uma mobilização e isso foi transformado em negociação parlamentar”.

O representante de AND também apontou que o governo Luiz Inácio usa a força do “centrão” como justificativa para rebaixar suas medidas, ao mesmo tempo em que alimentou esse mesmo “centrão”. Bellizia afirmou que “essas forças foram fortalecidas pelos acordos que foram alimentados e mantidos pelo atual governo de várias formas”, citando como exemplo “a aliança com o agronegócio”, cuja representação política está precisamente no chamado “centrão”, que “agora é utilizado como uma espécie de justificativa para manter as coisas mais ou menos como estavam nos governos anteriores”.

A limitação do acordo também aparece diante dos dados mais recentes sobre a jornada dos trabalhadores informais e por conta própria. Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da PNAD Contínua, apontou que os trabalhadores por conta própria registraram média de 45 horas semanais no primeiro trimestre de 2026, acima dos empregados dos setores privado e estatal, formais ou informais, que trabalharam em média 39,6 horas.

O dado expõe que, mesmo na hipótese de aprovação do fim da escala 6 por 1 no emprego formal, uma imensa massa precarizada – autônomos, entregadores, motoristas de aplicativo e prestadores de serviço – seguirá submetida a jornadas extenuantes, sem garantias trabalhistas fundamentais. Essa realidade reforça que o problema não se limita à escala formal, que embora muito importante, não pode por si só garantir melhorias persistentes e satisfatórias ao proletariado submetido ao conjunto das formas de exploração sustentadas pela informalidade forçada, pela plataformização, pelos “bicos” e pelas “reformas” que retiraram seus direitos.

Como apontou Magrão, a conquista real não virá da espera passiva por acordos parlamentares, mas da organização independente do proletariado. A pauta do fim da escala 6 por 1 deve servir para impulsionar a luta pela redução da jornada, pela revogação das “reformas” trabalhista e previdenciária e pela preparação de uma Greve Geral de Resistência Nacional.

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