Decisão dos vereadores de Nova Friburgo gera revolta entre moradores ao vetar homenagem à menina Isadora

Na terça-feira, 14 de julho, os vereadores de Nova Friburgo decidiram manter o veto do prefeito Johnny Maycon (PL) à proposta que homenagearia Isadora Stulpen, uma criança de oito anos que faleceu em dezembro de 2025 devido à falta de atendimento médico em sua localidade. A homenagem consistia em nomear a Unidade de Urgência e Emergência de Lumiar, uma conquista significativa na luta pela saúde pública na região. Um grupo formado por ativistas, educadores, trabalhadores, alunos e residentes compareceu à Câmara Municipal para pressionar os legisladores a cumprirem o compromisso anteriormente assumido, quando a homenagem foi aprovada por unanimidade. Entretanto, os vereadores desconsideraram essa vontade popular e mantiveram o veto.

Preparativos para a mobilização

Por volta das 16h30, moradores de Lumiar se concentraram no centro do distrito para organizar caronas até a Câmara. Armados com cartazes e faixas que denunciavam o desprezo da Prefeitura pela vida de Isadora e de outros cidadãos que perderam a vida sem assistência médica, eles celebraram também a inauguração do Posto de Lumiar como uma vitória da comunidade.

Ao chegarem à Câmara, ocuparam as cadeiras na expectativa de acompanhar a sessão e exercer pressão sobre os vereadores. Membros do Comitê de Apoio ao AND distribuíram panfletos sobre a votação anterior e alertaram os presentes sobre a possível mudança de posição dos parlamentares.

A presença dos cartazes incomodou os vereadores, resultando na retirada forçada de parte do material por guardas municipais sob ordens dos parlamentares. Sob a alegação de que não poderiam haver “madeiras” na sessão — mesmo os suportes sendo canos PVC — tentaram obstruir a organização dos manifestantes. Após o confisco da faixa rosa com a frase “Isadora Presente!”, Eliana Andrade, líder da Comissão de Moradores do Vale dos Peões, declarou: “podem tirar nosso apoio, mas não podem tirar nossas mãos!”. Um membro do Comitê também foi confrontado por um guarda que ameaçou: “Aí, ‘amiguinho’, vi que você me gravou aí. Você até pode gravar ‘servidor público’, mas não pode ‘difamar’. Só tô avisando pra você se ligar, hein”.

Mudanças nas posições dos vereadores e reação popular

Anteriormente, apenas dois vereadores haviam votado contra a homenagem. Contudo, nesta votação mais recente, nove deles mudaram suas posições e apoiaram o veto do prefeito, juntando-se aos já contrários Carlinhos do Kiko e José Carlos Schuabb.

A Câmara optou também pela denominação do Posto como “Dirceu Spitz”, ex-vereador alinhado aos interesses das classes dominantes em Nova Friburgo, especialmente em Lumiar. O resultado já era esperado pelas comunidades locais; conforme relatou Janiele, moradora da região ao Comitê de Apoio ao AND: “os parlamentares são todos capachos do prefeito!”. Klaus Graban, dirigente da Comissão, expressou sua falta de surpresa com as mudanças nas posições dos vereadores ao afirmar: “quando o barco afunda, os ratos sobem nadando!”.

No decorrer dos discursos dos parlamentares, os manifestantes entoaram palavras de ordem como “Isadora Presente!”, mantendo viva a memória da menina. Em resposta às declarações reacionárias dos vereadores, gritaram “Respeitem a memória de uma criança! Vergonha!” e exigiram que fosse lido um abaixo-assinado com mais de mil assinaturas favoráveis à nomeação do Posto como “Isadora Da Silva Cardoso Stulpen Veiga”. A mesa respondeu ameaçando adiar a sessão caso as manifestações continuassem.

Após a votação que resultou na manutenção do veto, os manifestantes se reuniram em frente à plenária gritando em coro: “Vergonha! Vergonha!”. Ruan Carlos Stulpen, pai de Isadora e figura central na mobilização, dirigiu-se diretamente ao presidente da mesa José Carlos Schuabb: “Você falou em injustiça, mas injustiça mesmo seria se você chegasse em casa e não pudesse abraçar seu filho por falta de competência (da Câmara e da Prefeitura)! Você é conivente; tem o sangue da minha filha nas suas mãos! Dorme com isso!”.

“É uma violência contínua diariamente”: AND entrevista Ruan Stulpen

Após o término da votação, o AND teve uma conversa com Ruan Stulpen. Ele expressou seu descontentamento quanto à substituição da homenagem à sua filha pelo nome de um ex-vereador e ressaltou que tal decisão representa uma violência constante contra a memória de Isadora e contra as reivindicações por saúde pública em Lumiar. Para Ruan, ver uma homenagem dedicada a uma menina negra ser trocada por outra dedicada a um homem branco político é um reflexo do patriarcado vigente.

Ele também mencionou que Nova Friburgo apresenta altos índices de violência contra mulheres no estado do Rio de Janeiro. Segundo dados do Dossiê Mulher produzido pelo Instituto de Segurança Pública, foram registrados 581 casos de agressão e 76 ocorrências de violência sexual contra mulheres em 2020 no município. Ruan argumenta que essa opressão ligada ao gênero se entrelaça com questões sociais mais amplas abordadas pelo Movimento Feminino Popular no documento intitulado “Desigualdade salarial feminina e o incremento da superexploração do proletariado brasileiro”.

Ruan destacou ainda que “se dependesse do Legislativo e do Executivo, o Posto estaria caindo aos pedaços até agora. O Posto de Lumiar só existe hoje porque o povo se uniu”, evidenciando como a organização popular conseguiu conquistar melhorias para a população diante das classes dominantes.

Por fim, ele elogiou o trabalho realizado pelo Comitê: “Parabenizo vocês; continuem espalhando consciência entre as pessoas. Estamos precisando disso. Se tivermos uma visão crítica mais apurada e estivermos unidos, poderemos viver em um país muito melhor do que essa realidade insatisfatória imposta atualmente.”

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