A situação da eleição de junho no Peru continua sem definição, enquanto a Oficina Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) avança na contagem dos votos e o Jurado Nacional de Elecciones (JNE) revisa as atas e as impugnações. A disputa entre Roberto Sánchez, que representa uma esquerda considerada falsa, e Keiko Fujimori, da extrema direita, está acirrada na luta pela liderança do tradicional Estado peruano. Essa indefinição se deve à necessidade de examinar milhares de atas em um contexto de elevada abstenção e votos nulos e em branco, que refletem o descontentamento popular com as instituições da antiga democracia do país. As implicações vão além da escolha do 9º presidente em dez anos, contribuindo para a intensificação da crise política, social e econômica que aflige a nação andina.
Até o momento, mais de 98% dos votos foram contabilizados, com Keiko Fujimori liderando com 50,002%, ligeiramente à frente de Roberto Sánchez, que obteve 49,998%, uma diferença inferior a mil votos. Existem ainda mesas de votação sem resultados reportados e cerca de 1.600 mesas — correspondendo a aproximadamente 400 mil cédulas — sob análise pelo JNE. Este processo pode se estender por semanas devido a erros materiais ou inconsistências documentais que têm dificultado a contagem imediata.
A apuração avança lentamente, enquanto os materiais eleitorais provenientes de regiões isoladas e do exterior são transportados para os centros responsáveis pela contagem. Dependendo da chegada das atas dessas áreas remotas — como Alto Amazonas, Atalaya e Coronel Portillo — o resultado final pode variar consideravelmente, tornando a recontagem uma verdadeira loteria. A recontagem dos votos é realizada pelo Jurado Eleitoral Especial e envolve a abertura de envelopes lacrados com as cédulas para verificação individual. Este processo exige a presença de representantes partidários e do Ministério Público, mas pouco muda em um cenário marcado pela polarização artificial.
Descontentamento e polarização caracterizam o segundo turno no Peru
As eleições no Peru não se configuram como um confronto entre propostas efetivas para resolver os problemas históricos da população, mas sim como um embate pautado pelo rechaço mútuo. Keiko Fujimori, herdeira do ex-presidente Alberto Fujimori — conhecido por seu histórico violento — concentra seus votos principalmente na capital Lima, onde conta com o apoio de setores urbanos conservadores interessados na manutenção do status quo. Em contraste, Roberto Sánchez conquista suporte nas áreas rurais e nas regiões mais empobrecidas do país, onde o desejo por mudança esbarra nas promessas vazias de uma esquerda que na verdade busca administrar o mesmo capitalismo burocrático que oprime os camponeses por meio do latifúndio.
Keiko é vista como um símbolo do retorno ao terrorismo estatal dos anos 1990 devido ao seu legado familiar sanguinário. Por outro lado, ao tentar canalizar a insatisfação popular para dentro das estruturas institucionais através da convocação de uma Assembleia Constituinte, Sánchez acaba atuando como um amortecedor que desvia a luta popular para os corredores da burocracia estatal. O povo, cada vez mais consciente dessa farsa eleitoral, decidiu se distanciar: a abstenção no segundo turno atingiu níveis recordes, com cerca de sete milhões de eleitores não comparecendo às urnas.
Os altos índices de abstenção, junto aos votos em branco e nulos, se destacaram como aspectos centrais desta eleição. No primeiro turno, mais de seis milhões de eleitores não foram às urnas e mais três milhões optaram por votar em branco ou anular seus votos — número superior ao total obtido por qualquer candidato individualmente. Para grupos que promoveram o boicote eleitoral, esse resultado reflete um forte rechaço às instituições do antigo Estado.
O Peru enfrenta uma crise que analistas burgueses descrevem como “modo zumbi”. A economia cresce impulsionada pela exportação de minérios para potências imperialistas sem beneficiar aqueles que nela trabalham. Com 33,4% da população vivendo em situação de pobreza e mais de 17 milhões sofrendo com insegurança alimentar, as eleições servem apenas como uma ilusão. A disparidade social é evidente em departamentos como Cajamarca e Puno; enquanto o latifúndio agroexportador prospera nessa realidade desigual com taxas superiores a 35% de pobreza. O desenvolvimento prometido pelo velho Estado nunca chega nessas regiões; apenas ocorre a extração contínua de recursos enquanto os camponeses permanecem submetidos a condições semifeudais sem infraestrutura básica ou acesso à terra.
Movimento Popular defende boicote ao processo eleitoral
O Movimento Popular Peru (MPP) divulgou uma declaração criticando severamente o processo eleitoral no país através do portal O Arauto Vermelho. Para essa organização política, “boicotar eleições reacionárias é uma tática justa e correta que beneficia o povo e a revolução!”. O MPP enfatiza que essas eleições são utilizadas como instrumento pelos latifundiários e pela grande burguesia para manter as antigas relações exploratórias sob uma ditadura servil ao imperialismo.
“O povo não deve servir aos seus opressores; não pode ajudar a resolver seus problemas; não deve endossar esse sistema social nem eleger um governo pior que os anteriores; essa não é sua solução nem atende aos seus interesses. A única resposta realmente popular neste momento é NÃO VOTAR! Essa é a verdadeira alternativa diante das eleições do Estado reacionário e seu regime fascista liderado pelo fantoche Balcázar”, afirma o comunicado.
A eleição no segundo turno apresenta desafios significativos para quem assumir o governo já que não terá maioria no parlamento devido à fragmentação das cadeiras. O MPP alerta que a corrupção — característica intrínseca do velho Estado — tende apenas a se agravar nesse novo cenário político onde “o parlamento bicameral será formado não por bancadas partidárias coesas mas por indivíduos representando em sua maioria apenas interesses pessoais.” Como observado pelo MPP, o velho Estado peruano dependerá cada vez mais da repressão organizada deixando claro que este sistema é essencialmente uma forma organizada de violência destinada à perpetuação da exploração sobre o povo.
