Após a ocupação relâmpago dos blocos K e L da Administração Central da Universidade de São Paulo (USP), no campus Butantã, organizações estudantis divulgaram novas notas, vídeos e denúncias sobre a repressão policial ocorrida na noite de 8 de junho. A Frente Independente Marimbondo e o Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR) afirmaram que a ação expressou as reivindicações da greve por comida, permanência e transporte, e contestaram tentativas de criminalizar os estudantes mobilizados.
A ocupação ocorreu em meio à greve estudantil da USP, iniciada há mais de 50 dias, e reivindicou aumento de R$ 300 no auxílio PAPFE, melhores condições nos Restaurantes Universitários (RUs), fim das retaliações contra grevistas e liberação da verba para o transporte de estudantes de Pedagogia e licenciaturas ao 43º Encontro Nacional dos Estudantes de Pedagogia (ENEPe).

Em nota publicada em 10 de junho, a Frente Independente Marimbondo afirmou que “dezenas de estudantes independentes representando os anseios de milhares de estudantes da USP e de todo o país fizeram uma combativa e heroica ocupação exigindo o básico: comida, permanência e transporte”. A organização também afirmou que a ação recebeu apoio de setores da própria universidade, incluindo “funcionários do prédio e professores, que prestaram solidariedade e reconheceram na ação a justeza do que temos defendido”.
Segundo a Frente Marimbondo, a ação foi realizada em um momento em que “havia condições plenas para um novo salto na greve”. A organização relacionou a ocupação dos blocos K e L à repressão sofrida anteriormente na Reitoria da USP e afirmou que a desocupação violenta de maio havia lançado “toda a opinião pública contra esses reacionários e em defesa dos direitos dos estudantes”.

A Frente também afirmou que a ocupação demonstrou que “a independência e a combatividade são o caminho a seguir por aqueles que realmente defendem a luta e não a rendição”. Em outro trecho, a organização declarou que “se com algumas dezenas, podemos remexer essa universidade, com muitos podemos transformá-la pra valer”.
Vídeos divulgados após a ocupação também foram usados pelas organizações para rebater a versão de que a ação teria sido um ato isolado e sem apoio. Em um dos registros, uma funcionária que havia deixado o prédio declara apoio à manifestação e denuncia as condições precárias de permanência na universidade. Segundo a descrição divulgada pelos estudantes, a trabalhadora afirmou que os problemas apontados pelos grevistas são reais e exigem resposta imediata da USP.
Outro vídeo mostra um Guarda Universitário tentando entrar novamente no prédio após já ter sido retirado do local. Segundo os estudantes, depois de ser rechaçado pelos manifestantes, o agente passou a chamá-los de “terroristas”. A situação levou os próprios funcionários que estavam no local a intervir, pedindo que ele se acalmasse e afirmando: “Ninguém é terrorista, não”.
O MEPR também publicou nota sobre o caso, intitulada “Reitor Aluísio Segurado envia PM mais uma vez contra os estudantes da USP e DCE fica em silêncio”. A organização denunciou a atuação da PM dentro da universidade e afirmou que a repressão ocorreu com responsabilidade direta da Reitoria. Segundo o MEPR, a ação policial resultou na detenção de seis estudantes levados ao 7º Distrito Policial.
Em outra nota, publicada em conjunto com o Alvorada do Povo (AP), o MEPR afirmou que a ocupação foi uma resposta do movimento estudantil independente e combativo à tentativa da Reitoria de encerrar a greve sem atender suas principais reivindicações. As organizações declararam que “a greve não somente continua, mas se fortalece com mais uma vitoriosa greve de ocupação” e que ela “só acaba quando as reivindicações dos estudantes que estão em luta há mais de 50 dias […] forem plenamente atendidas”.
A Frente Independente Marimbondo também criticou a postura de determinados setores do movimento estudantil diante da repressão. Em nota intitulada “Entre a ocupação e a repressão: a culpabilização dos estudantes pelo DCE”, a organização afirmou que “causa indignação o silêncio por parte do DCE Alexandre Vannucchi Leme diante da detenção de seis estudantes pela Polícia Militar dentro da USP após a ocupação dos Blocos K e L”.
Na mesma nota, a Frente afirmou que parte da direção do DCE, em vez de denunciar a repressão, teria responsabilizado os próprios estudantes atingidos pela ação policial. “Pode-se discordar da ocupação dos Blocos K e L, de seus métodos ou das formas de luta adotadas pelos estudantes. O que não se pode aceitar é a lógica segundo a qual estudantes devem sofrer violência policial por ousarem lutar por seus direitos”, afirmou a organização.
A Frente também declarou que “nenhuma divergência sobre métodos de luta pode servir de justificativa para a repressão policial”. Para a organização, a postura de setores do DCE contradiz o nome de Alexandre Vannucchi Leme, estudante da USP preso, torturado e assassinado durante o regime militar fascista.
As organizações também criticaram a tentativa dos monopólios de imprensa de reduzir a ocupação a uma ação isolada de poucos estudantes. Em nota, a Frente Marimbondo afirmou que, “ainda que o monopólio de imprensa repercuta principalmente as imagens da polícia praticando os mesmos crimes de sempre”, os estudantes “não se intimidaram”. Para a organização, os vídeos divulgados após a desocupação mostram que a ação expressou reivindicações concretas da greve e contou com apoio dentro e fora do prédio ocupado.
A matéria do Metrópoles, por exemplo, registrou inicialmente relatos de manifestantes de que ao menos dez estudantes teriam sido detidos e, posteriormente, informou que seis jovens foram ouvidos e liberados. O mesmo veículo destacou a versão da Secretaria de Segurança Pública sobre objetos apreendidos e danos no prédio, enquanto as organizações estudantis divulgaram vídeos de apoio de funcionários e de confrontação a acusações feitas por agentes contra os estudantes.

A matéria anterior de AND registrou que, segundo a Executiva Nacional de Estudantes de Pedagogia (ExNEPe), a Guarda Universitária atuou em conjunto com a PM na retirada dos estudantes do prédio. A entidade denunciou agressões, hostilizações e perseguições a estudantes após a desocupação, inclusive contra jovens que estavam na fila do bandejão e na Moradia Universitária do Crusp.
Para as organizações estudantis, a ocupação dos blocos K e L foi uma resposta à falta de atendimento das reivindicações centrais da greve e à continuidade das retaliações contra estudantes mobilizados. A Frente Marimbondo afirmou que a universidade não pode “cobrar mensalidade”, permitir que “a moradia estudantil desapareça” ou fechar os RUs, e defendeu que os estudantes sigam mobilizados contra o sucateamento e a privatização da USP.
A Frente Independente Marimbondo, o MEPR e demais organizações estudantis democráticas e independentes seguem divulgando registros da ocupação e denunciando a repressão policial, as tentativas de criminalização dos estudantes e as punições contra grevistas.


