O resultado final do segundo turno das eleições presidenciais no Peru revelou uma vitória apertada para Keiko Fujimori, da Força Popular, que obteve 50,135% dos votos. Em contrapartida, Roberto Sánchez, do Juntos pelo Peru, ficou com 49,865%. A diferença entre ambos os candidatos foi inferior a 50 mil votos, em um cenário marcado por uma crise política acentuada, a fragmentação das forças eleitorais e o significativo desgaste das instituições tradicionais do Estado peruano.
Durante o segundo turno, o Movimento Popular Peru (MPP), vinculado ao Partido Comunista do Peru (PCP) e responsável por atividades internacionais, divulgou um manifesto intitulado “Contra a farsa eleitoral reacionária”, datado de 7 de junho e amplamente repercutido por O Arauto Vermelho (El Heraldo Rojo). Nesse texto, o MPP incitou a população a não participar da votação, considerando o processo eleitoral como um meio que perpetua as autoridades de um Estado latifundiário-burocrático ao serviço do imperialismo.
A posição do MPP foi resumida na frase: “Eleições não! Guerra popular sim!”. Para essa organização, exercer o voto implicaria endossar o sistema social atual e optar por um “governo ainda mais opressor e entreguista” do que o anterior.
Rejeição expressa no primeiro turno
No seu manifesto, o MPP fez referência a dados da Oficina Nacional de Processos Eleitorais do Peru (ONPE) sobre o primeiro turno realizado em abril. O documento apontou que havia mais de 27,3 milhões de eleitores aptos a votar, dos quais mais de 7,1 milhões não compareceram às urnas, representando 26,194% do total.
A organização também destacou que houve mais de 2,3 milhões de votos em branco e mais de 1 milhão de votos nulos. Para o MPP, a combinação da abstenção com os votos brancos e nulos reflete um crescente desprestígio das eleições e dos partidos reacionários, assim como das instituições tradicionais do Estado.
Além disso, o documento enfatizou que os dois candidatos que chegaram ao segundo turno tiveram apoio limitado se comparado ao total do eleitorado. Segundo a análise feita pelo MPP, a soma dos votos recebidos por Keiko Fujimori e Roberto Sánchez não ultrapassou um quinto dos eleitores habilitados.
A organização conclui que esses números evidenciam a fragilidade política do processo eleitoral e intensificam a crise no Estado peruano. Para o MPP, existe uma tentativa de obter “autoridades com aparência de legitimidade” para assegurar a repressão contra as lutas populares e continuar com as políticas de exploração e opressão direcionadas às massas.
Conflito entre frações da grande burguesia
O MPP classificou a disputa no segundo turno como um embate entre duas facções da grande burguesia. No entendimento da organização, Keiko Fujimori representa a fração compradora enquanto Roberto Sánchez é associado à fração burocrática.
A entidade rejeitou a ideia de apresentar Sánchez como uma opção “menos pior” em relação ao fujimorismo. Para o MPP, essa narrativa busca engajar as massas na sustentação do mesmo sistema estatal, independentemente do candidato eleito.
O documento afirma que ambos os candidatos estão competindo pela administração do antigo Estado peruano e que nenhum deles oferece soluções reais para os problemas enfrentados pela população. O MPP ressalta que a antiga sociedade peruana é semicolonial e semifeudal, sustentando um capitalismo burocrático sob domínio imperialista, especialmente dos Estados Unidos.
A organização criticou ainda setores oportunistas que chamaram ao voto nulo ou se envolveram com candidaturas em partidos reacionários. Para o MPP, essas atitudes ajudam a legitimar a farsa eleitoral e alimentam ilusões no cretinismo parlamentar.
Aprofundamento da crise do velho Estado
No manifesto divulgado pelo MPP, foi destacado que o primeiro turno evidenciou uma dispersão significativa dos votos e uma fraqueza nas forças políticas reacionárias, dificultando a formação de maiorias estáveis no novo Parlamento bicameral.
A organização argumenta que essa fragmentação no Senado e na Câmara dos Deputados tende a exacerbar as alianças e disputas entre diferentes grupos das classes dominantes. Segundo o documento, tal cenário aprofunda ainda mais a crise política e revela a incapacidade do antigo Estado em responder às necessidades básicas da população.
Adicionalmente, o MPP ressaltou que as conquistas sociais não foram fruto das eleições ou da atuação parlamentar; elas resultaram da luta popular. O pronunciamento menciona as reivindicações dos professores como exemplo disso e afirma que direitos sociais foram conquistados através da mobilização coletiva. Para essa organização, os resultados eleitorais não resolvem a crise do velho Estado; pelo contrário, marcam o início de um novo período de conflitos entre as classes dominantes e tentativas de reforçar os mecanismos repressivos contra o povo. O documento finaliza reafirmando sua posição favorável ao boicote eleitoral como uma “estratégia justa e correta”, convocando as massas para não depositarem suas esperanças nas eleições reacionárias.
