Marilane Teixeira alerta: diminuição da jornada não deve aumentar a carga de trabalho das mulheres em casa

Durante uma entrevista ao jornal A Nova Democracia, Marilane Oliveira Teixeira, economista e pesquisadora do Cesit/IE-Unicamp, destacou a importância de levar em conta a realidade das mulheres no mercado de trabalho ao discutir a diminuição da carga horária. Segundo ela, essas trabalhadoras enfrentam uma combinação de salários baixos, longas jornadas, trabalho doméstico não remunerado e responsabilidades familiares.

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Marilane fez essa afirmação durante uma discussão sobre o término da escala 6 por 1 e aprofundou um dos temas que foram abordados na conversa com o AND: a possibilidade de que o grande capital busque maneiras de contornar a redução da jornada, utilizando os instrumentos impostos pela “reforma trabalhista”.

<pA pesquisa também ecoa as preocupações levantadas pelo Movimento Feminino Popular (MFP) em seu artigo “Desigualdade salarial feminina e o incremento da superexploração do proletariado brasileiro”, que ressalta que a maior inserção das mulheres no mercado de trabalho não garante automaticamente uma “ascensão social”. Em vez disso, essa inserção se dá dentro da lógica de superexploração do proletariado e das classes populares sob o capitalismo burocrático, resultando em salários menores e jornadas duplas que geram desgaste físico e mental.

A análise do MFP aponta que as mulheres ganham, em média, 20,9% menos do que os homens, sendo que essa disparidade é ainda mais acentuada entre as mulheres negras. O texto também enfatiza que as trabalhadoras não só vendem sua força de trabalho diretamente como também realizam uma quantidade significativa de trabalho invisível e não remunerado dentro de casa, tarefa essencial para sustentar diariamente a força de trabalho explorada pelo capital.

Marilane chegou a conclusões semelhantes ao abordar a questão da divisão sexual do trabalho. Ela argumenta que a estrutura econômica e social brasileira tem historicamente excluído grandes segmentos da classe trabalhadora, especialmente mulheres e pessoas negras, relegadas às “franjas” do mercado laboral em serviços pessoais, atividades domésticas e ocupações mal remuneradas.

A pesquisadora menciona que essa divisão sexual do trabalho impõe às mulheres a responsabilidade pela manutenção do lar, dos cuidados familiares e outras funções essenciais, algo que é vantajoso para o capital. “Ter mulheres em casa cuidando e mantendo as condições de vida é funcional”, disse ela, pois isso reduz os custos associados à reprodução da força de trabalho e permite à empresa manter salários mais baixos para todos os trabalhadores.

Conforme Marilane observou, quando as mulheres ingressam no mercado profissional, elas são frequentemente direcionadas para ocupações vistas como “femininas”, como serviços domésticos ou áreas como enfermagem e educação. Essas profissões costumam oferecer remunerações inferiores e contribuem para perpetuar a desigualdade salarial entre gêneros, mesmo quando as mulheres possuem maior nível educacional.

“Atualmente, 30% das mulheres na força de trabalho têm ensino superior completo, enquanto esse número é inferior a 20% entre os homens”, explicou. Apesar dessa diferença educacional favorável às mulheres, elas continuam predominando em funções com baixa remuneração e pouca valorização no setor empresarial que ainda preserva uma cultura organizacional baseada no modelo masculino de disponibilidade total para o trabalho.

Além disso, Marilane sublinhou que as mulheres dedicam mais horas do que os homens quando se considera tanto o trabalho produtivo quanto o reprodutivo. “Enquanto as mulheres investem cerca de 58 horas por semana somando todas as suas atividades laborais e domésticas, os homens ficam na marca das 50 horas”, afirmou.

Por essa razão, Marilane enfatizou que uma redução na jornada laboral não deve resultar apenas em um aumento das tarefas domésticas para as mulheres. “Quando falamos sobre a importância de diminuir a carga horária para permitir momentos em família, estamos nos referindo à convivência familiar – tanto para homens quanto para mulheres – e não apenas ao fato de trabalhar para sustentar a casa”, alertou. “Quando se menciona os homens é sobre passar tempo com a família; ao abordar as mulheres é sempre sobre trabalhar para mantê-la.”

A reflexão dela está alinhada com o posicionamento do MFP, que critica como o trabalho doméstico acaba funcionando como um meio indireto de exploração das mulheres pelas classes dominantes. Ao delegar às mulheres tarefas como cozinhar, limpar e cuidar dos filhos ou idosos, o sistema capitalista consegue reduzir seus custos operacionais relacionados à força de trabalho enquanto aumenta sua margem de lucro.

Marilane ressaltou ainda que muitas mulheres estão presentes nas ocupações mais desgastantes e prolongadas em setores como supermercados, farmácias e shoppings. Além disso, mencionou que atualmente 51% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres e existem cerca de 11 milhões delas liderando famílias sozinhas.

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