Suvendu Adhikari, chefe do governo de Bengala Ocidental e dirigente do partido fascista BJP, afirmou em 10 de setembro que chegou o momento de “arrancar as sementes do naxalismo” do estado. A declaração foi feita na Assembleia estadual durante ataques contra professores e estudantes da Universidade de Jadavpur, um dos principais centros das recentes mobilizações estudantis na Índia. “Este é o momento certo para arrancar as sementes do naxalismo que eles semearam em Bengala Ocidental. Que haja guerra por três meses”, declarou.
Um dia antes, Adhikari já havia prometido “arrancar” da universidade aqueles que levantassem palavras de ordem como “Caxemira quer liberdade” e “Saudação Vermelha”. O chefe do governo fez as ameaças após dirigir a chamada Marcha de Honra Açafrão, que percorreu três quilômetros até as proximidades de Jadavpur, acompanhado de integrantes fascistas do BJP e de grupos do movimento chauvinista hindu.
Na Assembleia, Adhikari afirmou ainda que estudantes identificados por homenagear Kishenji – dirigente maoista assassinado pelas forças de repressão em 2011 – precisariam receber “remédio forte”. Na mesma sessão, foi aprovada uma lei que autoriza o governo estadual a transferir professores e outros funcionários entre universidades. O próprio Adhikari reconheceu que a medida serviria para “punir” professores, particularmente os da Universidade de Jadavpur, e declarou não se importar caso isso fosse chamado de “abuso de poder”.

“Naxalismo da pena e do fuzil”
A retórica adotada por Adhikari repete quase literalmente a orientação papagaiada quatro anos antes pelo primeiro-ministro fascista Narendra Modi. Em outubro de 2022, durante uma reunião do aparato repressivo realizada em Surajkund, Modi afirmou que todas as formas de naxalismo deveriam ser “arrancadas pela raiz”, “seja o da pena ou o do fuzil”. A reunião deu origem ao que organizações revolucionárias indianas denominam Plano de Surajkund: uma ofensiva dirigida não apenas contra a Guerra Popular na Índia, mas também contra estudantes, jornalistas, advogados, intelectuais e demais setores acusados de constituir o chamado “naxalismo da pena”.
Desde então, a ofensiva atingiu diretamente o movimento estudantil. Em 20 de julho, dezenas de milhares de estudantes e jovens marcharam em Nova Délhi contra a política educacional do governo; no mesmo dia, cerca de 1,5 mil pessoas participaram em Jadavpur de uma manifestação convocada pela Frente Estudantil Revolucionária (RSF, na sigla em inglês para Revolutionary Students’ Front) e outras organizações em solidariedade à luta na capital.
Em agosto, a RSF voltou a denunciar a Agência Nacional de Investigação (NIA, na sigla em inglês) após o ativista Shouryadipta Sengupta ser convocado para interrogatório e, segundo a organização, submetido a agressões físicas e psicológicas. A organização relacionou o episódio a uma ofensiva mais ampla contra ativistas e organizações democráticas.
As ameaças de Adhikari, portanto, ocorrem não diante do desaparecimento do movimento estudantil organizado, mas em meio a uma sequência de manifestações, campanhas e denúncias contra a repressão estatal em diferentes regiões do país.

Governo já havia prometido eliminar maoismo até março
As declarações também ocorrem poucos meses depois do vencimento do prazo estabelecido pelo governo Modi para “erradicar” o movimento maoista até 31 de março de 2026. A meta estava associada à Operação “Kagaar”, grande campanha militar contra o Partido Comunista da Índia (Maoista), o Exército Guerrilheiro Popular de Libertação (EGPL) e estruturas de Poder revolucionário nas regiões adivasis da Índia Central.
O prazo expirou sem que o objetivo declarado fosse alcançado. Em abril e maio, unidades guerrilheiras continuaram realizando ações em Chhattisgarh e Jharkhand; em Kanker, uma explosão matou quatro integrantes das forças de repressão, enquanto outro confronto nas florestas de Saranda deixou cinco paramilitares feridos. O velho Estado manteve novas operações militares depois de 31 de março.

Foi precisamente esse fracasso do velho Estado indiano que a revista revolucionária indiana Nazariya destacou em seu artigo de Primeiro de Maio. Referindo-se à promessa estatal de liquidar o maoismo “da pena e do fuzil”, a publicação afirmou: “E ele não conseguiu nenhum dos dois; o Marxismo-Leninismo-Maoismo sobrevive na Índia, tanto o da pena quanto o do fuzil”.
A revista sustentou que a ofensiva militar é acompanhada de uma ofensiva no terreno ideológico e político destinada a romper os vínculos entre o movimento revolucionário e os setores democráticos, estudantis e operários. A Nazariya também relacionou essa ofensiva à atual luta contra correntes oportunistas, liquidacionistas e revisionistas que, segundo a publicação, procuram substituir a clandestinidade e a luta revolucionária pelo legalismo e pela conciliação com a velha ordem indiana. Nesse combate, a revista aponta ainda o pós-modernismo como uma das principais armas ideológicas do oportunismo atual, empregado para dar fundamento teórico ao liquidacionismo e ao abandono da linha revolucionária.

Jadavpur volta ao centro das mobilizações
Jadavpur tornou-se um dos pontos de maior concentração dessa disputa. Além da marcha de 20 de julho, em agosto estudantes denunciaram ataques de grupos ligados ao Conselho Estudantil de Toda a Índia (ABVP, na sigla em hindi), braço estudantil da Associação Nacional de Voluntários (RSS, na sigla em hindi), matriz ideológica do fascismo Hindutva e principal sustentáculo político-organizativo do BJP. Em setembro, a RSF e outras organizações voltaram a convocar estudantes contra os ataques e contra medidas do governo estadual sobre as universidades.

artigo do Professor Amit Bhattacharyya

