
Na adolescência, Alexandre Borges se viu em uma situação complicada na rodoviária, enquanto se dirigia para visitar sua namorada. Um golpista o atraiu com o conhecido truque dos três copinhos e, ao perder grande parte do dinheiro que tinha para a viagem, precisou pedir carona de volta para São Paulo, sua cidade original. “Foi uma das maiores desilusões da minha vida”, relembra, ressaltando que essa experiência o afastou definitivamente das apostas.
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No ar na novela Quem Ama Cuida, exibida às 21h pela Globo, o ator dá vida a Ulisses, um empresário que busca riquezas fáceis e acaba se endividando com agiotas, chegando até a ser sequestrado por eles. A trama aborda um tema que vai além da ficção: a crescente popularização das apostas no Brasil e o aumento do endividamento causado por jogos online.
Com uma trajetória de vinte novelas em seu portfólio — começando em Guerra sem Fim (1993) na antiga Rede Manchete e incluindo sucessos como Laços de Família (2000), Caminho das Índias (2009) e Avenida Brasil (2012), que está atualmente reprisada no programa Vale a Pena Ver de Novo — Borges compartilha seu interesse por personagens que desafiam os estereótipos convencionais de heróis. Ele também fala sobre como a fé o ajudou a superar momentos difíceis, como a enfermidade da mãe, além de comentar sobre a pressão de atingir os 60 anos sob os olhares do público.
O que Ulisses busca nas apostas além do dinheiro? Ele procura um caminho que pode transformar radicalmente sua vida. Vivemos em uma sociedade hiper capitalista onde há uma tendência constante de querer estar sempre no topo para alcançar a felicidade, mas isso é uma ilusão. É evidente que muitas pessoas com dinheiro enfrentam um profundo vazio existencial, o que as leva ao vício. Não se trata apenas de questões sociais ou educativas. Por isso, interpretar esse personagem traz uma grande responsabilidade.
Qual é sua visão sobre o apelo das apostas? Isso envolve uma simbologia de poder. O glamour dos cassinos e as trapaças cinematográficas apresentadas por Hollywood criaram um imaginário sedutor. As pessoas frequentemente buscam algo que dê significado a suas rotinas insuportáveis. Enquanto alguns jogam de forma saudável, economizando para se divertir em Las Vegas, muitos são atraídos por promessas milagrosas em um país com tantas carências.
Muitos artistas e influenciadores promovem casas de apostas. Onde você estabelece seus limites? Jamais aceitaria fazer propaganda desse tipo, assim como nunca o fiz para cigarros ou bebidas alcoólicas. Sou contra a legalização dos jogos online e acredito que é fundamental realizar campanhas intensivas para alertar especialmente os jovens sobre as consequências devastadoras desse vício. Nunca ouvi alguém dizer que enriqueceu dessa forma.
Como você vê a contradição entre a novela tratar do vício em jogos enquanto sua emissora exibe anúncios desses serviços?(A entrevista foi interrompida pela assessoria da TV Globo, informando que o ator não poderia comentar questões institucionais da empresa.)
Você costuma interpretar homens com conflitos internos. O que te atrai nesses papéis? Sempre busquei retratar as fragilidades do homem moderno, pois também me sinto frágil. Quando vivi o personagem Cadinho em Avenida Brasil, quis entender suas razões para ter três mulheres; já com Cristiano em Celebridade, explorei suas motivações por trás da dependência química. Faço uma reflexão sobre as histórias deles para criar uma conexão mais forte com o público.
A sintonia com Isabel Teixeira conquistou rapidamente os telespectadores. De onde vem essa conexão? Nossa conexão é antiga; mesmo sem percebermos muito antes — minha mãe dirigiu uma peça estrelada pela dela e nós assistíamos ao teatro juntos quando éramos crianças. Essa coincidência criou um laço especial entre nós. Brincamos dizendo que era ela quem defendia Ulisses quando ele era pequeno contra colegas de escola que faziam bullying.
Crescer com oito irmãs por parte de pai trouxe ensinamentos valiosos? A convivência me fez reconhecer o poder do sagrado feminino. Muitas vezes somos ensinados a acreditar que homens devem ser infalíveis e fortes; isso pode ser sufocante. Ao aceitarmos essa força feminina, encontramos formas mais leves e poéticas de viver.
No seu papel, Ulisses confia em uma pulseira da cabala. Como é sua relação com espiritualidade? Ele utiliza esse símbolo de maneira errada como se fosse uma superstição; espero que ao final da novela haja uma nova interpretação desse objeto significativo. Fui educado no catolicismo e valorizo momentos de oração e reflexão como meios de me conectar com meu eu superior, buscando não apenas alcançar o céu, mas também fundamentar-me na realidade.
E isso te ajudou durante a doença da sua mãe? Sem dúvida. Compreendi profundamente nossa condição passageira e me senti privilegiado por estar aqui. Enfrentar a perda daquela que considero a pessoa mais importante da minha vida foi extremamente educativo. O Alzheimer é cruel, mas trouxe elementos poéticos à experiência; ver alguém tão próximo perder suas memórias é tocante. Sinto-me grato por ter podido cuidar dela nesse processo tão especial.
A chegada aos 60 anos trouxe mais liberdade ou mais pressão? Sinceramente gostaria de afirmar que essa não deveria ser uma preocupação; afinal, experiência traz maturidade ao artista — basta observar Fernanda Montenegro quase centenária! No entanto, há sim um certo peso envolvido nessa fase da vida; reconheço minha vaidade ao olhar no espelho e perceber os sinais do tempo: “caramba, estou envelhecendo”. Neste último ato da vida busco me libertar das opiniões alheias; não sigo tendências estéticas atuais nem sou adepto de procedimentos estéticos, embora possa mudar essa perspectiva futuramente. O essencial é aceitar o envelhecimento como algo natural e redirecionar prioridades na vida.
Pensando sobre seu casamento anterior de 22 anos: você ainda acredita na possibilidade de encontrar um grande amor? Acredito sim! Para encontrar um amor verdadeiro é necessário estar aberto (risos). Cupido não costuma atuar quando estamos obcecados pela busca incessante. Desejo ter alguém especial para compartilhar este capítulo final da minha vida; talvez idealizar um amor romântico seja algo típico dos jovens, mas mantenho meu espírito jovial e vejo espaço na minha vida para essa possibilidade ainda acontecer.
