
A relação entre o futebol e a Justiça vai além do que se imagina, com o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) mantendo um acervo significativo vinculado ao esporte em seu arquivo central. Dentro de mais de 60 processos judiciais arquivados, encontram-se registros de eventos emblemáticos da história da Seleção Brasileira e das Copas do Mundo, como o furto da Taça Jules Rimet e o sequestro do pai de Romário durante o Mundial de 1994. Esses documentos são fundamentais para entender a interligação entre o esporte e a sociedade brasileira, além de conectar o público à sua própria narrativa histórica e ao sistema judiciário.
Uma das peças mais valiosas desse acervo é o processo referente ao roubo da Taça Jules Rimet, que foi definitivamente conquistada pelo Brasil após vencer a Copa do Mundo de 1970. O troféu foi subtraído da sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), localizada no Centro do Rio, em dezembro de 1983. O processo reúne uma série de documentos que vão desde a investigação inicial até as condenações dos responsáveis pelo delito.
Gilberto de Souza Cardoso, diretor da Divisão de Gestão de Documentos (Diged), destaca que a preservação desses registros é vital para resgatar episódios que iluminam diversas narrativas nacionais além do campo esportivo. “Esses documentos revelam não apenas a trajetória do futebol, mas também questões relacionadas às mulheres, à escravidão e muitos outros temas. São histórias vivas que somente os processos judiciais têm a capacidade de contar”, afirma.
O acervo também inclui uma ação judicial movida por Zico contra Romário em 1999, que envolveu declarações e caricaturas consideradas ofensivas exibidas no local onde Romário trabalhava. A decisão sobre essa disputa por danos morais foi favorável ao ídolo da torcida rubro-negra. Outro caso significativo é o sequestro de Edevair de Souza Faria, pai do jogador Romário, ocorrido em maio de 1994 na Vila da Penha, na Zona Norte do Rio. Os sequestradores exigiram um resgate exorbitante de 7 milhões de dólares e mantiveram a vítima em cativeiro por seis dias, sendo libertada ilesa pela polícia sem qualquer pagamento. Os relatos contidos nos autos descrevem como três homens armados abordaram Edevair ao deixar o bar Garota do Quitungo, bem como a mobilização das forças policiais e o envolvimento de líderes do tráfico que ajudaram na localização do cativeiro em uma residência em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Este fato causou grande comoção em todo o país e gerou tensão acerca da participação de Romário na seleção brasileira às vésperas da Copa dos Estados Unidos, uma vez que ele ameaçou deixar a equipe caso seu pai não fosse libertado. Naquela época, Romário jogava pelo FC Barcelona e era considerado um dos principais jogadores da Seleção. A resolução desse caso permitiu que ele seguisse para o Mundial e contribuísse significativamente para conquistar o tetracampeonato brasileiro.
