Irã representa um revés estratégico mais significativo que o Vietnã para o imperialismo americano, diz Foreign Policy

A publicação americana Foreign Policy trouxe à tona, em 16 de junho, uma análise que considera a derrota dos Estados Unidos na guerra contra o Irã como “mais significativa que o Vietnã”. O autor do artigo, Paul Musgrave, que é professor associado de governo na Universidade Georgetown, localizada no Catar, destaca que a ofensiva iniciada por Donald Trump contra Teerã resultou em um “desastre estratégico” para Washington.

Musgrave classifica a guerra contra o Irã como uma “guerra de escolha” promovida por Washington e a descreve como uma “calamidade estratégica” para o imperialismo americano. Ele observa que, apesar da Guerra do Vietnã ter causado um número significativamente maior de baixas entre os soldados estadunidenses, as repercussões geopolíticas da derrota frente ao Irã são mais severas.

O autor explica que, enquanto a Guerra do Vietnã foi uma “mancha cultural” para os EUA, suas implicações sobre os objetivos estratégicos globais de Washington foram limitadas. Em contrapartida, a derrota diante do Irã posicionou os EUA em uma situação “fundamentalmente mais fraca”, afetando diretamente metas centrais da política externa americana.

Alegações de vitória e análises divergentes

Em um estudo divulgado no Substack, o jornalista Markham Hislop também analisa o acordo entre os EUA e o Irã como um revés para Washington. Hislop argumenta que Trump anunciou a guerra com a promessa de restaurar a hegemonia americana, desmantelar o programa nuclear iraniano e submeter Teerã à vontade dos EUA.

No entanto, segundo Hislop, o resultado foi exatamente oposto ao prometido. O acordo mantém pontos essenciais defendidos pelo Irã, não resolve a questão nuclear e reafirma a capacidade iraniana de influenciar um dos principais pontos críticos de energia global.

O jornalista conclui que Trump não conseguiu forçar a rendição iraniana; ao contrário, criou condições para que Teerã exigisse compensações pela agressão sofrida. “Isso não é vitória; é um fracasso disfarçado”, enfatizou Hislop.

Limitações dos arsenais americanos

Musgrave ressalta que o conflito com o Irã evidenciou a “superficialidade dos arsenais dos EUA”. A vantagem técnica das armamentos americanos não impediu uma derrota estratégica ante à Resistência Iraniana. Em um cenário de guerra assimétrica, Washington revelou as limitações das soluções militares diretas e falhou em atingir seus objetivos junto ao aliado sionista “Israel”.

Analistas apontam que as metas iniciais do eixo ianque-sionista foram desmoralizadas: tanto os EUA quanto “Israel” não conseguiram obter uma vitória rápida, destruir as capacidades defensivas do Irã ou estabelecer um governo submisso em território iraniano.

Além disso, Musgrave argumenta que as forças iranianas demonstraram habilidade em penetrar os sistemas defensivos americanos. Para ele, uma das imagens marcantes desse conflito não será a tecnologia militar dos EUA, mas sim as mochilas ensanguentadas de meninas iranianas vítimas do ataque à escola em Minab.

A complexidade da região do Golfo Pérsico

A publicação Foreign Policy também destaca uma diferença crucial entre o contexto do Irã e do Vietnã: os Estados Unidos não têm a opção de abandonar o Golfo Pérsico como fizeram no Sudeste Asiático.

Musgrave explica que a economia global está intrinsecamente ligada às cadeias de suprimentos provenientes dessa região, abrangendo produtos como hidrocarbonetos, hélio e fertilizantes. Assim sendo, qualquer uso do Estreito de Ormuz como ferramenta de pressão representa uma ameaça direta ao comércio mundial.

A análise indica que essa instrumentalização pode causar “dano significativo ao comércio global” e revela um insucesso em assegurar um objetivo primordial dos EUA: garantir a liberdade de navegação – defendida por Washington há mais de duzentos anos como base da sua política externa.

Hislop chega à mesma conclusão por outra via. Ele observa que Trump transformou um sistema onde os EUA se apresentavam como garantidores da navegação em Ormuz em uma situação onde o Irã demonstrou sua capacidade de influenciar fluxos globais de energia e forçar negociações com Washington.

Ormuz como instrumento estratégico

A análise publicada pela Foreign Policy e por Hislop corrobora pontos já discutidos por AND no programa A Propósito #367, exibido em 11 de junho. Naquele evento, Victor Bellizia, diretor-geral do jornal, enfatizou que o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz se tornou uma arma crucial de dissuasão e retaliação econômica contra o imperialismo americano.

Bellizia mencionou que Trump manteve sua retórica agressiva contra Teerã mas acabou recuando diante da impossibilidade de ignorar a alavanca estratégica exercida pelo Irã sobre Ormuz. Segundo ele, isso não foi apenas uma “chance” dada por Trump às negociações; foi um recuo frente à correlação de forças imposta pelo país persa.

<p“O recuo ocorreu porque o Irã exerce controle sólido e inalterado sobre o Estreito”, afirmou Bellizia. “Esse controle efetivo se tornou a principal ferramenta de dissuasão econômica contra o imperialismo americano”, completou.

Pela perspectiva da AND, ficou claro que a guerra contra o Irã provou ser inviável para alcançar vitórias rápidas ou com custos baixos. O agressor foi obrigado a enfrentar um conflito prolongado e assimétrico cujos custos são significativamente maiores para os Estados Unidos do que para os iranianos.

Bellizia ressaltou que os americanos precisam operar dentro das restrições impostas pelo conceito estratégico prolongado imposto pelo Irã; isso resulta em gastos militares elevados e aumenta tanto os custos econômicos quanto as tensões internas enfrentadas por Trump.

Erosão da hegemonia americana

No fechamento da análise, Musgrave conclui que o conflito com o Irã debilitou substancialmente a liderança internacional dos Estados Unidos. O artigo sugere que aliados começam a perder confiança em Washington enquanto rivais se sentem mais encorajados a desafiar sua hegemonia.

Hislop também observa que muitos aliados dos EUA hesitaram em apoiar Trump na guerra contra Teerã. Esses países ainda desejam estabilidade proporcionada pela potência americana mas já não confiam plenamente no julgamento estadunidense quando se trata de seguir suas decisões bélicas.

Cadeias recentes de derrotas estratégicas

A avaliação apresentada pela Foreign Policy reitera observações feitas anteriormente pela AND, relacionadas às sucessivas derrotas estratégicas enfrentadas pelo imperialismo americano. A primeira delas foi marcada pela retirada do Afeganistão em 2021; seguida pela crise originada pelo Dilúvio de Al-Aqsa em 7 de outubro de 2023; e agora pela incapacidade dos EUA em vencer através da guerra contra o Irã.

No cenário palestino, a Operação Dilúvio de Al-Aqsa rompeu as barreiras militarizadas impostas pela entidade sionista e expôs as fraquezas do aparato ocupacional sustentado pelos Estados Unidos. Desde então, “Israel” falhou em concluir suas operações conforme prometido por Netanyahu enquanto os conflitos se ampliaram incorporando Líbano, Iémen e até mesmo o Irã.

No tocante ao Irã, Washington não conseguiu instalar um governo submisso nem desmantelar suas defesas ou isolar Teerã das frentes regionais aliadas à resistência.

A comparação feita com o Vietnã por uma revista voltada ao debate sobre política externa reflete setores dentro do próprio imperialismo reconhecendo a gravidade dessa derrota.

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