Canetinhas emagrecedoras: mitos e verdades sobre o medicamento

As chamadas “canetinhas emagrecedoras” se tornaram um dos assuntos mais comentados quando o tema é perda de peso. Aplicados por meio de injeções, medicamentos como semaglutida e tirzepatida atuam em mecanismos relacionados à saciedade e ao controle da glicose e podem contribuir para uma redução significativa do peso corporal em pessoas com indicação médica. A quebra de patente da semaglutida no Brasil, este ano, trouxe ainda mais polêmica, tendo em vista a potencial queda de preço e ampliação do público consumidor. E há uma consequência dessa popularização: as canetinhas não estão mudando apenas o tratamento da obesidade, mas também o padrão estético.

Porém, a enorme popularidade também trouxe uma série de informações equivocadas. Nas redes sociais, é comum encontrar promessas de emagrecimento rápido, relatos de efeitos milagrosos e até recomendações de uso sem acompanhamento profissional. Afinal, o que é mito e o que é verdade quando o assunto são as canetinhas emagrecedoras?

Mito: as canetinhas “derretem” a gordura

Os medicamentos não queimam gordura de forma direta e instantânea. Eles atuam principalmente em vias hormonais que ajudam a aumentar a sensação de saciedade, reduzir a fome e, em alguns casos, retardar o esvaziamento do estômago. Com menor ingestão de alimentos, ocorre redução do consumo de calorias e, consequentemente, perda de peso.

Verdade: elas podem ajudar na perda de peso

Continua após a publicidade

Estudos clínicos mostram que medicamentos dessa classe podem produzir uma perda de peso relevante quando utilizados por pessoas que têm indicação para o tratamento. Os resultados, entretanto, variam de acordo com o medicamento, a dose, as características individuais e a adesão ao tratamento.

Isso não significa que todas as pessoas terão o mesmo resultado ou que o medicamento substitua alimentação equilibrada, atividade física e acompanhamento médico. Manter um estilo de vida saudável colabora bastante para que o remédio tenha efeito.

Mito: quanto maior a dose, mais rápido será o emagrecimento

Continua após a publicidade

Aumentar a dose por conta própria não é uma estratégia segura ou recomendável. Esses medicamentos normalmente seguem um esquema gradual de introdução e ajuste de dosagem, justamente para melhorar a tolerabilidade e reduzir o risco de efeitos adversos. Náuseas, vômitos, diarreia, constipação, dor abdominal e redução excessiva do apetite estão entre as reações que podem ocorrer. A dose adequada deve ser definida pelo profissional responsável pelo tratamento.

Verdade: podem causar efeitos colaterais

Apesar de serem eficazes para pacientes selecionados, as canetinhas não são isentas de riscos. Os efeitos gastrointestinais são frequentes, principalmente durante o início ou após aumentos de dose. Por isso, sintomas persistentes ou intensos devem ser comunicados ao médico. O histórico de saúde do paciente também precisa ser considerado antes da prescrição, já que existem situações em que esses medicamentos não são indicados ou exigem cuidados especiais.

Mito: depois de emagrecer, nunca mais é preciso usar o medicamento

Continua após a publicidade

O tratamento da obesidade não deve ser encarado como uma “cura rápida”. Em muitos casos, a obesidade é uma condição crônica que exige acompanhamento de longo prazo. A interrupção do medicamento pode ser seguida pelo retorno de parte ou de todo o peso perdido em algumas pessoas.

Isso não significa que o paciente necessariamente precisará usar a medicação para sempre. A duração do tratamento deve ser individualizada e discutida com o médico.

Verdade: o peso pode voltar depois da suspensão

Continua após a publicidade

O organismo possui mecanismos que regulam fome, saciedade e peso corporal. Quando o medicamento é retirado, esses efeitos deixam de atuar da mesma maneira. Por isso, algumas pessoas recuperam peso após interromper o tratamento. A manutenção dos resultados depende de diversos fatores, incluindo hábitos alimentares, atividade física, sono, acompanhamento profissional e a própria resposta individual do organismo.

Mito: quem quer perder poucos quilos deve usar a canetinha

A indicação não deve ser baseada apenas no desejo de perder alguns quilos. Esses medicamentos foram desenvolvidos para situações específicas e precisam ser avaliados de acordo com critérios médicos, como índice de massa corporal, presença de doenças associadas e histórico do paciente. Usá-los apenas para atingir um determinado padrão estético pode expor a pessoa a riscos desnecessários.

Mito: “Cheguei ao meu peso, posso parar e pronto.”

Continua após a publicidade

Não é tão simples. Estudos em pessoas com obesidade mostram que uma parcela importante do peso perdido pode ser recuperada após a suspensão do tratamento. Isso significa usar canetinha pelo resto da vida? Não. A duração do tratamento deve ser individualizada.

Mito: “Se eu quero perder cinco ou seis quilos, por que não usar?”

Talvez esse seja o maior mito de todos. Porque medicamento não deve ser indicado apenas pelo número que alguém gostaria de ver na balança. IMC, doenças associadas, histórico clínico, outros medicamentos e a relação com alimentação e imagem corporal precisam entrar nessa decisão. Não à toa, a Anvisa determinou a obrigatoriedade de receita para a compra desses medicamentos.

Verdade: automedicação é perigosa

Comprar ou utilizar uma canetinha sem prescrição, compartilhar o medicamento com outra pessoa ou alterar a dose por conta própria pode trazer problemas, com pedra na vesícula e colecistite, pancreatite, perda de massa muscular e hipoglicemia. Além dos possíveis efeitos adversos, há o risco de uso inadequado, contraindicações e produtos de procedência duvidosa. A busca por resultados rápidos não deve substituir a avaliação de um profissional de saúde.

Mito: a canetinha substitui dieta e exercício

Mesmo quando o medicamento é indicado, ele faz parte de uma estratégia mais ampla de tratamento. Alimentação adequada e atividade física continuam importantes para a saúde e para a manutenção da perda de peso. A principal vantagem das medicações é atuar sobre mecanismos que dificultam o controle da fome e da ingestão alimentar, facilitando a adesão a mudanças de estilo de vida para determinados pacientes.

Verdade: o tratamento precisa ser individualizado

Não existe uma “canetinha ideal” para todo mundo. A escolha do medicamento depende da avaliação médica, dos objetivos do tratamento, das doenças associadas, de outros medicamentos em uso e da tolerância aos efeitos adversos.

Antes de iniciar qualquer tratamento para emagrecimento, é fundamental conversar com um profissional habilitado. A promessa de perder peso rapidamente pode ser sedutora, mas, quando o assunto é saúde, segurança e acompanhamento devem vir antes da velocidade do resultado.

As canetinhas emagrecedoras representam uma importante ferramenta no tratamento da obesidade, mas estão longe de ser uma solução milagrosa. Conhecer seus benefícios, limitações e riscos é o primeiro passo para evitar expectativas irreais e fazer escolhas mais seguras.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp (CRM 5249669-2 e RQE 21502); professora da PUC-Rio e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

 

Publicidade

Deixe um comentário