No dia 29 de maio, Pedro Ortaça, conhecido como o último dos Troncos Missioneiros, faleceu aos 83 anos após enfrentar complicações relacionadas à diabetes e problemas vasculares. Ele estava internado em um hospital na cidade de Ijuí, localizada no noroeste do Rio Grande do Sul. Natural do Pontão de Santa Maria, no município de São Luiz Gonzaga, Ortaça nasceu em 29 de junho de 1942 e, junto com Jayme Caetano Braun, Cenair Maicá e Noel Guarany, lançou o álbum Troncos Missioneiros em 1988.
Essa obra se tornou um marco na música nativista e na cultura popular gaúcha, contribuindo para a valorização da história e da cultura do povo guarani, cuja presença no Rio Grande do Sul foi historicamente negligenciada. O impacto gerado pelo disco foi tão significativo que os quatro artistas passaram a ser reconhecidos como “Troncos Missioneiros”, simbolizando sua importância dentro da cultura gaúcha e nativista, mesmo entre aqueles que se opunham a suas ideias.
Em suas composições, Galo Missioneiro – como ficou conhecido – usou sua guitarra para evocar a figura do guerreiro guarani Sepé Tiaraju, honrando a memória dos lutadores que defenderam suas terras. Suas canções criaram uma conexão entre a resistência guarani e as lutas dos camponeses sem terra. Em Brisa de Liberdade, ele expressou:
Amante da liberdade, não sou de andar embretado;
Não nasci pra ser mandado, nem pra cantar ilusões;
Que fiquem os maus patrão com seus gestos mal havidos;
Prefiro rumos perdidos dos deserdados da sorte
Peleando de encontro à morte e eternamente esquecido.
Crítica ao imperialismo e defesa da soberania
Um feroz crítico do imperialismo, Ortaça utilizou sua música para denunciar as agressões perpetradas pelos Estados Unidos contra as nações latino-americanas. Na canção Desde os Tempos de Sepé, ele inicia com versos contundentes:
Seu gringo, faça silêncio
Vai cantar um missioneiro
E pra não dar entrevero
E o baile ficar suspenso
Pode guardar seu dinheiro
Que eu vou falar o que penso.
<pAdiante na mesma canção, ele critica:
Onde o tio Sam dá palpite;
Não resta pão sobre a mesa;
Pois nenhum povo resiste
À morte da natureza.
No decorrer da letra, Ortaça observa que os ianques “Estão com um pé na pampa / E as duas mãos no Amazonas”, além de criticar a cumplicidade das instituições estatais na dominação imperialista:
Há muito sobem a rampa;
Tapados de cerimônias;
Nossa conta virou trampa
Sem a menor parcimônia;
A mesma história se acampa
Onde a gringada se adona.
No encerramento da composição, ele conclui:
Seu gringo, perca o entono;
Pois mate não é café
E o cepo nunca foi trono
De misterzinho qualquer;
Por isto, não perca o sono
E pode ir dando no pé;
Porque esta terra tem dono
Desde os tempos de Sepé.
Compromisso com o povo guarani
No ano de 2008, Pedro Ortaça e sua família concederam uma entrevista para um repórter da AND onde compartilharam suas experiências e crenças sobre a importância de preservar a história do povo guarani e da República Guarani. Durante essa conversa, Gabriel Ortaça, filho do Galo Missioneiro, destacou que essa narrativa havia permanecido oculta por muitos anos.
Aproveitando sua influência adquirida ao longo da carreira artística, Pedro Ortaça conseguiu persuadir o então governador Olívio Dutra a demarcar 240 hectares para os remanescentes guaranis em São Miguel. Ele afirmou que os indígenas eram “os verdadeiros donos da terra” e denunciou o abandono que enfrentavam: “os índios estão esmolando; não recebem nenhum apoio”.
Para finalizar a entrevista, Galo Missioneiro reafirmou uma frase que reflete sua postura diante da vida:
“Eu nunca pedi bexiga prá patrão nem prá milico.” (sic)
